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sábado, 6 de fevereiro de 2016 | | 0 comentários

A violenta América Latina

Algo de errado acontece na América Latina que a faz ter nada menos que 42 cidades entre as 50 mais violentas do mundo, conforme ranking divulgado recentemente.

Tenho impressão que isto tem a ver com o nosso processo de colonização, que levou a desigualdades gigantes e gritantes, reforçadas pelos coronelismos e pelo histórico populismo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014 | | 0 comentários

Violência policial: um desafio mundial

Deu no “National Post”, um dos principais jornais do Canadá, em 6 de fevereiro último: policiais de Montreal atiraram contra um homem que agia violentamente carregando um martelo. O homem morreu horas depois no hospital. A vítima - pai e filho numa família bem sucedida - começou a apresentar problemas mentais nos últimos anos.

O fato gerou várias perguntas: o homem teria recebido amparo do sistema de saúde? Os policiais tinham alternativa que não fosse atirar? Se tivessem usado a taser, arma não-letal que dá um choque paralisante, o homem seria controlado? Os policiais têm treinamento suficiente para lidar com conflitos?

Vê-se, pois, que a violência policial não é realidade – e polêmica – apenas no Brasil. Atinge também países desenvolvidos (em proporções infinitamente menores, naturalmente).

Como bem coloca o “NP”, há questões simples e práticas envolvidas na história. “As pessoas querem acreditar que seus policiais são todos craques em tiros, capazes de acertar com precisão um pequeno pedaço de metal viajando a milhares de metros por segundo em um alvo em movimento, 100% das vezes. A vida real é diferente, como qualquer policial irá dizer”, escreveu Matt Gurney.

Ele cita que a maioria dos atiradores amadores é provavelmente melhor do que os policiais. E questiona a qualidade do treinamento policial no Canadá (imagine no Brasil). Para isso, participou de um treinamento. “Éramos todos capazes de atirar em alvos de papel fixos em um ambiente calmo, com apoio e bem iluminado, onde nossas vidas não estavam em perigo e nosso sangue não estava cheio de adrenalina”.

Gurney menciona ainda que, para minimizar os próprios riscos, policiais simplesmente miram nas partes maiores do corpo na hora de atirar. Assim, reduzem a chance de erro – e aumentam a de letalidade. (Lembre-se que muitas vezes o alvo está escondido ou em movimento.)

Ainda assim, escreve Gurney, muitos tiros são errados. Um estudo feito anos atrás pelo Departamento de Polícia de Nova York constatou um índice de precisão de 34%. Ou seja: dois terços dos tiros eram “balas perdidas”.

“Uma bala que erra o alvo não vira pó. Segue até atingir algo. Se tivermos sorte, este algo será o chão ou uma parede. Se não, poderá ser uma pessoa inocente, talvez até um outro policial.”

Gurney esclarece que não pretende justificar a morte do indivíduo, tampouco dizer que os policiais não teriam alternativa para controlar a situação, e sim deixar claro que os oficiais ganhariam se tivessem um treinamento melhor – de tiros e para lidar com situações de conflito (ou com doentes mentais, como era o caso).

E finaliza: “policiais muitas vezes atiram para matar por uma razão – tentar algo diferente não só significaria aumentar a chance de erro, mas também o risco para os cidadãos próximos”.

Em tempo: o artigo de Gurney não discute a questão do preconceito, muito presente neste tipo de ação em países como Brasil e Estados Unidos (leia mais aqui e aqui). 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014 | | 0 comentários

"A barbárie se aproxima"

(...) Quando bandidos, em vez de fugir da polícia, como seria de seu DNA, se animam a desafiá-la a luz do dia (...) é porque a criminalidade se sente mais forte que o Estado.

Daí à barbárie é um pequeno passo.

Fonte: Clóvis Rossi, "Folha de S. Paulo", Mundo, 7/10/14 (íntegra
aqui).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014 | | 1 comentários

Qual o preço da felicidade?

Há, de fato, um preço a ser pago para ser feliz?

No Brasil, infelizmente (sob um certo aspecto), sim.

Concretizar o desejo de viver na cidade grande, conquistar independência e buscar novos ares, realizar sonhos e dar andamento a planos de vida. Tudo isto soa doce como mel, mas há um preço a pagar.

O preço elevadíssimo de um aluguel numa cidade como São Paulo, o custo dolorido da distância de tantas pessoas queridas, de ser apenas mais um na multidão, da violência que mais do que dobra o valor do seguro de um carro, o custo de ver alguém levar, de repente, algo que lhe exige o suor diário do seu trabalho.

