Não costumo celebrar o Dia das Bruxas, mas respeito a data
como tradição (embora tenha restrições a algumas práticas). Pois
navegando na Internet, mais precisamente no blog de turismo da “Folha de S. Paulo”, deparei-me com um texto que fazia alusão ao famoso “Halloween” e
sugeria visitas a cemitérios famosos nesse dia.
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quarta-feira, 31 de outubro de 2012 | Postado por Rodrigo Piscitelli às 12:00 | 0 comentários
Que tal uma visita ao cemitério?
Nunca tinha ligado uma coisa à outra. De fato, visitar
cemitérios soa macabro e pouco usual, mas pode se revelar uma atividade
interessante, principalmente para quem é ligado em história. Poucos
lugares como um cemitério ajudam tanto a contar a história de uma localidade.
Foi no texto citado que descobri um outro site que lista os cemitérios mais famosos (e bonitos) do mundo, por motivos diversos. Na lista
dos “12 mais”, estão três que eu conheci. Aproveito, então, o Dia das Bruxas
para mostrar um pouco mais de cada um deles.
O primeiro a ser retratado é o Cemitério St. Louis #1, de
Nova Orleans (EUA). É o mais antigo da cidade ainda preservado – é datado de 1789.
Assim, abriga muitos dos moradores mais remotos e, dizem, até a rainha do vodu,
Marie Laveau. Ele fica na Basin St. em uma das “fronteiras” do French Quarter,
na divisa com Treme-Lafitte.
Como fui até lá no final da tarde, ele já estava fechado e
eu apenas passei em frente.
Visitei, porém, outro histórico cemitério da cidade – o
Lafayette #1. Ele fica um pouco afastado da área histórica, numa região
residencial muito bonita, calma e arborizada, o Garden District. Para chegar
até lá é preciso pegar um dos tradicionais bondes, descendo na St. Charles Ave.
e acessando a Washington Ave.
O cemitério é de 1833 e muitos dos túmulos estão bem
preservados. É comum encontrar por lá objetos como chupetas, balas e colares
coloridos (tradicionalmente usados no Mardi Gras, o carnaval local).
A principal característica de St. Louis e Lafayette é o fato
dos corpos serem colocados acima da terra, nas edificações tumulares que se
parecem às vezes com pequenas moradias. Como Nova Orleans é ameaçada por
inundações em razão de estar abaixo do nível do mar (diques tentam segurar a
invasão das águas), evitou-se enterrar os corpos.
Outro cemitério que aparece na lista dos “12 mais” é o da
Recoleta, em Buenos Aires
(Argentina). O local atrai milhares de turistas não só por ficar numa das
regiões mais bonitas da capital, o charmoso bairro que dá nome ao cemitério,
junto a um parque, mas também por abrigar os restos mortais de Evita, a eterna
primeira-dama argentina, quase uma santa nacional.
Tal como em Nova Orleans, o cemitério da Recoleta é
conhecido também por deixar os corpos acima da terra, dentro de pequenas “moradias”.
É possível ver vários caixões (em um túmulo mais preservado, cheguei a ver uma
espécie de sala de estar para velar o morto, com duas cadeiras aveludadas,
velas e flores, tudo muito bem cuidado e limpo).
Também está na lista o histórico Cemitério de Arlington, na
cidade de mesmo nome, grudada em
Washington D.C. O local é conhecido por
abrigar os corpos de cerca de 300 mil soldados e familiares – sim, ele é
exclusivo para militares. É um típico cemitério norte-americano, com as famosas
lápides brancas colocadas diretamente no gramado. São tantas as lápides que
elas parecem ondas brancas num mar esverdeado.
Arlington atrai turistas também por abrigar o famoso túmulo
do soldado desconhecido, guardado por militares como um panteão nacional.
Jovens soldados revezam-se durante todo o dia num ritual ininterrupto,
assistido por uma turba silenciosa. Também merecem destaque os túmulos do
ex-presidente John F. Kennedy e de sua esposa Jacqueline Kennedy Onassis.
Embora não apareça na lista, gostaria de citar outro
cemitério que merece destaque. Ele fica na Filadélfia, a primeira capital dos
EUA: o Christ Church Burial Ground. É pequenino e famoso por abrigar muitos dos
fundadores da nação, aqueles que assinaram a Declaração de Independência e
participaram das primeiras sessões legislativas do novo país.
Pequenas bandeiras (na primeira versão da flâmula
norte-americana, feita por Betsy Ross) indicam onde estão os restos mortais dos
“pais fundadores”.
Ali também está enterrado o corpo de Benjamin Franklin, um dos inspiradores da "revolução" norte-americana que levou à independência.
O cemitério é tão antigo e tão frágil que, embora seja
permitido caminhar por entre as lápides, é preciso cuidado (tocá-las é terminantemente
proibido, pois muitas estão desmanchando).
É o menor de todos os cemitérios citados nesta postagem e o
único pelo qual se paga para entrar (o valor é simbólico, um ou dois dólares).
Fica no centro histórico, chamado de Old City, mais precisamente no cruzamento
da Arch St, com a Independence Mall East. Procure por Franklin´s Grave.
* As fotos são minhas e de Carlos Giannoni de Araujo
Leia também:
Marcadores: Argentina, Arlington, Buenos Aires, cemitério, EUA, Filadélfia, Nova Orleans, Recoleta, viagens
segunda-feira, 22 de novembro de 2010 | Postado por Rodrigo Piscitelli às 16:30 | 0 comentários
Um presente
Às vezes, manifestações singelas têm muito mais valor do que presentes caros.
Recebi na semana passada da amiga e jornalista Kelly Camargo (da família Rocha Camargo hehe) três fotos de sua recente passagem por Buenos Aires. As fotos falam por si - e explicam a razão de estarem aqui. Elas transmitem um simples, porém valioso, "lembrei de você".

