Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de abril de 2019 | | 0 comentários

Uma entrevista com o Mago

Entrevista gravada em 2017 com o escritor Paulo Coelho para uma série especial de reportagens do "Jornal da Cultura" (TV Cultura):

Paulo, você abriu há pouco mais de um ano a sua fundação em Genebra e disse numa entrevista para a revista "Isto É" que foi a primeira vez que viu sua obra completa, em todas as línguas e ficou impressionado. Queria entender que sensação é esta de um escritor que bateu um recorde de 400 semanas na lista do "New York Times", que tem mais de 210 milhões de livros vendidos, é mais que a população do Brasil, né?!, como ainda fica impressionado?

Claro, porque eu nunca tinha visto os livros assim, corridos, né? É um corredor com 1.800 edições diferentes. Embora eu só tenha escrito 20 livros, enfim, tem diversas edições. Então, quando você entra e olha aquilo, diz "Caramba, isso tudo começou em Copacabana, com um livro que ninguém acreditava". Eu não posso perder essa alegria. Se eu perder essa alegria, se eu achar que é muito "blasè", que as coisas são normais, não! É um milagre, tem que ser considerado um milagre pra mim, eu fico meio maravilhado mesmo.

As citações de seus livros viraram uma espécie de mantra no mundo inteiro, frases saem aqui e acolá pra ajudar as pessoas. Você provavelmente já ouviu muitas histórias de leitores que foram influenciados pelo que escreveu. Tem alguma que te tocou?

Ah, tem muitas... A mais recente, vou contar a mais recente, é de um cara que era de uma gangue em Liverpool. Eu não sabia inclusive que mafioso não pode tirar férias. Se tirar férias perde o ponto. Esse cara foi lá pra Tailândia. Esse cara estava na cachoeira, pumba, caiu. E era morte certa, mas ele caiu entre duas pedras e aí ele sentiu aquela proximidade da morte e ouviu uma voz dizendo que ele tinha que buscar um livro. Então, nesse interior da Tailândia, ele foi lá numa lojinha. Enfim, ele não sabia que livro era. Ele pegou o meu livro. Era meu livro - ele achou a capa meio de criança. Leu. Terminou fazendo o Caminho de Santiago e veio me entregar uma camisa do Gerrard (risos), que é um jogador do Liverpool, era aliás. Eu fiquei muito comovido com essa história.

Você falou na sua resposta anterior em "milagre". Agora conta uma história em que a pessoa ouve uma voz ou algo assim dizendo para procurar um livro e chega ao seu livro. Crê mesmo no aspecto transcendental de tudo que realizou?

Ai, que pergunta difícil! Eu não sei. Bom, eu creio em milagres, eu particularmente creio em milagres. Eu não acho que seria possível tudo o que aconteceu na minha vida sem a presença de um milagre, da proteção, de honrar o que eu estou fazendo também, porque você pode imaginar que é muito fácil, enfim, ficar achando que isso tudo é normal. Mas não é! Isso tudo, saber que as pessoas encontram o seu livro em qualquer lugar, que reverencie e celebre o que de bom acontece na sua vida, eu particularmente acredito em milagres e acho que o trabalho de todos nós, de uma maneira ou de outra, se a gente esttá fazendo com amor, ele é guiado pela energia divina.

Eu tive a oportunidade de ir para alguns países e me deparar, naquela ânsia de brasileiro de querer ter alguma referência do seu país, com livros seus em vitrines de lojas. Em que momentos você se sentiu mais "embaixador" do Brasil?
Acho que não sou eu, é o meu livro né. Eu resolvi parar de viajar, virei ermitão, já viajei muitos anos na minha vida, desde que eu era hippie até 2010. Cheguei aqui em Genebra e parei. Eu particularmente não frequento nenhum lugar para falar do Brasil, acho que o livro transcende. Curiosamente o livro não fala do Brasil, mas todo mundo acha que o livro é brasileiro. Eu achava que as pessoas iam pensar que o autor é espanhol, que o autor é suíço etc, mas não, todo mundo sabe que é brasileiro. O MediaLab, que é do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), me coloca como o brasileiro mais conhecido do mundo, o que me orgulha muito.

Você falou aí do seu recolhimento, eu queria que descrevesse um pouco como é sua rotina em Genebra. Pensa um dia em voltar a morar no Brasil?

Não chega a ser um recolhimento. Sim, penso em voltar a morar no Brasil, mas não agora, né! Convenhamos, convenhamos...! Principalmente meu bairro, que é Copacabana, tá complicado. E é o seguinte: O que eu faço todo dia é sair, normalmente A essa hora porque no verão é infernal, com 35 graus. Ir pras florestas e não pensar em nada. Ficar à vontade. Aí vou até o tempo que for necessário. Eu e minha mulher. Tenho convivido muito com minha mulher. Uma vez ou outra eu convido alguém pra jantar. Não aceito convites pra jantar e pronto, é isso! (risos) É uma rotina mesmo. Sendo que a parte que eu não gosto desta rotina é acordar muito tarde, porque como eu sei que não vou fazer nada de manhã eu termino acordando muito tarde.

Qual o tamanho do desafio de ser o "Mensageiro da Paz" no mundo de hoje?
Ai, difícil. Eu tive com dois secretários-gerais (da ONU) até agora, que me nomearam. São 12 mensageiros da Paz apenas, e a gente o que está acontecendo? As nossas mãos, de certa maneira, estão atadas, porque a ONU, por mais que ela tente fazer alguma coisa, ela depende da boa vontade dos países que fazem parte dela. Então, às vezes a gente não consegue nada e às vezes a gente consegue. Eu agora fui convidado em setembro pra ir para um barco pelo Mediterrâneo pra recolher refugiados. Eu estou seriamente tentado a sair da minha rotina e fazer isso - e também pra escrever sobre isso.

É uma pergunta clichê, mas conversando sobre o que as pessoas gostariam de saber de você, a minha chefe disse: "leio Paulo Coelho há muito tempo e os livros deles sempre saem com milhões de exemplares. Eu queria perguntar pra ele se ele tem noção se é uma mesma geração, se são novas gerações que vão sendo agregadas... Qual é o segredo disto?"
Não, não, a resposta pra ela é a seguinte: o primeiro livro saiu há 30 anos, né, "O Diário de Um Mago", 1987, nós estamos em 2017, são 30 anos, então vai se renovando. Houve um momento, lá pelo ano 2009, que as vendas pararam. Pararam, eu digo, alguns milhões só por ano. E de repente a coisa voltou, retornou. Eu não sei se foram as redes sociais... Vamos dizer que em 2008 e 2009 não teve - e talvez a falha tenha sido minha - porque eu escrevi um livro que as pessoas odiaram, que foi "O Vencedor está Só", mas se mantiveram estáveis ou cresceram.

Quem você lê? Quem o inspira ainda hoje? 

Ah, leitura pra mim é básica, né. Eu não consigo deixar de ler. Infelizmente, o mercado no mundo está caindo. No Brasil, de 2016 pra cá, caiu 16% exatamente. É triste, é triste! As pessoas estão lendo cada vez menos. Eu leio todo dia. Eu não consigo viver sem ver um bom filme e sem ler um bom livro todo dia. Quer dizer, um livro inteiro não. O que que eu estou lendo agora? Um escritor chamado Gay Talese, que é responsável pelo novo jornalismo, essas coisas todas. Eu li a obra completa do Gay Talese, exceto o que eu estou lendo agora, que se chama "Honra o teu Pai". Eu não sei se está traduzido. É uma história que ele está escrevendo, ele é um jornalista, ele criou esse estilo. O que ele escreveu de mais clássico se chama "Frank Sinatra está Resfriado", ele foi mandado pra Espanha, na época que se tinha dinheiro pra mandar jornalista pra viajar, pelo tempo que fosse necessário, a chamada grande reportagem. E o Frank Sinatra não quis dar entrevista, então ele escreveu essa obra-prima chamada "Frank Sinata está Resfriado", e esse é sobre um mafioso chamado Joe Bonanno, "Honra o teu Pai". Mas escreveu coisas maravilhosas. Eu prefiro a não-ficção à ficção.

Eu queria recorrer a uma imagem que vi pra perguntar sobre outra sensação, mais curiosa. Vi uma foto sua pro "El País" em que aparece mergulhado nos seus livros. Só se vê o seu rosto. Qual a sensação física de estar tomado pelos livros?