Ter um carro numa cidade como São Paulo, onde o transporte público se apresenta como um desafio, é muitas vezes uma necessidade. E mesmo assim você acorda cedo para fugir do rodízio, enfrenta longos quilômetros de congestionamento e batalha arduamente o dia todo para garantir o salário que vai lhe permitir pagar a pesada parcela do veículo.

Até que vem alguém e, com a facilidade que o mundo do crime ensinou, toma o que é seu. E você se sente impotente – e chora.

Restam a delegacia e a frieza de um boletim de ocorrência. Resta a constatação de ser apenas mais um número numa triste e cada vez mais elevada estatística. Restam os alertas do escrivão para os novos tipos de crime que estão na “moda”...

E não me venham com discursos de esquerda porque não há neste país lugar em que furtos e roubos não sejam um tormento. Sejam nas pequenas, médias (a minha Limeira, por exemplo, é campeã estadual em furto de veículos) ou grandes cidades, o problema está posto, diretamente ligado a um mal maior, o das drogas.

Ouvi dia desses de um policial federal que são apenas dez mil homens para combater todos crimes federais (narcotráfico incluído) em todo o território nacional. Para efeito de comparação, só a Polícia Militar de São Paulo tem mais de cem mil membros. Daí não ser cabível qualquer discurso político-partidário – a violência é um problema que perpassa todos os governos, todas as siglas.

O estado brasileiro está falido – e não é de hoje! A guerra contra as drogas está perdida – e não é de hoje!

E mesmo que as drogas sejam uma epidemia mundial, não vi nos países onde estive ao longo dos últimos anos nada parecido com o que encontro em São Paulo ou Curitiba (PR) ou Salvador (BA) ou seja lá onde for Brasil afora.

Por isso, o que era apenas um desejo vira cada vez mais convicção. Respeito os que ainda se dispõem a lutar por um país melhor (“não vamos desistir do Brasil” foi um dos slogans da atual campanha eleitoral), mas para mim já deu. Chega. Meu limite de tolerância está suplantado.

Confesso: perdi para a violência, para a falta de educação e civilidade nas ruas, para a péssima prestação de serviços das Net e Tim e afins, para os preços a que somos submetidos na hora de comprar um carro, uma casa, um seguro, um plano de saúde... Perdi para a necessidade de ter que pagar por tudo isso – educação, segurança, saúde, pagar duas vezes: os impostos que nos tomam e que costumeiramente vão para o ralo, os custos abusivos dos serviços particulares.

Desejo sorte aos que ficam, mas para mim o Brasil só tem uma saída: o aeroporto.

Tão logo seja possível, vou viver num lugar civilizado, onde poderei ter um carro sem pagar o valor de três, sem ter que fazer seguro, sem me preocupar onde estacionar, sem ter que frequentar delegacias. Um lugar onde poderei simplesmente levar uma vida normal – e onde a felicidade não custe tanto.

Porque no Brasil, infelizmente, a felicidade tem um preço alto.

PS: este é um desabafo. Embora tudo o que eu tenha manifestado seja real, não vou permitir que nenhum assaltante tire a minha alegria de viver, a nossa alegria de sonhar...

Dedicado à minha querida Mirele.

terça-feira, 22 de abril de 2014 | | 0 comentários

País civilizado é...?

(...) No Rio de Janeiro, números do Ins­ti­tu­to de Se­gu­rança Pú­bli­ca citados ontem por "El País" são inacreditáveis: nos últimos oito anos, foram 43.165 mortes violentas, o que dá 500 ao mês, justamente no período em que se disseminaram as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Sem contar os mais de 38 mil des­apa­re­ci­dos nem as mais de 31 mil ten­ta­ti­vas de ho­mi­cídio.

Se esses números se dão em uma época supostamente pacificadora, tremo de medo de imaginar como seriam em outros momentos. O país e o subcontinente vivem a era da selvageria, e as autoridades parecem impotentes. Ou incompetentes?

Fonte: Clóvis Rossi, “A selvageria como regra”, Folha de S. Paulo, Mundo, 22/4/14.

sexta-feira, 4 de abril de 2014 | | 0 comentários

Uma questão perturbadora

É recorrente na história da humanidade o recurso às “boas intenções” como justificativa para determinados atos a priori reprováveis – a violência, por exemplo.

