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quinta-feira, 29 de outubro de 2015 | | 0 comentários

Sobre a felicidade e a depressão

De qualquer forma, o extraordinário sucesso da depressão e dos antidepressivos não existiria se nossa cultura não atribuísse um valor especial à felicidade (da qual a depressão nos privaria). Ou seja, ficamos tristes de estarmos tristes porque gostaríamos muito de sermos felizes.

Coexistem, na nossa época, dois fenômenos aparentemente contraditórios: a depressão e a valorização da felicidade. Será que nossa tristeza, então, não poderia ser um efeito do valor excessivo que atribuímos à felicidade? Quem sabe a tristeza contemporânea seja uma espécie de decepção".

Fonte: Contardo Calligaris,
“A felicidade é deprimente”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 29/10/15.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015 | | 0 comentários

Beleza faz, sim, diferença!

Beleza é fundamental, já dizia o poeta. Agora no século 21 temos condições não apenas de confirmar essa predisposição humana mas também de esquadrinhá-la e quantificá-la. É o que faz Christian Rudder, autor de “Dataclisma: Quem Somos Quando Achamos que Ninguém Está Olhando”.

(...) Homens e mulheres considerados bonitos são mais populares no Facebook. (...) Mas é no emprego que a coisa fica muito mais assimétrica.

Aqui, a beleza masculina quase não afeta as chances de ser chamado para entrevistas de contratação. A curva é uma linha. Já para elas, a curva é exponencial.

(...) Pior, coisas parecidas ocorrem nos tribunais. Pessoas mais bonitas têm menos chance de ir para a cadeia e, quando vão, tendem a pegar sentenças menores que os feios. (...)

Fonte: Hélio Schwartsman,
"Ai dona fea!", Folha de S. Paulo, Opinião, 4/10/12, p. 2.

terça-feira, 29 de setembro de 2015 | | 0 comentários

Descansar a mente é preciso

Abaixo, trechos de interessante entrevista do neurocientista Daniel Levitin – especializado em psicologia cognitiva e professor da McGill University - ao caderno “Aliás”, do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Autor do livro “A Mente Organizada”, ele “observa o que têm em comum as pessoas bem-­sucedidas e produtivas” e “sugere estratégias de organizar a memória – esvaziá­-la com exercício e instrumentos que chama de extensões do cérebro”:

(...) O que é a obsolescência evolucionária, que o senhor aponta como parte do obstáculo para lidar com o excesso de informação?
Todos os organismos vivos estão constantemente se adaptando ao meio ambiente. (...) Mas é um longo e lento processo. Nosso cérebro evoluiu para lidar com um ambiente que existia há 10, 20 mil anos. O genoma humano precisa de tempo para se adaptar. Para você ter uma ideia, em 30 anos quintuplicou a quantidade de informação que recebemos a cada dia. Pense nisso como o equivalente a ler 175 jornais de ponta a ponta diariamente. Outro número extraordinário: em 1976, nos Estados Unidos, havia cerca de 9 mil produtos únicos à venda num supermercado. Hoje, há cerca de 40 mil. O consumidor americano, que compra uma média de 150 produtos, tem que navegar entre uma quantidade muito maior de escolhas.

(...) A palavra multitarefas, executar várias tarefas ao mesmo tempo, é indissociável da rotina do século 21. Mas o senhor diz que multitarefas não passam de ficção.
Não existem multitarefas, é um mito. O cérebro simplesmente não comporta isso. A pessoa pensa que está lidando com várias coisas ao mesmo tempo quando, de fato, o cérebro está experimentando rápidas mudanças de foco que mal percebemos, o que resulta numa atenção fragmentada a várias coisas e nenhuma atenção sólida a uma que seja. (...)

O senhor diz que uma ferramenta útil para priorizar são os chamados exercícios de limpeza da mente.
Sim. O David Allen, um guru da produtividade e autor de “A Arte de Fazer Acontecer”, aponta para a importância de externalizar a informação. Recomenda anotar tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que têm a ver com a tarefa em questão e preocupações que podem distrair a pessoa. É um processo neurológico, porque o cérebro teme esquecer o que é importante. Quando o cérebro sabe que a informação foi arquivada externamente, nas anotações, e o efeito é de nos acalmar, é libertador. Retira o entulho mental que prejudica a atenção. (...)