Essa imagem... Acredite se quiser, essa imagem de eu cercado pelos livros ela é de 1992. Imagine se fosse hoje. Hoje, eu estaria sufocado (risos) e seria envolvido pelos livros, amassado pelos livros.


Na sua biografia escrita pelo Fernando Moraes, tem um episódio da visita ao Palácio de Buckingham, em que houve uma certa dúvida sobre o traje da comitiva brasileira e você foi informado que seria um convidado especial da rainha. De alguma forma, transcendendo o país, as fronteiras, a representatividade nacional. O que significa isso?
Ou transcendendo ou a falta de educação do Lula e do PT, né. Quer dizer que infelizmente, eu tenho uma obra social no Pavão-Pavãozinho, o Lula passou na porta e não entrou. Se tivesse entrado, quando ele era presidente né... Eu só vim descobrir que eu era convidado da rainha quando a comitiva brasileira resolveu ir de terno e gravata. E eu já querendo evitar aquele negócio de fraque, né, disse "ai que bom, vou de terno e gravata." Foi aí que eu perguntei e descobri que eu era convidado da rainha. Foi um momento aliás, muito interessante. Quando você fala de ser embaixador do Brasil, eu sou embaixador não-oficial, extra-governos. Porque os governos, infelizmente, são catastróficos.


Você não gosta muito de falar sobre política, mas em dois momentos citou sua cidade, que vive uma situação difícil, e agora o país. O que diria aos brasileiros que procuram na sua obra uma manifestação de esperança?

Mas eu tô falando com a TV Cultura, a TV Cultura é governo, então eu vou guardar as opiniões pra mim. 
(risos...) Isso dito, pena, que pena, né! O Brasil vai inteiro, entende. Aquele país que era adorado, que era admirado, não pense o governo que a coisa não ultrapassa as fronteiras... Ela ultrapassa e é essa tristeza. Eu já vi países, não apenas o Brasil, pouco a pouco irem caindo... eu não diria nem no ostracismo... Você vê a Venezuela hoje, você vê Brasil, você vê a Síria... A Síria é um país maravilhoso, entende? Você vê outros países que pouco a pouco vão perdendo a importância. E não se enganem, não: vai demorar muitos anos pra recuperar. Não é uma coisa que amanhã muda o presidente e muda tudo, não! Isso daí nós estamos falando de 20 anos, no mínimo, pra recuperar, se for possível.

Queria voltar ao começo da sua história. "O Alquimista", seu livro de maior vendagem, é um fenômeno literário do século 20. Isso é algo extraordinário. Pergunta clichê: tinha ideia lá atrás que chegaria onde chegou?

Óbvio que não. Agora, que eu queria chegar eu queria (risos). Óbvio que não, chegar aonde eu cheguei, meu amigo, só se eu fosse um megalomaníaco aí - que eu sou, que eu sou! Mas graças a Deus eu cheguei. Voltando à sua pergunta logo no início da entrevista, quando eu olhei aquelas 1.700 edições dos meus livros, fiquei tão surpreendido, você não tem noção! Você sabe que é famoso, sabe que vendeu 210 milhões de exemplares. Ora, 210 milhões de exemplares significam 600 milhões de leitores. Se eu vou a uma festa com 100 pessoas eu já fico meio claustrofóbico, ter que conversar com todo mundo! Imagina 600 milhões de pessoas! Então é uma coisa muito abstrata.

Passei dois dias, desde que você aceitou nosso convite, pesquisando e lendo e confesso que a maior dificuldade era saber exatamente o que te perguntar. Você já deu muita entrevista, por mais que seja ainda meio avesso, tem muitas falas suas, escrevia muito em jornais... Fiquei pensando: "o que será que nunca perguntaram pra ele e ele queria poder falar?" Tem algo que nunca lhe perguntaram e você queria poder falar?

Não. Não tem, inclusive esta mesma pergunta que você faz agora já foi feita por vários jornalistas muitas outras vezes 
(risos). Então, pra mim, a entrevista hoje em dia é absolutamente - tô dando porque, enfim, acho importante vez por outra me comunicar com meus leitores brasileiros, mas não é uma coisa que vá vender livros, por exemplo. Você vê que a maior vendedora de livros no mundo, J. K. Rowling, se a gente falar Harry Potter, tudo bem, mas J. K. Rowling não. 

É que talvez a gente sinta falta de ouvi-lo de vez em quando...
Eu cheguei na Polônia, num ano sabático, eu disse: "não vou fazer nada", em 96. O livro tinha acabado de sair na Polônia. Eu cheguei lá, não achava o livro em livraria nenhuma. Eu vi um, mandei perguntar se estava vendendo bem. Aí, pela gesticulação, eu entendi que não estava vendendo nada. Bom, passaram-se dois anos. E dois anos depois eu voltei à Polônia. Quando abriu a porta do aeroporto tinha, como dizer, era como se a Madonna tivesse chegando, entende? Tinha todas as televisões, todos os jornais, essas coisas todas. Ora, o que mudou? Mudou que eu era uma pessoa famosa agora, muito famosa na Polônia. E antes ninguém me conhecia. Você foi feliz, perguntou sobre minha carreira, mas os caras estão interessados em outras coisas, inclusive às vezes na política interna do país. Eu fui pra Geórgia: "O que q você acha da invasão da Rússia?". Eu não posso falar sobre essas coisas. Eu não nasci na Geórgia, entende, eu não sou russo. Eu tenho que me limitar. O que você pensa do Trump? "Amigos, isso é com os americanos". A não ser que a coisa fique muito grave. 

Até em razão de tudo isso, agradeço muito a gentileza de ter aceitado esse papo com a gente. Sei do seu tempo e da sua aversão a entrevista. Muito obrigado mesmo. 
Te agradeço muito também por esta oportunidade de poder falar com os telespectadores da TV Cultura. Um forte abraço, hein.

Precisa depois reaparecer aqui no Roda Viva"...
Porra, "Roda Viva" já fiz vários, mas faz tempo que não faço... As duas entrevistas que dei ano passado, os livros venderam igual. Vocês viram a entrevista? Tem trechos no ar. As duas foram para um programa, "CBS News Sunday". Às vezes você tem que fazer uma média com o editor... Um grande abraço, muito obrigado. Que Deus te abençoe aí.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015 | | 0 comentários

Sobre o impeachment de Dilma

O que penso a respeito de um possível impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) foi muito bem explicitado pelo empresário Lawrence Pih numa interessante entrevista recente ao jornal “Folha de S. Paulo”

Reproduzo a seguir o trecho em questão e recomendo a leitura da entrevista na íntegra para entender um pouco mais, do ponto de vista da economia, a atual situação do país:

Impeachment é traumático. Pensam que se remove presidente do dia para a noite, mas não é tão simples. Não sou especialista, mas dizem que pode haver afastamento devido a pedaladas ou financiamento irregular de campanha. Essas coisas ocorreram no passado, mas nunca foi apurado. Os dois pontos são suficientemente graves? Essa primeira pergunta é técnica. 
 A segunda é política: ela tem condições de continuar governando sem levar o país ao caos? Quando o câmbio quase dobra em um ano, está instalado um grau de confusão grande. Com ela na Presidência até 2018, como ficará o país? Se as coisas começam a se deteriorar no ritmo em que isso acontece desde janeiro, estamos em maus lençóis. Não é só uma questão técnica. É também política, sob o aspecto da governabilidade.

quinta-feira, 16 de abril de 2015 | | 0 comentários

O homem que anunciou a morte de Tancredo Neves

Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor, flor e fruto

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, planta e sentimento
Folhas, coração
Juventude e fé
(“Coração de Estudante”, de Milton Nascimento e Wagner Tiso)


Entrevistar personagens que desempenharam papeis cruciais em momentos decisivos da história, ou que tiveram a oportunidade ao menos de acompanhar estes momentos, sempre me motivou de modo profundo.
Hoje, às vésperas de completar 30 anos da morte do presidente Tancredo Neves (o primeiro civil que comandaria o país após duas décadas de ditadura militar e que adoeceu momentos antes de tomar posse), tive a oportunidade de entrevistar o ex-governador do Rio Grande do Sul (1995-98) e secretário de imprensa da Presidência da República no futuro governo Tancredo, Antônio Britto Filho.

Afastado da política desde os anos 2000, Britto hoje é presidente-executivo da Interfarma, a Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica de Pesquisa. Ele recebeu a equipe da TV Cultura na sede da entidade e relembrou como foi o momento mais importante da história do país nos últimos 30 anos.