"Achamos a casa em uma rua não muito comercial. Pena que estava fechada, então não consegui ver o que eles comercializam", escreveu.
São gestos simples assim que mostram o valor das relações humanas.
Marcadores: amizade, Buenos Aires, fotos
segunda-feira, 21 de junho de 2010 | Postado por Rodrigo Piscitelli às 19:02 | 0 comentários
Vítimas do "progresso"
Na definição do famoso Dicionário Houaiss, progresso é um substantivo masculino que significa “mudança considerada desejável ou favorável; avanço, melhoria, desenvolvimento; incorporação, no dia-a-dia das pessoas, das novas conquistas no campo tecnológico, da saúde, da construção, dos transportes etc.”. Quem, porém, há de classificar qual mudança é favorável, o que é melhoria?
No mundo moderno, a prática deu a essa palavra uma conotação positiva, independentemente de qual ação ela represente. Progresso é progresso, algo inexoravelmente bom e ponto. Logo, tudo que se faz em nome dele se justifica. Ou não?
Nossas cidades estão repletas de marcas do “progresso”. Um progresso que costuma apagar o passado, a história, a memória. Talvez por isso tenham surgido em muitas cidades uma espécie de contracultura do progresso, um movimento que, mais do que simplesmente negar o “avanço”, busca inseri-lo no contexto histórico de modo planejado.
Em Buenos Aires, provavelmente a mais bela capital sul-americana, esse movimento ganhou um título que pode muito bem servir de grito de resistência: “Basta de demoler” (basta de demolir, em português) – ou simplesmente b!d. Trata-se de uma organização não governamental (ONG) surgida em abril de 2007 com o objetivo de “defender o patrimônio urbanístico da cidade”.
O grupo começou sua atuação “convocando os cidadãos a manifestar-se publicamente contra as demolições de edifícios de valor arquitetônico e histórico; depois empreendeu diversas estratégias na defesa do patrimônio e estendeu sua ação aos parques, ruas e veredas históricas, mobiliário urbano”.
No site do movimento, um artigo do jornal “Clarín” aborda uma discussão atual na capital portenha: uma proposta que cria novas áreas protegidas na cidade. Conforme o b!d, o centro histórico de Buenos foi incluído pela World Monuments Fund na lista de 100 lugares históricos que correm risco.
Um mapa disponível no site mostra os lugares históricos de Buenos Aires e a situação de cada um deles. Em amarelo são os edifícios em perigo; em vermelho, os que estão em risco iminente de demolição; em azul, os prédios já demolidos; e em verde os demolidos com valor histórico. Pelo mapa, a situação é temerária.
Na capital paulista, surgiu um movimento semelhante. O “São Paulo Abandonada & Antiga” – ou simplesmente SPa - lista em seu site bairros, casas, monumentos e até cidades alvos de degradação e abandono. Nas imagens, um misto de beleza fotográfica e artística e tristeza histórica. Há artigos e uma seção interessante que mostra regiões antes e depois do “progresso” (desregrado), como a Santa Ifigênia de 1912 e 2010 nas fotos a seguir. A galeria do projeto no Flickr é imperdível.

Tal como no b!d, o SPa também oferece um mapa com 258 pontos – entre imóveis e monumentos – que merecem atenção por seu valor histórico e arquitetônico.
No caso do SPa, o objetivo principal não é tanto um “grito de resistência” (embora o trabalho tenha também este efeito), mas sim fazer um registro fotográfico e histórico de uma metrópole em constante mudança (e que costuma não perdoar o passado em nome do “progresso”).
Limeira também foi, à sua medida, vítima do “progresso”. Há alguns anos, havia cerca de 200 imóveis na cidade listados pelo Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Em 1997, cerca de 120 foram identificados e fotografados. No ano 2000, restavam 60, segundo o Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico (Condephali). Hoje, já não se sabe quantos são.
De acordo com o Condephali, o único imóvel tombado pelo órgão estadual em Limeira é o prédio da antiga escola Coronel Flamínio Ferreira, no Centro, que abrigava o museu e está em reforma (ele não consta da lista de bens tombados no estado, disponível no site do Condephaat).
Da região, estão no site a sede da Fazenda Salto Grande (Americana), o Fórum de Araras, a sede da Fazenda Morro Azul (Iracemápolis), a Casa de Prudente de Moraes, a Casa do Povoador, a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, o edifício da antiga escola Normal e o Passo da Via Sacra São Vicente de Paula (todos em Piracicaba), além da estação ferroviária, o Gabinete de Leitura, o Horto e Museu “Edmundo Navarro de Andrade”, a sede da Fazenda Grão Mogol e o Sobrado do Barão de Dourados (em Rio Claro).
Há, porém, muito o que se preservar em Limeira. Alguns imóveis já foram tombados (leia aqui). E só tombados. Neste blog, já citei a estação ferroviária do Tatu (leia aqui). Tem ainda o Casarão do Tatu, o Palacete Levy, a Capela de Cubatão, todos necessitando no mínimo de cuidados, como se vê pelas fotos. Isso sem contar várias residências.
O governo Silvio Félix (PDT) já anunciou alguns projetos de restauro, mas por enquanto só a estação ferroviária do Centro foi revitalizada. É preciso mais, muito mais, para tentar manter o pouco da história que ainda resta – e que está se perdendo, como os números do Condephaat indicam.




Afinal, por que proteger o patrimônio? Simplesmente porque ele ajuda a contar a nossa história. Porque as próximas gerações têm o direito de conhecer o passado para, assim, melhor projetar o futuro.
Marcadores: arquitetura, Buenos Aires, cidade, história, Limeira, memória, preservação, São Paulo
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