Em tempo: a íntegra da entrevista, com os devidos créditos da fonte, está no link na abertura desta postagem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015 | | 0 comentários

A tecnologia e o tempo

A “Folha de S. Paulo” publicou no caderno “Ilustríssima”, no fim de semana, uma interessante entrevista com a pensadora australiana Judy Wajcman, da área de sociologia da “London School of Economics and Political Science”. Ela fala sobre seu novo livro, "que discute a influência da tecnologia no ritmo da vida contemporânea”.

A seguir, reproduzo um trecho (e recomendo a leitura na íntegra a partir do link acima - é preciso senha da "Folha" ou do UOL):

Folha - Como a senhora responde à questão central do livro: por que as pessoas procuram os aparelhos digitais para aliviar a pressão do tempo, mas ao mesmo tempo culpam essas mesmas tecnologias por se sentirem mais pressionadas?
Judy Wajcman -
Esse é o paradoxo. E acho que é realmente verdade. Em todas as pesquisas que você conduz, particularmente em empregos gerenciais, mas entre todo mundo, as pessoas sentem que a vida é muito ocupada e acreditam completamente que parte da solução é usar mais o e-mail e ter mais "gadgets", de forma a aproveitar o tempo livre.

Creio que as tecnologias sejam muito contraditórias em seus efeitos. Não quero dizer que as pessoas têm uma falsa consciência, porque elas têm consciência. Acho que seres humanos são muito capazes de manter visões e experiências contraditórias, e para mim as tecnologias expressam isso. As pessoas vivenciam as tecnologias como algo que toma muito tempo, reclamam da quantidade de e-mails que têm de responder e se queixam das ligações para o celular, mas estão o tempo todo escrevendo e-mails e fazendo ligações.

Também penso que, numa perspectiva de longo prazo, essas tecnologias são ainda muito novas e precisamos levar isso em consideração. Quando comecei a me dedicar às tecnologias, eu trabalhava com a parte industrial, nas fábricas, e alguém me perguntou sobre o telefone fixo – e eu nunca nem tinha pensado sobre isso. Eu dava a existência do telefone como um fato, era parte da vida cotidiana, e nunca poderia teorizar sobre ele, não pensava que fosse um objeto para a sociologia.

Acho que e-mails e celulares – têm o quê, 15 anos de idade? – são coisas incrivelmente novas. Se tivéssemos essa conversa daqui a outros 15 anos, provavelmente teríamos uma outra percepção. Acho que a novidade é parte da dificuldade para analisá-los. (...)

domingo, 30 de agosto de 2015 | | 0 comentários

A nova era digital: reflexões sobre o pau de selfie

(...) Em um mundo altamente tecnológico, o "pau de selfie" se destaca pelo aspecto tosco. Os que esperavam carros voadores e lentes multifuncionais se viram decepcionados pela realidade: o invento mais popular do ano é um bastão.

Atrás dessa aparente simplicidade, porém, se esconde uma revelação profunda sobre o mundo contemporâneo. Como o velho cajado que amparou nossos antepassados, o “pau de selfie” nos oferece segurança diante de um mundo perigoso. Não é só a nossa proteção no isolamento mas uma resposta a essa angústia do ser humano contemporâneo – a de constatar sua própria existência.

Fonte: Emilio Lezama, tradução de Francesca Angiolillo,
“Papparazi de nós mesmos”, Folha de S. Paulo, Ilustríssima, 30/8/15.

terça-feira, 4 de agosto de 2015 | | 0 comentários

Nós, os imbecis (?)

(...) O escritor italiano (Umberto Eco) não tem boas palavras para as redes sociais. Há um mês, ao receber o título de doutor honoris causa na Universidade de Turim, disse que "a mídia social dá voz a uma legião de imbecis, que antes falava apenas no bar depois de beber uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".