Um momento dramático e de forte comoção social, comparável apenas ao que se viu na morte do piloto Ayrton Senna. Tancredo, a figura que permitiria ao Brasil deixar as trevas, viu apagar sua luz naquele 21 de abril de 1985, jogando o país num mar de incertezas que ameaçava a frágil reconquista da democracia.

Naquele triste momento, Britto foi responsável por comunicar ao país oficialmente a morte do presidente – com palavras que, ele revelou na entrevista, estavam escritas já há alguns dias:

“Lamento informar que o excelentíssimo presidente da República, Tancredo de Almeida Neves, faleceu esta noite, no Instituto do Coração, às dez horas e 23 minutos. 
Acrescento o seguinte: nos últimos 50 anos, a vida pública de Tancredo Neves confundiu-se com os sonhos e os ideais brasileiros de união, de democracia, de justiça social e de liberdade. Nos últimos meses, pela vontade do povo e com a liderança de Tancredo Neves, estes ideais se transformaram na Nova República. 
A emocionante corrente de fé e de solidariedade das últimas semanas, enquanto o presidente Tancredo Neves lutava pela vida, só fez crescer este sentimento de união que foi sempre ação, exemplo e objetivo de Tancredo Neves. Com a mesma fé, com a mesma determinação o Brasil haverá, a partir de agora, de realizar os ideais do líder que acaba de perder, Tancredo Neves.”


A seguir, a íntegra da entrevista – gravada a pedido da TVE-RS, parceira da TV Cultura. Uma entrevista que todo brasileiro deveria ler:

Como começou a sua relação política com o ex-presidente Tancredo Neves?
Antônio Britto – De uma forma absolutamente profissional. Eu era jornalista, trabalhava na época na Rede Globo, encarregado da cobertura de temas políticos de Brasília, e à época obviamente não havia como cobrir política sem estar em contato com o dr. Tancredo, como fonte, como entrevistado, e com as pessoas que o cercavam naquele momento muito especial da vida brasileira, em que se procurava fazer a transição que viesse a encerrar o regime militar.

O contato com os políticos era diferente? Os políticos eram diferentes naquela época?
Britto – Acho que é óbvio que há uma mudança grande. Em primeiro lugar porque à época a luta brasileira pela democracia, o sofrimento brasileiro com o regime militar transformava aquelas lideranças políticas em figuras altamente respeitadas. Pelo sacrifício, pela luta. Eram pessoas que, ao contrário de hoje, elas é que levavam a população às ruas e elas podiam não apenas estar nas ruas, mas serem festejadas pelas ruas. O Brasil vive uma situação muito curiosa porque nestes 30 anos a partir da morte do dr. Tancredo, temos 30 anos em que a democracia se consolidou, e este é o grande legado dos 30 anos, mas, ironicamente, a democracia brasileira consolidada como nunca respeita aos partidos políticos e aos próprios políticos de uma forma praticamente zero. Então, como é que a democracia pode se afirmar e os políticos puderam caminhar na direção contrária? Como é que a gente tem uma democracia que se afirma e partidos que se afundam? Onde é que a gente está errando?

O sr. mencionou a estabilidade democrática como grande legado destes 30 anos. O sr. atribui isto ao dr. Tancredo? Qual o legado dele?
Britto – A democracia não é a conquista de uma pessoa, é uma conquista da sociedade brasileira. De todo mundo que sofreu, que lutou para que o país se tornasse o que é hoje, um país com liberdade de expressão, liberdade de opinião, liberdade de voto. Eu gosto de dizer que o dr. Tancredo, portanto, não foi quem deu a democracia ao Brasil. A democracia viria sem ele. O que o dr. Tancredo foi é o atalho brasileiro para a democracia. Sem ele, não se sabe quanto tempo a mais a democracia demoraria e nem se sabe que custo adicional a conquista pela democracia imporia. O papel importante historicamente do dr. Tancredo me parece ter sido funcionar como um atalho que encurtou o tempo e reduziu o custo para a chegada do país à democracia. Nessa medida, graças ao fato de ele ser uma pessoa que conseguia encaminhar o Brasil em direção ao novo sem romper, sem assustar o velho, acabou se tornando a pessoal ideal para, derrotada a ideia das eleições diretas, encaminhar a solução. Acho que este é o grande papel histórico dele naquele episódio.

Um papel histórico num momento peculiar do país. E aí o primeiro presidente civil pós-ditadura não toma posse. O sr. acompanhou todos aqueles momentos de angústia nacional. Como foi?
Britto – Acho que ali havia na verdade a soma de duas angústias, da parte de todos os brasileiros. A primeira com o sofrimento que um ser humano chamado Tancredo Neves passou, naquele verdadeiro calvário de 38 dias. Mas havia um segundo sofrimento, uma segunda angústia, com a ironia do destino em relação ao processo brasileiro. Você tem 20 anos de regime militar, você luta para poder sair disso e o articulador, o atalho desse processo, acaba falecendo. O que gerava em todos nós uma grande insegurança sobre o que aconteceria sem ele. Porque dr. Tancredo tinha sido o construtor daquela arquitetura e aquela arquitetura era extremamente frágil. Até o último momento havia quem não quisesse o retorno à democracia. Então, acho que as duas angústias se sobrepunham. A angústia em relação ao que se passava com o cidadão Tancredo Neves, com o ser humano Tancredo Neves, mas também a angústia, a preocupação com o que poderia acontecer com o Brasil sem Tancredo Neves.

Em que momento naqueles 38 dias o sr. teve a informação, ou a convicção, de que o quadro de saúde do presidente era irreversível?
Britto – A imprensa noticiou isso exaustivamente à época, não há mistério, não há segredo sobre esse episódio todo. Portanto ela própria divulgou que a partir dos últimos dez dias apenas um milagre que a ciência não pudesse causar nem explicar permitiria uma recuperação do dr. Tancredo. Ali se criou aquela angústia, que é comum infelizmente em certas situações, de ter a repetição de esforços feitos pelos cientistas, pelos médicos, sem a correspondência da saúde do paciente.

Após a morte do presidente Tancredo, durante muitos anos surgiram várias dúvidas e suspeitas. Algo naquele momento foi informado diferentemente da realidade? Qual a real causa da morte do presidente?
Britto – Se tu chamas qualquer pessoa no mundo e diz que um presidente da República vai tomar posse às dez da manhã, vai para um hospital às nove da noite, dez da noite do dia anterior, e morre dentro do hospital depois de 38 dias, o episódio é tão absurdamente surpreendente, tão absurdamente fora de tudo que a lenda, o boato, a mentira correm soltos. Por quê? Porque a verdade é dura de aceitar. Isto é muito comum na vida de todos nós. Quando a verdade é muito dura de aceitar fica fácil o caminho para as outras coisas. E é o que aconteceu. A história do dr. Tancredo é extremamente simples: um senhor de 75 anos, com saúde frágil, está envolvido num trabalho superimportante. Começa a sentir alguma coisa e não cuida, continua sentindo e não cuida, quando vai cuidar não tem mais como cuidar. Cada um de nós conhece essa história dezenas de vezes. Agora, se eu contar a mesma história e disser que o nome daquela pessoa é Tancredo Neves e o trabalho dela é ser presidente da República depois de 20 anos de ditadura militar, todo mundo que acreditava até um minuto atrás já deixa de acreditar. Então é isso. A parte médica eu adotei, faria tudo de novo hoje, uma coisa que me parece óbvia, que eu aprendi no jornalismo, que é a minha profissão: não sou médico, não era médico, não entendo de medicina, não me cabia nem podia examinar o dr. Tancredo e diagnosticar o que ele tinha e o que não tinha. Logo, só poderia informar aquilo que eu fosse informado por quem fazia isso. Quem? Os médicos. E como é que eles informavam? Assinando e dando os boletins. À medida que os fatos foram avançando ficou claro para mim, até com o senso de repórter, e ficou claro de forma crescente para todo mundo que o que se esperava que fosse alguma coisa temporária era muito grave e que talvez não tivesse um bom desfecho. E aí eu entendi, porque seria também responsabilidade nossa, ao lado de todos que trabalharam nisso, sem perder a esperança de um milagre, entendi que era necessário preparar a população para o fato de que se havia a hipótese do milagre, havia também muito forte a hipótese de, não ocorrendo o milagre, haver um final trágico, que foi o que infelizmente acabou acontecendo.

