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terça-feira, 22 de janeiro de 2013 | | 0 comentários

Paixões reunidas (e não me refiro ao time)

Leitura, esporte e história são algumas paixões da minha vida. Quando é possível unir as três num único momento, num mesmo objeto, tem-se algo especial. É assim que defino a recém-concluída leitura de "1942 - O Palestra vai à guerra", do jornalista Celso de Campos Jr., com brilhante trabalho visual de Gustavo Piqueira.

A obra trata de um momento histórico para o então Palestra e depois Palmeiras: justamente quando se deu a mudança do nome do clube. Era também um momento histórico para o Brasil, que vivia a ditadura de Getúlio Vargas e as pressões para ingressar na Segunda Guerra Mundial, que fazia a Europa sangrar.

O "book-trailer" a seguir dá uma ideia do momento crucial em que a história do mundo, do Brasil e do Palmeiras se cruzaram na São Paulo dos anos 1940, uma cidade que fervilhava com sua transformação urbana e respirava futebol, talvez a principal atividade de lazer na época:



Deixando paixões de lado, é preciso reconhecer um fato: o Palmeiras de hoje está uma draga (aliás, não só hoje, já há alguns anos, infelizmente), mas qualquer palmeirense tem motivos mais do que suficientes para se orgulhar da história do clube. 

Não sei se algumas outras agremiações podem dizer o mesmo. Ainda que brilhem nos gramados de hoje, o passado tem manchas que o tempo não apaga.

Recomendo o livro para todos que amam leitura, esporte ou história. Se gostar dos três, corra para a livraria!

terça-feira, 16 de novembro de 2010 | | 0 comentários

Os bons exemplos que vêm da Colômbia

"As bibliotecas precisam competir com os shoppings." A frase de Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, revela a importância dada à arquitetura e ao ambiente propostos para a rede de megabibliotecas.

Em vez de prédios feiosos, sem personalidade, Bogotá apostou em obras com bons materiais e linhas contemporâneas. A prefeitura promoveu concursos de arquitetura com a Sociedade Colombiana de Arquitetos para escolher os autores das quatro grandes bibliotecas construídas na última década.

Rogelio Salmona (1929-2007) desenhou a maior delas, de 36 mil m2, com os onipresentes tijolinhos avermelhados e um espelho d'água, traços da obra do maior arquiteto colombiano.

Mas arquitetos jovens também tiveram oportunidade de dar sua contribuição, algo ainda raro no Brasil quando se fala em grandes obras públicas. Suely Vargas tinha apenas 30 anos quando projetou a biblioteca El Tunal.

O programa de megabibliotecas foi criado por Peñalosa e mantido e ampliado por seus três sucessores: Antanas Mockus, Lucho Garzón e Samuel Moreno -todos de partidos diferentes.

Em comum, as quatro foram instaladas próximas a favelas, dentro de parques ou cercadas por áreas verdes, e acessíveis por corredores de ônibus e ciclovias (há 300 km delas na cidade).

Todas aspiram a repetir a atmosfera da biblioteca Luis Ángel Arango, a maior da Colômbia e uma das mais populares do mundo, mantida pelo Banco Central do país.

Com seis andares, escadas rolantes e jovens retirando livros e paquerando, ela não é modesta em comparação a qualquer shopping, mas causa horror aos bibliotecários mais puristas por trazer literatura popular e um ambiente festivo às suas instalações.

Possui sala de concertos e museus (o mais recente, a partir de doação do pintor Fernando Botero, com obras de Picasso, Bacon e Rothko).

As demais unidades da rede também recebem várias doações, de colecionadores a grandes empresários -a última delas cobriu dois terços do custo da construção da Santo Domingo.

O sucesso da Arango e de suas quatro sucessoras inspiraram a biblioteca São Paulo, instalada no parque da Juventude, construído onde ficava o Carandiru, com 4.200 m2. Bem mais modesta que as primas colombianas.

Fonte: Raul Juste Lores, "Unidades levam literatura popular a ambiente festivo", Folha de S. Paulo, Ilustrada, 13/11/10.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010 | | 0 comentários

"As minhas traições"

Sou um traidor. Sou um hipócrita. Não tenho defesa. Nem perdão. Mas guardar segredo é pior que partilhá-lo. Partilho.

Imagine o leitor: eu, num círculo de amigos literatos, discutindo as últimas novidades da "rentrée". Subitamente, alguém fala sobre o futuro do livro. E elogia as qualidades do livro eletrônico.