"Hoje eles têm o mesmo direito de palavra de um Prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis", afirmou, no discurso de agradecimento. "O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade."

As palavras soam duras e reducionistas. O saldo da popularização da internet e da facilidade de divulgação de opiniões que dela advém é mais positivo que negativo. Hoje, qualquer pessoa com uma conexão ou um celular diz em poucos segundos o que pensa sobre qualquer tema e, em países como a Itália ou o Brasil, sem censura.

O problema é que, assim como nos bares, no Facebook, no Twitter e no Instagram os imbecis fazem mais barulho que os sensatos. (...)

Fonte: Sérgio Dávila,
“Os imbecis estão ganhando”, Folha de S. Paulo, Opinião, 12/7/15.

***

(...) Segundo estudo recente da consultoria americana A.T. Kearney, o Brasil é o país com maior porcentagem de pessoas na faixa mais alta de permanência on-line: 51%, ante 37% do segundo colocado, a Nigéria, e 25% dos americanos. Somos um povo conectado/ disponível/on-line.

Isso tem implicações. Uma delas o canadense Michael Harris chama de "o fim da ausência", no poético título de livro recém-lançado nos EUA ("The End of Absence", Penguin). Estamos o tempo todo não só acessíveis virtualmente como compartilhando tudo o que vivemos. Isso faz com que tenhamos pouco tempo para digerir nossas experiências – para viver. (...)

Fonte: Sérgio Dávila,
“A gente somos ‘smupids'", Folha de S. Paulo, Opinião, 26/7/15.

* Leia também:


terça-feira, 27 de janeiro de 2015 | | 0 comentários

Na prisão de "bacanas", a hipocrisia da sociedade

Como a sociedade é hipócrita - principalmente em lugares provincianos como Limeira.

Quando a polícia prende gente desconhecida (eventualmente pobre), recebe aplausos e pedidos de "quero mais".

Quando prende "habitués" de colunas sociais, surgem comentários do tipo "é preciso orar por eles", "todo mundo comete erros", "não devemos julgar" e daí por diante.

HIPOCRISIA!

Estava certo o então promotor da Cidadania em Limeira, Cleber Rogério Masson, que um dia me disse numa entrevista que a mesma sociedade que condena um menor que roubou (e muitas vezes pede a pena de morte) aprecia sair em fotos com corruptos de alta patente.

Será muito pedir que a todos sejam dadas a lei e a Justiça? 

Apenas isto.

sábado, 24 de janeiro de 2015 | | 0 comentários

Que civilização é esta?

A Federação Paulista de Futebol (FPF) se vê obrigada a levar para o interior um clássico da capital – Corinthians x São Paulo – por um torneio de juniores para evitar violência de torcidas.

Mais: a mesma FPF decide cobrar ingresso especificamente para essa partida numa copa em que todos os jogos são tradicionalmente de graça. Mais uma vez para tentar espantar a torcida.

E mais: ao levar o jogo para o interior (Limeira), a Polícia Militar determina que as torcidas dos dois times sigam (escoltadas, registre-se) cada qual por uma rodovia (Anhanguera e Bandeirantes).

Ao final da partida, a mesma PM determina que, por segurança, a torcida do São Paulo aguarde 30 minutos após a saída dos corintianos para evitar confrontos – inevitáveis há anos (alguns descumpriram a determinação e provocaram um tumulto ao redor do estádio).

Tantas medidas assim para separar seres humanos (racionais?) que apenas cometem o erro e a heresia de torcerem para times diferentes.

Será a falência absoluta da sociedade?

terça-feira, 11 de novembro de 2014 | | 0 comentários

Uma reflexão sobre nosso mundo virtual

Acabei de ler um livro muito especial para mim (história já narrada neste blog): “The virtual self – how our digital lives are altering the world around us” (algo como “O ser virtual – como nossas vidas digitais estão mudando o mundo ao nosso redor”), de Nora Young.