A trajetória do dr. Tancredo o inspirou em sua carreira como deputado e depois como governador?
Britto – Quem convive com figuras como dr. Tancredo, dr. Ulysses (Guimarães), uma figura muito cara ao Rio Grande do Sul que é o governador (Leonel) Brizola, para citar apenas três exemplos, teve o privilégio de conviver com uma geração extraordinária de políticos com algumas características que são importantes. A característica, em primeiro lugar, do interesse público. Ou seja: acertaram ou erraram, mas errar ou acertar por entender que aquilo era o melhor para quem? O país. Minha origem na política é isso. Na política como na vida não há fórmula para acertar sempre. A questão que diferencia um político do outro é se ele erra ou acerta por estar tentando o interesse público ou se ele erra ou acerta, e geralmente vai errar, por considerar variáveis que não têm nada a ver com o interesse das pessoas, com o interesse da população e com o interesse público. Então eu acho que o grande legado que essa geração, e não apenas o dr. Tancredo, deixou ao Brasil é, em primeiro lugar, de uma grande visão do que seja o chamado interesse público. No caso específico do dr. Tancredo, a habilidade, que é uma forma de fazer política tentando buscar o consenso. No Rio Grande do Sul tem algumas pessoas que pensam que a briga é obrigatória. Não, não tem nenhuma lei que impediu que ao final de uma conversa as pessoas se acertem. E a política é o caminho de tentar conciliar posições quando possível. E nisso o dr. Tancredo era absolutamente imbatível.

O sr. falou de considerar outros interesses que não o interesse nacional. Com os rumos que a nossa democracia tomou, o sr. considera possível que um presidente manifeste suas convicções com sinceridade hoje?
Britto – Do ponto de vista partidário, o país hoje é muito mais complicado. O dr. Tancredo teve dificuldades para montar o ministério porque precisava conciliar todos que haviam apoiado a redemocratização. Nós fomos andando para trás nisso. Aumentamos o número de partidos, reduzimos a legitimidade dos partidos, aí tivemos que aumentar o tamanho dos governos, o que aumenta a briga para preencher os cargos no governo, e eu não estou falando do filme que está passando agora no cinema, estou falando do filme que é quase permanente no Brasil. Então, repetindo o que eu disse, estamos vivendo um paradoxo. A democracia brasileira é mais forte do que nunca, mas os personagens muito importantes, não são os mais importantes, mas muito importantes na democracia, que são os parlamentos, os partidos e os políticos estão mais frágeis do que nunca. Alguma coisa perigosamente está errada.

O sr. se recorda com exatidão das palavras do anúncio da morte do presidente? Quais sentimentos aquilo despertou no sr. na ocasião e o que desperta hoje?
Britto – Não saberia obviamente lembrar todas as palavras. À medida que a situação do presidente foi se agravando, eu pessoalmente, além do sofrimento, comecei a me dar conta que íamos entrar num processo, havendo o falecimento do presidente, primeiro de enorme comoção popular, o que é sempre algo difícil de administrar. Segundo, de enorme inquietação popular. O que acontece agora? Para onde a gente vai? E que seria muito importante que a gente pudesse transmitir os acontecimentos de modo a, sem deixar de expressar a tristeza, a dor que era de todos, ao mesmo tempo procurar ajudar a tranquilizar a população e acima de tudo procurar mostrar e a ajudar a mostrar que era preciso, após o falecimento do dr. Tancredo, honrar e dar continuidade. Então eu tinha essas três coisas na cabeça. Aí, refletindo no meio daquela tempestade toda: “eu vou fazer uma coisa que eu tenho que fazer, só eu posso fazer na circunstância, eu vou deixar pronto o papel que espero que eu nunca use”, mas cada vez mais achava que ia fazer. E aí comecei a fazer, mexia um pouco, etc, à mão, guardava com todo cuidado sempre preso dentro do bolso de dentro do casaco até o momento em que, infelizmente, foi necessário usar o tal do papel – que eu guardei e foi doado ao museu Tancredo Neves. E aí, quando enfim me cabia comunicar ao país que ele tinha falecido, a minha preocupação foi de ordem física. Era tão grande a dor, era tão grande o sofrimento com aquilo tudo que eu temia não ter respiração. Foi aí que eu decidi ao invés de descer de elevador, desci de escada o Incor (Instituto de Coração) porque achei que descendo de escada eu ia ajudando a respirar e tal. E o resto todo mundo sabe.

quinta-feira, 24 de julho de 2014 | | 0 comentários

EXCLUSIVO: entrevista com o editor-executivo da "Folha"

O editor-executivo da "Folha de S. Paulo", Sérgio Dávila, fala sobre os desafios do jornalismo impresso na era digital e das experiências do jornal cuja Redação ele comanda:

A “Folha” foi pioneira no Brasil no sistema de “paywall” (“muro de pagamento”, na tradução literal, a cobrança pelo conteúdo da Internet a partir de uma cota grátis mensal) e parece que os resultados têm sido positivos. Ainda assim, o jornal impresso continua sendo visto – e a própria ex-ombudsman Suzana Singer escreveu isto – como um registro do passado. Você concorda com esta visão? O que pensa da função do jornal impresso hoje?
Sérgio Dávila – Acho que o jornal impresso está ganhando cada vez mais um papel de um resumo bem feito do passado, do último ciclo de 24 horas, mas mais do que isto cada vez mais uma interpretação bem feita do que aconteceu e indicando caminhos do que pode vir a acontecer. Esta tentativa do jornal de ser um farol do que vem por aí é fundamental para o leitor e o leitor sabe valorizar isto no produto impresso.
Outra coisa que o produto impresso tem, pelo próprio formato, pela própria característica do meio, (é) empacotar muito bem o que é importante naquele momento no país, o que vai dar agenda naquele momento no país e no mundo. Isto acho que o jornal impresso faz muito bem.
A gente tende a pensar, eu mesmo já cometi este erro outras vezes, que eles são excludentes, o impresso e o digital. Eles não são excludentes, eles são complementares. Um tem um papel, sem trocadilho, e o outro tem outro, mas eu não vejo um brigando com outro. Pelo contrário. Acho que você pode agir de determinada maneira e se comunicar de determinada maneira no digital e de outra no impresso, eles vão se complementando.

Fora o “paywall”, você conhece alguma outra experiência que seja bem sucedida a este respeito no mundo?
Dávila – Por exemplo: ações comerciais “casadas” multiplataforma. Você anuncia no jornal impresso e faz uma ação comercial no site, no tablet, no "mobile". Isto eu tenho visto acontecer na Europa e nos EUA com sucesso. Já acontece em menor medida no Brasil e acho que vai começar a acontecer mais intensivamente.

Inclusive em coberturas? A “Folha” fez o projeto “Belo Monte” que foi muito bem executado...
Dávila – Este tipo de cobertura como Belo Monte, que foi complementar, é um exemplo do que eu queria dizer dos meios complementares. A gente fez um caderno impresso, mas você tem lá também o site com outros recursos, com multimídia, com vídeo, com fotos, etc. Você pode ter os dois, você pode consumir um ou outro, você sai bem informado dos dois.
Este tipo de iniciativa, de você pegar um assunto e esgotar um assunto da maneira mais didática e atraente possível, começa a atrair os anunciantes. Quando você pega temas relevantes, do tipo Belo Monte que a gente fez, o Golpe de 64 que a gente fez e outros que a gente está planejando para este ano, você acaba atraindo o anunciante. O anunciante fala: “bom, este produto é de qualidade, ele atrai um público de qualidade e eu quero anunciar neste produto”. A gente acha que este é o caminho.

Nas últimas reformas gráficas de jornais, eu até assisti a uma palestra do Chico Amaral (designer responsável pela reformulação gráfica do “Estadão”) na qual ele disse que a base das mudanças foi considerar que o jornal é um produto para quem gosta de ler, a “Folha” seguiu um modelo contrário. O jornal não ficou telegráfico demais?
Dávila – Tem uma questão que é a seguinte: o mundo está ficando digital, mas o leitor continua analógico. E ele continua tendo 24 horas por dia para consumir a informação. Então você tem que entrar no “slot” que este leitor dedica à informação, seja uma hora, duas, três, com o melhor produto feito da melhor maneira que você puder. Se ele preferir o impresso, você está lá no impresso. Se ele preferir o digital, você está lá no digital. 
A nossa reforma gráfica, esta última a que você se referiu, tem este objetivo por trás, que é: não importa onde o leitor consumir a marca “Folha” ele vai saber que é um conteúdo da “Folha”. Esta era a ideia. A não ser que ele estiver no jornal e fala: “bom, aqui está a ‘Folha de S. Paulo’”. Se ele cai numa matéria na Internet ele fala: “bom, é uma matéria feita pela ‘Folha de S. Paulo’”. Se ele abre um tablet ou recebe um torpedo no “mobile”, ele sabe: “bom, isto vem do jornalismo da ‘Folha’ com os seguidos preceitos e princípios editoriais da ‘Folha’”. Esta era a nossa ideia. Foi criticada por alguns, mas foi elogiada pela ampla maioria, do leitorado inclusive. Então parece que funcionou. 
A gente tinha uma avaliação que as plataformas eram muito dissociadas, você não tinha claro que eram todas as plataformas, todo o conteúdo feito por uma mesma empresa, agora parece que isto está mais claro.

quarta-feira, 16 de julho de 2014 | | 0 comentários

Exclusivo: conversa com a psicóloga da seleção

Conversei com a psicóloga Maria Regina Brandão. Ela tem 25 anos de experiência trabalhando no esporte, em especial no futebol, e é parceria do técnico Luiz Felipe Scolari há anos – atuou com ele nas seleções brasileira (nas Copas de 2002 e agora de 2014) e portuguesa.