É nesse preciso momento que eu faço cara de nojo, limpo o suor da testa com meu lenço de renda e disparo um "jamais!" que faz tremer o salão. O meu mundo é o mundo de Gutenberg: o mundo arcaico do papel e da tinta, não de "pixels", "bits" e outras barbaridades linguísticas. Livro eletrônico? É como fazer amor com uma boneca insuflável.

"Um livro é um livro", disparava eu, em conhecido clichê. Nada substitui o objeto físico que transportamos, dobramos, sublinhamos. Tocamos. Cheiramos. Por vezes, rasgamos ou queimamos. A ideia de ler um romance, uma biografia, um mero ensaio em suporte eletrónico chegava para cobrir a minha costela conservadora de um horror herético. Nem morto.

Mas então aconteceu: uma oferta familiar em dia de aniversário. Bateram à porta. Entregaram a encomenda. Era o famoso Kindle da Amazon, com capa de pele, bonitinho. Perigosamente bonitinho.

Farejei o bicho com desconfiança primitiva. Cocei o crânio com pasmo neandertal e senti-me um dos macacos de Stanley Kubrick, na sequência inicial de "2001 - Uma Odisseia no Espaço".

Como se um objeto estranho tivesse vindo diretamente do futuro. Por milagre não quebrei o aparelho com a força das minhas ossadas. Um livro eletrônico era aquilo? "Jamais, jamais", gritava a minha pobre consciência.

Os dias passaram. O objeto, a um canto, mendigava a minha atenção sempre que passava por ele. "Jamais, jamais", repetia ainda. E sempre com menor convicção.Uma tarde, aproximei-me. Tentei ignorá-lo, lendo ostensivamente as "Páginas Amarelas". O objeto soltou um suspiro de tristeza, quem sabe de abandono. E eu, com caridade cristã, decidi dedicar-lhe dois minutos de atenção, não mais.

Liguei o Kindle. Com enfado, fui lendo as instruções. E, por cada página lida, a pergunta mefistofélica: experimentar nunca fez mal a ninguém, certo?

Experimentei. Diretamente do site da Amazon, fui importando livros grátis. Os clássicos gregos. Os clássicos romanos. Algum Maquiavel, algum Hobbes, algum Swift. Os pensamentos de Pascal. Uma edição completa das peças do bardo. Tudo a preço zero. Em 60 segundos, a Biblioteca de Alexandria viajava até minha casa.

O meu entusiasmo começava a ser perigoso. Embaraçoso. Numa tarde, descarregara 50 livros. Outros 50 vinham a caminho.

E, pior, já começara a ler um: a autobiografia de Tony Blair, que comprei a preço reduzido. Lia. Inacreditavelmente, sublinhava. Mais inacreditavelmente ainda, escrevia notas. Aquilo não era um livro. Era melhor que um livro. Que foi mesmo que eu disse?Hoje, levo uma vida dupla. Em público, passeio os meus grossos volumes da "Enciclopédia Britânica", em gesto de resistência ao mundo virtual. Finjo. Quando me falam nas virtudes do Kindle, ou do e-book, as minhas gargalhadas são jocosas, ofensivas, delirantes.

Mas são também forçadas e encenadas: chego em casa e chamo logo pelo meu Kindle como quem chama pelo gato. E ele vem, pronto para miar centenas e centenas de obras-primas. Se um dia a casa arder e eu estiver em estado delirante, o leitor já sabe o que significa "Salvem o gato! Salvem o gato!".

Moral da história? A internet foi a primeira grande revolução da minha existência literária. Mas o livro eletrônico será a segunda ao introduzir a mais importante divisão intelectual da vida.

Haverá sempre livros que desejarei ter; e "ter" no sentido tangível do verbo: como objetos físicos, artísticos, existenciais. Nesse sentido, as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor.

Mas depois existirão os livros que quero ler. Simplesmente ler. Não amanhã, ou depois, ou um dia qualquer. Mas hoje. Agora. Já. O sonho de qualquer leitor curioso, insaciável, ditatorial.

Regresso ao início: sou um traidor. E no dia em que os meus amigos literatos, cansados de minhas mentiras, vierem buscar-me para a fogueira, nada peço em minha defesa. Espero apenas que poupem o gato.

Fonte: João Pereira Coutinho, Ilustrada, “Folha de S. Paulo”, 5/10/2010