A obra aborda um tema extremamente atual. A autora canadense faz um diagnóstico e, a partir dele, introduz complexas discussões suscitadas pelo “adorável mundo novo” da tecnologia.

A seguir, algumas anotações que fiz a partir da leitura (importante: os trechos não são traduções literais).

***

Somos uma sociedade viciada em números, mas ainda não definimos bem o que pode ser feito com eles, o que significa afinal viver num mundo digital e ser cidadão.

Tudo começou com o autorrastreamento de dados, que decolou com a popularização de equipamentos dotados de sensores eletrônicos, cada vez menores e melhores. A facilidade de uso se somou à possibilidade de compartilhar os dados, criando uma espécie de “superinteligência global”.

“É uma espécie de jogo que jogamos com nós mesmos para aprender sobre nós mesmos”, disse Carlos Rizo, do projeto “Quantified Self Toronto” (mais aqui).

Ou seja: o virtual ajuda a conhecer o real – e produz efeitos colaterais, já que ter consciência do que se faz é o primeiro passo para mudar comportamentos (imagine, por exemplo, no rastreamento de dados sobre suas atividades físicas).

Como disse Ben Franklin: cria-se um perfeito e detalhado retrato de nós mesmos que, usado apropriadamente, permite checar nosso comportamento. O risco é tornar o corpo um objeto. E o desafio é não perder contato com nosso interior e o mundo real.

Podemos conhecer pessoas e aprender sobre elas sem estar perto fisicamente. O lado ruim é que perdemos contato pessoal, até com aqueles de quem gostamos.

E não pense que é possível escolher participar deste “mundo novo”: só de usar ferramentas digitais você está envolvido numa rede de dados.

O ser humano é, por si, uma criatura compulsivamente social. A diferença hoje é que temos ferramentas para compartilhar informações facilmente. E isto - feito por milhares de pessoas - transforma o mundo.

Atualmente, é possível fazer o que só sofisticados serviços de inteligência conseguiam: saber exatamente onde as pessoas estão e deduzir o que estão fazendo. Isto muda a compreensão de nossa relação com o mundo.

Contudo, o uso das novas tecnologias envolve complexas regras sociais e há pouca discussão a respeito. Afinal, é possível que os dados que fornecemos falem mais de quem realmente somos do que as histórias que contamos.

Dados sobre nossas vidas são importantes para nós, mas também para outros. A questão que se coloca é: quem vai usar esses dados e como? Eu tenho direito de guardar e usar uma conversa, por exemplo?

Estamos diante de uma sociedade que pode ser muito mais transparente e também mais invasiva. A natureza fácil e automática de muitas ferramentas significa que não precisamos saber como elas funcionam para usá-las. Mas se não sabemos como funcionam, podemos estar usando-as sem cuidado.

Informações colhidas num contexto, por exemplo, podem ser usadas em outro – e isto pode ser benéfico ou perigoso.

Por isso, um desafio é criar aplicações úteis para o uso dos dados.

O fato é que criamos dados e eles produzem valor.

Atualmente, o compartilhamento de dados não é só a chave do “network social”, mas também dos negócios.

Há, porém, uma diferença (quase ética) entre dados que geramos propositalmente e os que fornecemos inadvertidamente.

Precisamos balancear os modelos de negócio das companhias que querem usar nossos dados, o valor social dessa informação e, o mais importante, nossos direitos.

As companhias têm que ser transparentes sobre como estão usando nossos dados – uma relação hoje restrita aos “termos de serviço” ou “termos de uso” que geralmente avalizamos sem ler.

Este novo ecossistema de informações exige uma nova política de dados – algo como  o Marco Civil da Internet, aprovado este ano pelo Congresso brasileiro e considerado referência.