Na última segunda-feira, Regina esteve no centro do “Roda Viva” (TV Cultura, 22h). No programa, ela disse, por exemplo, que a seleção “panicou”.

Você disse que tem muito material guardado, mensagens dos jogadores no seu celular. Há algo sobre a Copa que não tenha sido dito ainda?
Não, que eu tenha conhecimento não. Ali ficou tudo muito transparente, o que foi bom e o que foi muito ruim. Ficou tudo muito transparente, acho que a seleção ali se mostrou quem era.

A imprensa atrapalha o jogador? Eles leem, se informam?
Atrapalha. A primeira coisa que um jogador faz, antigamente era abrir o jornal para ver o que falavam dele, agora é entrar na Internet para ver o que estão falando dele. Aquilo mexe muito com o jogador. A gente até pede para eles não ficarem entrando muito porque, você sabe, tem gente que fala muitas coisas boas e tem gente que aproveita e detona, às vezes até sem conhecimento do trabalho. Então eu peço, mas eles não aguentam. E algum parente manda, fala “você não sabe o que fulano do jornal tal falou de você!”. Claro, depende muito do que se fala. Quando fala alguma coisa negativa eles ficam bem chateados, com raiva, tem uma influência grande. Tem um professor da Unesp de Rio Claro, o Afonso Machado, que estuda exatamente a influência da mídia no comportamento do jogador, na escalação do treinador. Tem treinador que escala pela mídia, se é mais inseguro...

terça-feira, 18 de março de 2014 | | 0 comentários

Indignados do mundo, uni-vos!

"(...) pois sem indignação não há história."

Trecho da entrevista do sociólogo Michael Löwy:

(...) nos últimos tempos, vimos o Occupy Wall Street, os indignados espanhóis e outros movimentos contra o capitalismo. A mensagem é similar: outro mundo é possível. Por que esses movimentos explodem, expõem as contradições do sistema e depois desaparecem? Aliás, desaparecem? Por que não podem ‘mudar o mundo’?
Infelizmente, não há resposta pronta. (...) Essa ascensão está relacionada à crise financeira, mas principalmente às injustiças gritantes do neoliberalismo. É formidável assistir a esse sentimento de revolta na sociedade civil, principalmente na juventude, tomar corpo nas ruas. Inexplicável? Não, muito razoável: o mundo está passando por um momento de turbulência. Inexplicável é não haver ainda mais revolta: por que não há mais indignados noutros países? Estamos vivendo a mais dramática crise financeira desde 1929. Essa crise mostra a profunda irracionalidade do sistema: faltam recursos para resolver as questões mais elementares da população, mas há bilhões de euros disponíveis para salvar os bancos. Nesse sistema, os responsáveis econômicos e políticos só agravam a crise, com as políticas de austeridade, numa espiral sem fim, que faz com que economistas como Paul Krugman digam: mas é absurdo, como isso é possível? Bom, essa é a lógica irracional do sistema capitalista. (...) Alguns de meus amigos marxistas acreditam que essa é a crise "final" do capitalismo, vítima de suas próprias contradições. Não concordo. Fico com Walter Benjamin, que dizia: o capitalismo nunca morrerá de morte natural. Apesar das crises, o sistema encontra saídas, como encontrou na década de 1930: uns com o fascismo; outros com a 2ª Guerra Mundial.

(...) A ideia de promover mudanças necessariamente passa pelo Estado?
A questão é complicada. Evidentemente uma série de alternativas e transformações sociais são impostas, na prática, pelos movimentos, paralelamente aos Estados. (...) Portanto, não é preciso esperar por tudo. Mas há limites, pois quem predomina é o capital. Em última análise, é preciso haver um enfrentamento antissistêmico que passe pelo campo político, pelas instituições. Obviamente essas instituições precisam ser transformadas. Ainda são totalmente oligárquicas e alheias aos interesses e aspirações da sociedade. O Estado, tal como está, dificilmente pode impulsionar transformações. Assim, a revolução deve ser estar no nosso horizonte histórico, mas isso não nos impede de lutar por reivindicações concretas e imediatas no presente. (...)

Fonte: Juliana Sayuri, “Quer apostar”, O Estado de S. Paulo, Aliás, 29/12/13, p. E4-5.

domingo, 2 de março de 2014 | | 0 comentários

Entrevista coletiva

Para quem acha romântico o trabalho (da) na imprensa, isto é o que chamamos de entrevista coletiva. Como o nome diz, é o momento em que um personagem (autoridade, celebridade, etc) fala a vários veículos de imprensa ao mesmo tempo. É o oposto da exclusiva.

As coletivas podem ser mais organizadas, em salas tipo auditório, ou do tipo quebra-queixo, como as vistas abaixo com o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e o ex-presidente do Corinthians, Andrés Sánchez.

Haja preparo físico para segurar um microfone por longos minutos espremido no meio de tantos repórteres, cinegrafistas e fotógrafos. Haja calor! Haja paciência! Haja ouvido! Haja tudo!





sexta-feira, 23 de agosto de 2013 | | 0 comentários

Vamos tomar uma cerveja?

sábado, 3 de agosto de 2013 | | 0 comentários

É preciso ter paixão

"Você tem que perder alguma coisa."

A frase foi dita pelo tenista Fernando Meligeni em entrevista ao programa "Fim de Expediente", da rádio CBN, nesta sexta-feira (2/8). Ouvi parte da entrevista ao acaso, quando entrei no carro e o rádio ligou automaticamente. Era um bate-papo descontraído (como de costume no programa - que, aliás, recomendo!) com o trio de apresentadores Luiz Gustavo Medina, José Godoy e Dan Stulbach.



Do pouco trecho que ouvi no trajeto até minha casa, Meligeni contou da transição em sua vida ao fim da carreira. Admitiu ser difícil acordar um dia de manhã e não ter o que fazer, ou não ter mais que fazer a atividade à qual você dedicou anos de paixão e energia (no caso dele jogar tênis). 

Também falou das coisas que perdeu ao optar por ser um atleta profissional num esporte que exige viagens constantes. "Casamentos de amigos, estas coisas", a distância dos colegas de infância. Foi o "preço a pagar" pela dedicação à profissão que escolheu e ao sucesso da carreira que construiu. 

Daí a conclusão exposta na frase que abre esta postagem: não é possível ter tudo na vida, é preciso fazer escolhas e, ao fazê-las, inevitavelmente estamos abrindo mão de algo (ou perdendo algo).

Isto me lembrou uma música recorrente em minha mente: "But you´ve got to make choices / Be wrong or right / Sometimes you´ve got to sacrifice the things you like / But I was born to try" (algo como "Mas você tem que fazer escolhas / Certo ou errado / Algumas vezes você tem que sacrificar coisas de que você gosta / Mas eu nasci para tentar").

É a segunda vez esta semana que ouço referências à necessidade de paixão nas coisas que fazemos. 

Tenho atestado isto e reforçado minha convicção a respeito: na vida é preciso paixão. É preciso que façamos as tarefas com paixão, principalmente quando lidamos com as questões profissionais. A vida não pode, não deve e não merece ser tocada burocraticamente. É preciso buscar o lado sadio da paixão (porque nas relações amorosas a paixão costuma ser doentia e não é disto que trato). 

A paixão leva à entrega (na medida certa), à dedicação, à devoção, à esperança, ao recomeço. A paixão é capaz de mover montanhas, fazer o olho brilhar, o coração bater mais forte, traz à tona a energia e é capaz de captar a energia.

"Tudo o que eu faço, eu faço se eu amo. 'Ah, mas...' Não faço! "Ah, vai lá...' Você não tira eu de casa", disse Meligeni na entrevista. 

É isto! Na base da burocracia, do "fazer por fazer", do fazer porque todo mundo faz ou simplesmente porque é necessário fazer algo a vida não funciona. Ela segue, evidentemente, mas sem a vibração necessária para fazer dos dias algo mágico, encantador e único.

Também tenho reforçado a convicção naquilo que Meligeni falou: "Tem que perder alguma coisa."

C´est la vie...

segunda-feira, 27 de maio de 2013 | | 0 comentários

Entrevista com um jornalista

Quando estava na faculdade de Comunicação Social da Unesp/Bauru, em meados dos anos 1990, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do jornalista Caco Barcellos – autor do livro clássico “Rota 66 – A história da polícia que mata” e idealizador do programa “Profissão Repórter” (TV Globo, terça, 23h45).

Na ocasião (15/9/95), ele falou sobre seu início da profissão, os desafios do jornalismo e sua obra mais célebre, o “Rota 66”. A entrevista a seguir é fruto do bate-papo com os alunos e reflete o pensamento do jornalista na ocasião (que pode, ou não, ser o mesmo de hoje):

Você sofreu algum tipo de ameaça?
Tinha medo. Sofri ameaças de morte só para me assustar. Não tenho mais o perfil dos mortos. Tive, sim, noites de pesadelo. Nos últimos dois meses não conseguia mais dormir. Nos pesadelos eu era muito perseguido, muita tortura.

De que forma você analisava os tiroteios?
De uma forma muito óbvia: tiros em partes vitais, cabeça, nuca, não são sinais de tiroteio, mas sim de assassinato. A PM de São Paulo matava cerca de 1.500 pessoas por ano. Hoje, ela mata muito menos, mas mesmo assim é um número absurdo. São 400 mortes por ano. Em Nova York, uma cidade tão violenta quanto São Paulo, a polícia mata cerca de 20 pessoas por ano.

Você teria alguma solução?
Tem que se alterar a estrutura da PM. A Polícia Civil não mata. Ou mata pouco. O problema é que a Polícia Civil pode ser punida e a PM não. Os policiais militares sabem que ficarão impunes. O PM hoje é juiz, testemunha, carrasco.

Você é a favor ou contra a pena de morte?
Sou extremamente contra. Nós não temos a pena de morte neste país, então a morte de bandidos é morte, assassinato. Ou se institucionaliza a pena de morte ou para de discutir se é bom ou não a morte de bandidos. Toda atitude que leve à não-violência é bem-vinda. Mas ainda acho que há muita enrolação. Quero esclarecer uma coisa: os matadores são uma pequena minoria poderosa. Tem que se mudar a estrutura. Modificar a estrutura. Eu não estou dizendo que acho a polícia inútil. Ela até defende a vida, mas a vida de quem? Por que policiar grandes bancos e grandes empresas? Eles podem fazer a autodefesa.

Como você trabalha, tem muitas fontes?
Em 20 anos de profissão, sabe quantas fontes consegui? Zero. Hoje há uma ilusão de gabinete aberto, porque quando eu pesquisei, nós não podíamos nem chegar perto dos gabinetes. Assim, se investiga dossiês oficiais e se divulga as denúncias sem checá-las. Para que fontes oficiais? Para divulgar os “tiroteios”? Eu demoro mais tempo para checar dados do que para divulgá-los. Não cultivo fontes oficiais. Apesar de dar “status” dizer: “hoje eu conversei com tal ministro, com o chefe de sei lá o quê...”. Na verdade, se eu não tivesse escrito esse livro, teria abandonado a profissão.

Qual sua avaliação sobre a imprensa brasileira?
A imprensa só ouve os dois lados da notícia quando a elite está envolvida. O poder da imprensa deveria ser o poder da sociedade e não é isso que a gente vê hoje em dia.

Você já teve que romper com a ética para obter alguma informação?
Não. Prefiro ficar sem a informação. A vontade da vítima é soberana. Só não dou opção de escolha às pessoas que roubam a sociedade porque elas não pensaram na sociedade na hora de cometer os seus atos. Assim, não posso falar para ela: “você quer aparecer na minha matéria?”.

terça-feira, 12 de março de 2013 | | 2 comentários

"O elogio da verdadeira amizade"

O filósofo, psicanalista e escritor (Jean-Bertrand Pontalis), um dos maiores intelectuais da França, fala da diferença entre amigos e amores (...)

O que é um amigo?
O título do meu livro sobre esse tema é sugestivo sobre a dificuldade de definir a amizade: Le Songe de Monomotapa ("O sonho de Monomotapa"). Trata-se de uma alusão a urna fábula de Jean de La Fontaine (escritor francês do século XVII). Na fábula, dois amigos vivem nesse país de nome estranho, e um não possui nada que não pertença ao outro. Não haveria amizade mais verdadeira, portanto, nem mais doce, como diz La Fontaine. Mas ela talvez só seja possível na literatura. Por isso, entre as reflexões que faço sobre a amizade, acho que a melhor síntese em resposta à sua pergunta é que um amigo de verdade é aquele que nos protege dos tormentos do amor, nos afasta da fúria raivosa, faz recuar a morte.

Parece quase impossível encontrar um amigo verdadeiro.
Eu diria que é muito difícil. Ainda assim, estamos sempre à procura de um. A minha busca começou bem cedo, porque sempre tive uma relação conflituosa com meu irmão, e logo me vi obrigado a achar fora de casa um companheiro para brincar e conversar. O fio condutor da minha existência é essa procura por um amigo ideal. Como ocorre com a maioria das pessoas, a intensidade dessa busca foi maior na adolescência, quando queremos alguém para nos acompanhar nas descobertas sobre o mundo e a quem confiar nossos segredos e medos e vice-versa. É a época da vida na qual temos um "melhor amigo" - que, em geral, muda a cada ano, conforme vamos crescendo e as circunstâncias variam. Apesar da sucessão de "melhores amigos" nessa idade, a legitimidade de tais amizades não deve ser contestada. Por um certo período, aquele companheiro de escola ou de bairro foi realmente nosso "melhor amigo".

Mas a procura da amizade pode ser vã.
Pode, é claro, mas seria uma lacuna bem triste no meu caso - embora haja quem conviva bem apenas com colegas ou camaradas. Coleguismo e camaradagem são formas de amizade que, se não nos fazem sentir mais fortes, mais vivos - é isso que quero dizer com "recuar a morte" -, ao menos afastam um pouco a solidão amarga. Nunca deixei de ter muitos amigos, é algo vital para mim. Evidentemente, mesmo a amizade mais verdadeira não é feliz durante todo o tempo. Às vezes, podemos nos afastar, até por razões geográficas, ou ter disputas que superam a simples discordância a respeito deste ou daquele assunto. A distância e as fricções, no entanto, jamais significaram um rompimento definitivo com meus amigos. Há quem faça o elogio da amizade sem conseguir cultivá-Ia. É o caso de Proust (MarceI Proust, o maior dos escritores modernos franceses). Ele teve uma profusão de amigos, mas no monumental Em Busca do Tempo Perdido há um julgamento severo sobre a amizade. Ele diz, em resumo, que ela requer um "eu superficial" - que a profundidade do "eu" passa longe da relação com um amigo. Está claro que sofreu uma decepção com a amizade. Tanto que terminou seus anos fechado num quarto, isolado, escrevendo a obra que considerava ser sua "verdadeira vida".

A amizade é mais vital do que o amor? 

Não é mais vital, faz parte de outra esfera. Como eu disse, o amor traz tormentos, porque é impulsionado pela paixão. O amor é, ainda, menos durável, não se consegue mantê-Io continuamente no nível do ardor inicial. Já se falou bastante sobre qual seria a diferença entre amor e amizade. A meu ver, o amor visa à satisfação plena, um objetivo tão vago quanto inalcançável. Ocorre, então, um paradoxo: a partir de determinado momento, ele passa a alimentar-se da insatisfação absoluta. Como escrevo no meu livro, talvez só o amor místico seja a exceção. A amizade, por seu turno, nunca almeja a plenitude. Você não pode esperar tudo de um amigo, muito menos a perfeição, mas só uma amizade verdadeira é capaz de nos proteger das oscilações tumultuosas, da ambivalência intrínseca à relação amorosa - e também do fim do amor, quando é comum que sobre apenas o ódio de quem você amou e por quem você foi amado. O ódio, aliás, dura mais do que o amor.