Mas é preciso considerar que a lei é absolutamente lenta para lidar com a evolução tecnológica. “Precisamos de um ‘new deal’ de dados”, diz Alex Pentland, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Uma outra tarefa interessante é pensar em iniciativas não só para tornar dados públicos, mas também para o público criar dados úteis. Isto pode ser uma nova forma de democracia e de tornar mais inteligente a vida nas cidades. Uma espécie de “data democracy”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014 | | 0 comentários

Caso Adnet: público, privado, imprensa e sociedade

(...) Na verdade, acho muito mais feio o comportamento do paparazzo que seguiu Adnet até conseguir as fotos comprometedoras. Claro que eu sei que o cara estava trabalhando - mas há alguma coisa errada numa sociedade onde uma atividade dessas rende dinheiro.

Fico igualmente incomodado com a enxurrada de comentários agressivos, e também com os portais e sites que repercutiram a notícia. (...)

Mas me pergunto: será que não estamos indo longe demais?

Fonte: Tony Goes, “Estamos indo longe demais no caso de Marcelo Adnet?”, postado no F5/UOL, em 10/11/14.

*** 

(...) os brasileiros parecem muito à vontade para discutir a vida privada de atores ou celebridades. O frenesi recente, causado pela foto, obtida por um paparazzo, do humorista Marcelo Adnet beijando uma mulher que não a sua, mostra isso claramente.

Tenho uma dúvida: qual é a diferença? Por que expor a intimidade de um ator parece normal, corriqueiro, e tratar abertamente da vida privada de um político dá a impressão de ser tão chocante? Qual das duas atitudes está errada?

Fonte: Mauricio Stycer, “Por que a exposição da intimidade de Adnet foi aceita e a de Aécio não?”, Blog do Mauricio Stycer/UOL, postado em 10/11/14.

Leia também:

terça-feira, 30 de setembro de 2014 | | 0 comentários

O fim do sexo?

(...) Os especialistas na matéria puxaram pelas respectivas cabeças e falaram de tudo: a crise econômica chegou aos lençóis; a pressão sobre os homens para serem mais "femininos" e ajudarem nas tarefas domésticas arruinou a testosterona dos machos; e o consumo alarmante de pornografia transformou o ato, a naturalidade do ato, em algo que não possui a mesma grandeza insana - e a mesma dureza peniana - da ficção.

Admito que tudo isso seja verdade. Mas existe uma verdade mais básica que tornou possível todas essas possibilidades: uma cultura que fez da "dessacralização" do sexo a sua obsessão, acabou com todas as obsessões. Acabou, no fundo, com o tipo de "tabus" que os nossos avós reservavam para o quarto. (...)

Fonte: João Pereira Coutinho,
“Transando com estátuas”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 30/9/14.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014 | | 0 comentários

Virtudes & atitudes

Quatro virtudes: coragem, sabedoria, amor e amizade.

Duas atitudes: inspiração e fé.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014 | | 0 comentários

Por quê? (sobre proteção e autonomia)

(...) Mas vale a pena se perguntar: se o mundo não é mais perigoso do que já foi, o que aconteceu? Por que nos tornamos supervisores compulsivos de nossas crianças?

Pois bem, o mundo não é mais hostil do que já foi, mas nossa confiança nele diminuiu, e talvez compensemos nossa falta de confiança protegendo nossas crianças da hostilidade que nós enxergamos no mundo.

Nota: como era previsível, proteger excessivamente nossas crianças as torna mais desconfiadas - não mais seguras. Se quiséssemos que nossas crianças fossem confiantes, seria preciso que elas fossem mais autônomas.

Regra sobre a qual valeria a pena voltar: a autonomia produz confiança, a proteção, ao contrário, produz insegurança.

Fonte: Contardo Calligaris, “Crianças protegidas e inseguras”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 18/9/14.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014 | | 0 comentários

Sobre a barba alheia

Confesso que nunca tinha pensado na barba como um símbolo político - embora isto seja mais do que evidente. Tampouco havia imaginado como a barba (e de resto as vestimentas e outros acessórios) mudou ao longo das décadas e séculos conforme não apenas os padrões sociais, mas também (e talvez acima de tudo) em razão de aspectos políticos.

Quem apresentou a questão foi Marcelo Coelho em artigo na "Folha de S. Paulo", publicado neste 27/8/14, ao constatar a volta da moda das barbas longas:

(...) A volta da barba grande coincide, não sei se por acaso, com o retorno a táticas mais violentas de protesto. Assim como as balaclavas, a barba corresponde ao desejo de dificultar a identificação policial. 

Passemos, terá dito alguém, da teoria à prática! Dos contestadores com rosto de anjo, dos atletas de brinco e dos skatistas críticos do sistema, transita-se para uma versão mais enfezada e radical. (...)

terça-feira, 26 de agosto de 2014 | | 0 comentários

"Ricos meninos pobres"

Em sua autobiografia "O Filho do Trapeiro", Kirk Douglas escreveu: "Meus filhos não tiveram a vantagem que eu tive. Nasci pobre". Kirk, filho de judeus russos, tinha 30 anos quando fez seu primeiro filme. Isso foi em 1946. Mas, dois ou três filmes depois, tornara-se um astro de Hollywood e seus meninos já nasceram com uma colher de prata na boca.

Reportagem de Flávia Barbosa, correspondente de "O Globo" em Washington, publicada há dias, descreve como alguns dos homens mais ricos dos EUA decidiram legar grande parte de sua fortuna a projetos de caridade, pesquisa e educação, deixando aos filhos apenas um trocado para o bonde e o cafezinho - para obrigá-los a descobrir e investir em suas capacidades, em vez de se contentarem com a profissão de herdeiros. (...)

Fonte: Ruy Castro, “Folha de S. Paulo”, Opinião, 22/8/14, p. 2 (íntegra
aqui).

quinta-feira, 14 de agosto de 2014 | | 0 comentários

Sobre o politicamente correto

(...) Ao contrário de outros defensores do humor sem patrulhas, não vejo o politicamente correto como o inimigo a ser esmagado. Prefiro descrevê-lo como o efeito colateral de um movimento civilizador, que foi a mobilização da sociedade para conter seus impulsos racistas e sexistas. É claro que o fato de o PC (politicamente correto) ter uma origem bacana não elimina a necessidade de combater seus exageros.

Se há algo tão ruim quanto uma pilhéria de gosto duvidoso, é perder a capacidade de rir das incongruências do mundo. A diferença é que, enquanto a primeira tende a ser resolvida com o silêncio que reservamos às piadas sem graça, a falta de humor priva a vida de seus sabores.

Fonte: Hélio Schwartsman, "Juventude carrancuda", Folha de S. Paulo, Opinião, 13/8/14, p. 2.

terça-feira, 24 de junho de 2014 | | 0 comentários

A vida cobra, por isso pense antes de agir

Arrisco-me a uma sentença que parecerá definitiva: numa visão de longo prazo, a humanidade tende à evolução e à bondade.

Dito assim, num momento em que o mundo se apresenta violento, intolerante e egoísta, até parece uma sentença absurda e sem fundamento. É preciso, portanto, olhar num grande retrovisor da história e num grande projetor do futuro.

Vamos, pois, ao microcosmo da sentença. Há um ditado que diz: “Não faça para o outro o que não gostaria que fizessem para você”.

Traiu alguém - seja um amigo, um amor ou uma empresa? Participou de uma traição/adultério ou colaborou para que isto ocorresse? Tirou vantagem indevida do outro? Falou maldades? Pregou a divisão ou contribuiu para que ela se desse? Foi rancoroso, alimentou ou semeou o ódio?

Se age ou agiu assim, tenha certeza de que na vida “o que se faz, paga-se” e que “colhe-se o que se planta”.

O “troco” não virá necessariamente na mesma moeda. Ou seja, não é porque traiu ou participou de uma traição que será obrigatoriamente traído (embora eu já tenha visto isto). A vida irá “cobrar” seus atos, mas de formas que a própria razão desconhece.

A lei do universo é mais sutil do que pensamos, mas o fato é: o que se fez para outro em algum momento, de alguma forma, voltará para você. Alguns chamam isto de "lei do retorno".

Então você pode pensar: se cometi um erro, é inevitável que eu pague por ele?