Fonte: Mario Sabino, “Veja”, ed. 2.302, ano 46, número 1, 2/1/13 (leia na íntegra aqui).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012 | | 0 comentários

Relatos de uma paixão

Sem ter o que fazer, decidi assistir na Internet ao que considero um dos melhores programas da TV brasileira, o “Dossiê Globo News”. O entrevistado era Gay Talese, ícone do jornalismo mundial e um dos expoentes do chamado “new journalism”, o “novo jornalismo”.

A entrevista me deixou com um nó na garganta, com vontade de chorar. Por razões diversas, pessoais e profissionais. É inspiração no seu estágio mais puro. Todo jornalista (aliás, todo mundo) deveria assisti-la. Dois grandes jornalistas (o entrevistador é Geneton Moraes Neto) falando de jornalismo e de vida.


Perdoe-me o desabafo grosseiro, mas é assim que ele precisa ser feito: eu amo essa merda chamada jornalismo, é só o que sei fazer, mas a realidade que se impõe me afasta cada vez mais dele. Da profissão, dos sonhos, de tudo.

Por isso vejo a areia descer pelo espaço miúdo da ampulheta.

terça-feira, 25 de setembro de 2012 | | 0 comentários

Entrevista - relembrando (1)

A seguir, trechos da entrevista concedida a Ana Paula Rosa para o blog “De olho no Jornal”, em 2010.

De olho no Jornal: Como foi o início da sua carreira? Foi difícil chegar onde está hoje?
Rodrigo: Comecei em jornal impresso ainda antes de sair da faculdade. Eu tinha feito estágio em um jornal da cidade de Limeira e quando estava no último semestre da faculdade voltei para Limeira, pois eu fiz faculdade fora, e então surgiu oportunidade naquele mesmo jornal que eu tinha feito estágio. Todo mundo já me conhecia e entrei. Comecei como auxiliar de redação e então virei repórter, depois ajudei no fechamento, virei editor chefe, saí e agora estou aqui na TV.

De olho no Jornal: Nesse tempo de atuação, qual o fato que mais marcou sua vida profissional?
Rodrigo: Precisaria pensar, pois tiveram várias coisas. Mas acho que foi uma CPI que teve em Limeira uma vez, que foi chamada “CPI do Asfalto”, que investigava denúncias de irregularidades em contratos de asfaltamento da prefeitura e houve denúncias de corrupção e etc, e eu consegui as fitas com as gravações das conversas e isso teve grande repercussão na época.

De olho no Jornal: Como vocês lidam com as notícias de última hora? É muita “correria”?
Rodrigo: Muita correria. Em jornal isso é um pouco mais fácil, porque basta um telefonema que você resolve, tendo as informações você escreve e publica. Na televisão isso é mais complicado, é preciso ter imagem, uma entrevista sobre aquele assunto, portanto, invariavelmente as notícias de última hora são dadas de modo que o repórter vai para frente da câmera e relata o que está acontecendo, afinal, muitas vezes quando a notícia é extremamente de última hora não dá tempo de pegar imagem, fazer entrevistas e etc. Mas é uma correria sempre. Agora, só pra frisar, nesses casos eu adoto uma postura que eu acho muito importante que é: você só divulga aquilo que você possui absoluta certeza, aquilo que você apurou. É muito comum nessas ocasiões chegarem informações truncadas, chegar uma boataria, chegar um “parece que” e “parece que” não é notícia. Então eu só divulgo o que eu efetivamente apurei, ainda que seja menos do que as outras pessoas estejam falando. Nesse caso eu uso a teoria de que menos é mais.

De olho no Jornal: Com toda essa rotina de trabalho, quanto tempo sobra para a família e diversão?
Rodrigo: Um dos motivos para eu sair do meu outro emprego, o do jornal, foi esse (risos). Não tinha rotina. Não existia tempo pra rotina. Era o domingo quando não tinha nenhum evento especial no domingo. Mas durante a semana, esquece! Na televisão eu consigo controlar mais isso, as pessoas conseguem controlar mais isso. Mas a produção de jornal é efetivamente 24 horas, você começa a fazer às sete da manhã e você vai terminar a edição e a parte de produção 0 hora, 1 hora. Então esquece. Não tem família, não tem aniversário de primo, não tem casamento, não tem festinha de amigo, não tem nada disso.

De olho no Jornal: Acredita que a não obrigatoriedade do diploma do curso de Jornalismo afeta muito no mercado? O que pensa sobre essa decisão do Supremo Tribunal Federal?
Rodrigo: Sou contra a decisão. Ponto! Acho que o argumento foi muito fraco, em minha opinião. Alegar que o diploma impede que as pessoas manifestem sua opinião é um absurdo. Eu nunca vi, pelo menos na fase democrática do Brasil, qualquer veículo de imprensa impedir a opinião de qualquer um de ser manifestada. Qualquer pessoa tem liberdade para se manifestar. A questão do diploma envolve técnicas jornalísticas que são muito diferentes da simples liberdade de opinião, pois não é qualquer pessoa que saiba falar ou escrever que consegue fazer as apurações jornalísticas para uma matéria jornalística. Então, para mim, dizer que não há tecnicidade no trabalho do jornalista é desconhecer a profissão. Sou contra a decisão e a favor do diploma, mas acredito que o mercado acaba selecionando e as grandes empresas vão continuar contratando profissionais das faculdades de comunicação. O que pode acontecer é que empresas menores, do interior, possibilitem algumas pessoas como aquele “coleguinha” que escreve bem, ou que fala na rádio de acabar entrando também. Mas o mercado vai se encarregar de separar os jornalistas de verdade dos que estão se aventurando na área.

De olho no Jornal: Qual área do jornalismo mais te atraía antes de começar a trabalhar de fato na área?
Rodrigo: Por incrível que pareça sempre gostei de televisão. Comecei a trabalhar com jornal porque, enfim, foi a porta que me abriu e me apaixonei. Adoro jornal e acho que todo jornalista devia passar pelo jornal impresso. Acredito que devia ter um estágio obrigatório, assim como os médicos precisam fazer a residência em hospitais, acho que devia ser obrigatório que todos os jornalistas ficassem pelo menos seis meses, ainda durante a faculdade, em um veículo impresso. O jornal é, para mim, a melhor escola de um jornalista. Mas hoje que eu estou na televisão voltei a me apaixonar por uma paixão antiga. Dizem que paixão antiga a gente nunca esquece, não é? Então, hoje eu estou apaixonado pela televisão.

De olho no Jornal: Para o senhor, o que é Jornalismo e o qual sua importância?
Rodrigo: Eu nunca gostei muito dessas definições como: o que é jornalismo. Prefiro dizer a importância do Jornalismo para a sociedade. Para mim, o jornalista tem alguns papéis que são essenciais para a vida democrática de qualquer país que são: intermediar o contato entre o poder público e a sociedade; servir de canal para a sociedade manifestar seus desejos, seus problemas, suas críticas; servir de fonte de cidadania e também servir de meio de fiscalização do poder público. Considero esses quatro pilares sagrados para o Jornalismo e estes fazem da profissão algo nobre, não mais nobre que as outras, mas tanto quanto outras. Jornalismo é também muito importante, diria essencial, para uma sociedade democrática, afinal, você pode ter um país e ter uma democracia sem médico, por exemplo, mas não pode ter uma democracia sem uma imprensa livre.

* Para ler na íntegra, clique aqui.

sábado, 25 de junho de 2011 | | 0 comentários

Trabalhando

Entrevista com Di Ferrero, líder do grupo NX Zero, no show de aniversário da rádio Jornal FM 100,7, no dia 19/6, no Gran São João:


* Foto retirada do site Topvibe

segunda-feira, 30 de maio de 2011 | | 0 comentários

Uma família no mar

Guardei o recorte de uma entrevista muito legal que eu fiz por e-mail com a família Schürmann, publicada em 23 de janeiro de 2000 no caderno "Jornal de Domingo", do Jornal de Limeira. Para quem não sabe, os Schürmann largaram tudo o que tinham em terra para passar anos no mar. Vale a pena ler!



* Para ampliar a página da entrevista e lê-la, é só clicar na imagem ou aqui.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011 | | 1 comentários

"Com iPad, jornal digital se tornará mídia de massa"

Entre os muitos gurus com previsões sobre a nova mídia, o americano Ken Doctor se sobressai pelo otimismo pragmático de quem vê um futuro feliz para o jornalismo, mas não sem percalços.

Para ele, a seleção natural pela qual só os mais adaptados sobreviverão é inevitável nessa transição tecnológica.

E nada serve melhor a esse teste do que "The Daily", o jornal exclusivo para iPad lançado na última quarta-feira pelo bilionário e pioneiro da mídia Rupert Murdoch.O consultor vê o novo jornal como um marco na indústria da mídia voltada para as massas. A primeira revolução, diz, é o preço. O leitor paga, sim, mas em vez de uma assinatura o modelo será o do iTunes, com um aplicativo vendido a US$ 0,99 (R$ 1,66) semanais.

A outra é a interatividade - farta, mas sem pirotecnias, de forma a guardar propositadamente a imagem de uma revista ou um jornal.

A "Folha" ouviu Doctor no dia do lançamento do "Daily". A fórmula, afirma, criará um veículo de massas que vai acelerar a migração do impresso para os tablets -embora ele ressalte que os primeiros não vão deixar de existir tão cedo.

Folha - O "Daily" apresentou uma primeira edição caprichada, à qual o sr. se referiu como uma revista eletrônica. Essa qualidade sobreviverá ao ritmo diário?

Ken Doctor - Essa é a grande pergunta. Fazer isso todo dia com 130 pessoas entre editorial e produção parece uma subestimação. Claro que esperamos que, conforme eles peguem a manha, a coisa se torne mais fácil, mas é um desafio enorme.
Agora, se o "Daily" for bem-sucedido, terá criado um novo patamar no mundo das notícias. E todos os jornais que estão planejando produtos para tablets terão um modelo a superar.

Folha - No lançamento do "Daily", falou-se pouco em linha editorial e conteúdo noticioso. A plataforma se tornou mais importante que o conteúdo?
Doctor - O "Daily" é o "USA Today" (jornal que nos anos 80 desenvolveu uma edição enxuta, maior apelo visual e ênfase também em entretenimento e esporte) de 2011. Acho que o "Daily" copiou a fórmula e a atualizou.
Claro que as pessoas querem as notícias do dia. Mas, como no "USA Today", esporte e entretenimento são também muito importantes.
Já em termos políticos, acho que vai ser mais apolítico ou voltado para a comunidade (os veículos de Murdoch, como o "Wall Street Journal" e a FoxNews, são conservadores). Isso vai lhes dar mais público.

Folha - Se os tablets são o caminho a seguir no jornalismo, o sr. vê uma transição completa?
Doctor -
Não no caso das empresas "mainstream", que podem ter um produto alternativo para o tablet, mas ainda estão ganhando dinheiro com o impresso e querem manter essa fonte de renda. Afinal, o jornal impresso, depois de algumas perdas e cortes, voltou a ser lucrativo.

Fonte: Luciana Coelho, "Folha de S. Paulo", Mercado, 7/2/2011.

* Para ler a íntegra, clique aqui (é preciso ter senha do UOL ou da "Folha")

terça-feira, 27 de julho de 2010 | | 0 comentários

A resposta de Maluf: "maktub"

Aos 78 anos, Paulo Salim Maluf é um astro da política. Poucos fazem uso tão bem da retórica quanto o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo. Poucos são tão inteligentes quanto ele.

Não vou entrar no mérito da atuação política de Paulo Maluf (PP-SP), até porque julgo ser desnecessário (basta lembrar qual o verbo popularmente atribuído ao malufismo). Contudo, é inegável a habilidade do hoje deputado federal e candidato à reeleição para atuar no meio político (marcado por práticas pouco republicanas).

Maluf esteve recentemente em Limeira (como faz, aliás, a cada quatro anos, sempre em época de eleição). Carregava a sua tradicional pasta, na qual guarda documentos de seus arquivos com encaminhamentos de obras e serviços em prol de cada município que visita. A pasta de Limeira já é antiga - esteve com ele em 2006 na sua última visita à cidade.

Na TV Jornal, Maluf preferiu dispensar a pasta. Ao ser alertado de que havia esquecido a dita cuja na mesa, o deputado apontou para a cabeça como quem dissesse: “está tudo aqui”. E estava mesmo. Diante de comentários de telespectadores, lembrou de encontros com os ex-prefeitos Sebastião Fumagalli e Waldemar Mattos Silveira, o Memau. Citou também os ex-deputados federais limeirenses Jurandyr Paixão Filho, o Jurinha, e Heitor Franco de Oliveira.

Antes da entrevista, Maluf baixou a guarda: “podem perguntar qualquer coisa”. Como um professor, recorreu à máxima de Chacrinha de que “quem não se comunica, se trumbica” - ainda que diante de perguntas delicadas. “Você não consegue falar com 200 milhões de pessoas de uma só vez.” Por isso, não despreza - ao contrário, valoriza - o poder dos meios de comunicação, grandes ou pequenos.

O deputado contou ter ido a uma rádio e ouvido do locutor, antes do bate-papo, quais assuntos não gostaria que fossem abordados. Citou não ter feito nenhum impedimento. Maluf faz essa aparente concessão porque sabe, de antemão, que os temas delicados de sua carreira política surgirão de qualquer maneira. Durante a entrevista, como se quisesse ser indagado sobre dinheiro fora do pais, denúncias de corrupção e ficha suja, repetiu que responderia sobre qualquer tema.

De fato, Maluf não perde a compostura. Às vezes recorre ao conhecido subterfúgio de fugir da pergunta. Fez isso quando questionado sobre quais benefícios trouxe a Limeira nos últimos quatro anos como deputado. Preferiu elogiar a deputada Aline Correa, sua colega de partido, citada como única intermediária dos pleitos limeirenses junto ao governo. Depois, emendou quase laconicamente: “o telefone do meu gabinete está à disposição...”.

Questionado sobre a assinatura junto do nome “Paolo Maluf” (assim mesmo, com “o”) que aparece na conta atribuída a ele no exterior, iniciou a resposta dizendo que nunca assina um cheque quando vai a um restaurante. Antes, havia afirmado que não é ilegal ter dinheiro fora do país, desde que a origem seja lícita e o valor declarado à Receita Federal.

Sobre o fato de ser considerado procurado pela Interpol (leia aqui), disse ter o mesmo endereço há mais de 40 anos e que não é obrigado a ir para os EUA depor. E criticou o governo por não defender um cidadão brasileiro.

E você pode estar pensando o que maktub (ou maktoub) tem a ver com tudo isso. Pois bem. Quando soube que iria entrevistar Maluf, fiquei pensando o que perguntar – afinal, ele é daqueles personagens a quem tudo já foi questionado. Sobre o tal “se o Pitta não for um bom prefeito...”, já falou centenas de vezes.

Até que uma curiosidade me veio à mente. Algo sobre o qual nunca ouvira Maluf falar. O que um político experiente como ele sente ao lembrar que quase foi presidente da República, que perdeu a eleição no colégio eleitoral aos 45 minutos do segundo tempo? Como um homem reage ao ter perdido a oportunidade de comandar o país, uma chance que Maluf sabe ter sido única em sua vida, o sonho de qualquer político?

A resposta foi: “maktub”. “Eu sou libanês e em árabe existe uma palavra: maktub. Ela quer dizer a carta, mas tem um outro sentido, o de estava escrito. É isso, estava escrito”, disse, resignado. Comentou que um conhecido certa vez lhe dissera que se tivesse escolhido o hoje presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AL), como candidato a vice em sua chapa, teria sido eleito. “Mas estava escrito que o presidente da chapa do Sarney ia morrer”, citou, referindo-se a Tancredo de Almeida Neves, presidente eleito que morreu dias antes da posse, abrindo espaço para Sarney, o vice que virou presidente.

Apesar do maktub, Maluf fez questão de observar que “estava mais preparado para ser presidente do que o Sarney”.

Já fora do ar, o deputado assumiu novamente tom professoral ao responder outra dúvida minha: afinal, quem ou o que o tira do sério? “Vou lhe dizer uma coisa: as pessoas não estão nem um pouco interessadas no mérito do que eu estou respondo. Estão prestando atenção no modo como eu estou dizendo. Se eu respondo com tranquilidade, sorridente, gostam do que eu digo. Se respondo com agressividade, não gostam. Por isso, nunca trato mal nenhum repórter”.

E Maluf se foi. Não sem antes dar nota dez a Lula como pessoa e nota 5 ao seu governo. “O governo dele é medíocre”.

Em tempo: o deputado prometeu voltar à TV Jornal em dezembro, mas é mais certo que retorne mesmo em 2014...