De alguma forma sim, mas a vida e o universo são tão sagazes e perfeitos que dão ao ser humano a oportunidade de corrigir eventuais equívocos. Para isto, há três passos (e o trabalho só estará completo se TODOS estes passos forem dados): verdade, perdão e reconciliação (consigo, com outrem, com o mundo).

Por isto, neste permanente processo de depuração, creio que o mundo tende ao bem. O processo é longo, bem longo, leva gerações, mas um dia a humanidade há de chegar lá.

terça-feira, 17 de junho de 2014 | | 0 comentários

A crônica falta de educação brasileira

(...) Na raiz e na forma daquele fato está a realidade de que os brasileiros não têm educação nenhuma. (...)

A cafajestice é a regra, sem diferenciação entre as classes econômicas. Na vulgaridade da linguagem, na indumentária "descontraída", na ganância que faz de tudo um modo de usurpar algo do alheio, na boçalidade do trânsito, nos divertimentos escrachados, na total falta de respeito de produtores e comerciantes pelo consumidor, enganado na qualidade e furtado no valor - em tudo é o reinado do primarismo mental e dos modos da falta de educação.

O baixíssimo nível moral e intelectual do Congresso, o comercialismo dos dirigentes políticos e dos partidos, o negocismo que corrompe as administrações públicas, tudo isso é a própria falta de educação, invasiva e ilimitada. E crescente. (...)

Fonte: Janio de Freitas,
“O que se perdeu”, Folha de S. Paulo, Poder, 17/6/14.

segunda-feira, 16 de junho de 2014 | | 0 comentários

A lição do banheiro do aeroporto de Cusco

A vida ensina lições nas situações mais simples e inusitadas, em momentos inesperados.

Foi o que ocorreu comigo ao recorrer ao banheiro do aeroporto de Cusco, no Peru. O local fazia jus à antiga fama dos banheiros de aeroportos sul-americanos: era sujo e fétido.

Quando entrei na cabine, notei que o último usuário não havia feito a lição de casa da boa educação, ou seja, apertado a descarga. O trabalho sobrou para mim (outras cabines estavam igualmente sujas).

Ao sair do banheiro, pensei: “bom, ao menos deixei o local melhor do que o encontrei”.

Eis a lição: tudo o que fizermos na vida, das mais simples às mais complexas tarefas, devemos ter como missão ao menos entregar melhor do que recebemos. Isto vale para o ambiente familiar e do trabalho.

Ao refletir sobre a lição do banheiro do aeroporto de Cusco, fiz um breve “revival” mental a respeito da vida. Constatei satisfeito e – confesso – orgulhoso que nas empresas por onde passei sempre deixei os produtos e as equipes melhores e mais estruturados do que encontrei.

Eis um desafio para a vida.

As lições são postas a todo momento – aprendê-las e praticá-las cabe a cada um de nós.

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“O novo direito”

(...) A reivindicação não precisa ser justificável para ser um direito. A greve, reivindicatória ou de protesto, é um direito, se não é antissocial. Mas o que ocorre em muitas cidades brasileiras, como o ato violento dos aeroviários dirigidos pela Força Sindical, ou como a surpresa covarde dos metroviários paulistanos comandados pelo PSOL, e ações instigadas pelo PSTU como a violência "black bloc", pertencem a uma categoria nascente. São formas da pretensão de direito à violência contra o que não é violento, nem é responsável por violências econômicas, injustiças sociais nem a má qualidade de serviços públicos.

Essa pretensão de direito à violência cega, uma espécie de imitação da ditadura militar, é um chamariz para a violência contrária. É claro que a tolerância dos governantes tem limites, até porque em jogo está a sua sobrevivência política. É claro que a contenção inofensiva dos atos mais perturbadores, depositada na função das polícias, jamais ficará nos limites da civilidade se houver desafio físico à ação policial. E é o que tem havido. Quase sempre como intenção, mesmo. (...)

Fonte: Janio de Freitas, Folha de S. Paulo, Poder, 15/6/14 (íntegra aqui).