Um ensaio recente, do búlgaro Tzvetan Todorov, retrata bem esta situação sob a ótica do trabalho do pintor espanhol Francisco José de Goya y Lucientes. O livro – “Goya à sombra das Luzes” (Companhia das Letras) – mereceu excelente análise de Luciano Trigo no blog “Máquina de escrever”.

Recentemente, mencionei aqui uma conversa que tive um com petista de carteirinha e meu assombro diante da forma como determinados atos – o “mensalão”, por exemplo, ou a ditadura cubana, chamada eufemisticamente de “democracia diferenciada” – eram justificados em nome de uma “causa”. Ou “causa nobre”, como menciona Trigo em seu artigo.

Quando se recorre ao maquiavelismo para justificar os atos, está posto o perigo para a sociedade. Via de regra, a história mostra que isto não acaba bem. O exemplo dos totalitarismos, como o nazi-fascismo, pode soar abusivo, como contestou dia desses um provocativo (no bom sentido) colega de trabalho. Como se a menção aos absurdos hitlerianos não valesse numa discussão. “Aí não dá, você apelou”, rebateu o colega.

Contra-argumentei dizendo que o princípio das ações era o mesmo – não estava focando unicamente nos resultados, embora a citação a Hitler buscasse obviamente causar impacto.

O fato é que quando se considera nobre uma causa e tudo em nome dela é válido e justificável, corre-se o risco cometer atrocidades em nome de um suposto bem maior.

Bem para quem? Existe razão – ou nobreza - para tal causa? Determinada por quem?

Uma sociedade pode, em nome da paz e da democracia, recorrer à violência e à guerra? Um partido pode, em nome de uma suposta luta contra a desigualdade social, cooptar e corromper outros? Um governo pode, em nome da continuidade de um projeto supostamente democrático e social (ou contra um projeto supostamente neoliberal), recorrer à falta de transparência, à truculência, a manobras econômicas e fiscais, ao fisiologismo e ao populismo barato?

São questões perturbadoras. Com raízes históricas e atuais como nunca.

Terá havido, afinal, alguma sociedade que não tenha se deixado levar pela crença – falaciosa? – de que suas verdades fossem “as verdades”? Creio que resposta penda para o “não”.

Como escreveu Trigo: “Numa sociedade crescentemente dividida entre nós e eles, com o tempo nós passamos a acreditar que estamos sempre certos, mesmo quando estamos errados. Aprendemos que nós podemos mentir, roubar, caluniar, corromper e mesmo assim estaremos certos, porque nós somos nós. Já eles estarão sempre errados, mesmo quando estiverem certos, porque afinal de contas eles são eles”.

Em tempo: para quem acha que um outro mundo é possível (ou quem acredita que políticos são todos iguais), recomendo assistir à
entrevista do presidente do Uruguai, José Mujica, ao programa “Canal Livre”, da Band.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014 | | 0 comentários

A violência nossa de cada dia

(...) Briga de torcida? Bandos de criminosos estão agora atacando a polícia, no que assim representa a segunda fase - a da reação - do programa de UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora cuja instalação em cidadelas do crime restaurou muito do Rio. No país todo, qualquer incidente, inclusive se provocado por bandos criminosos em disputa, leva à interrupção de ruas e estradas, incêndios de ônibus e carros, já também de moradias destinadas à própria pobreza. A internet convoca sem cerimônia e sem restrição para violências, não lhe bastando os brasileiros, também contra os estrangeiros que venham à Copa e até contra times.

À espera do ônibus ou dentro do carro, branco, negro, pobre, rico: o Brasil se embrutece. E o Brasil nem sequer se nota.

Fonte: Janio de Freitas, “Brasil embrutecido”, Folha de S. Paulo, Poder, 25/2/14.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 | | 0 comentários

A coisa pública

(...) Não é preciso brigar, visto que linchadores e bandidos são filhos de um mesmo problema endêmico: aqui, a coisa pública não vingou - o Estado, para nós, é uma pompa, mais ou menos ridícula, ele não é nada dentro da gente. Se não tem coisa pública, por que eu não viveria matando quem não me entrega seu relógio? Se não tem coisa pública, por que eu não lincharia quem me assalta?

(...) Ao longo do debate, foi citada, mais de uma vez, a receita de Nova York nos anos 90, "tolerância zero", como se fosse uma medida de repressão. Não era. Nunca foi. "Tolerância zero" era uma estratégia para fazer existir o espaço público. Sua moral: se você não quer assaltos no parque, cuide das flores. Não deixe que mijem nos canteiros, e o número dos assassinatos diminuirá. Diminuiu.

(...) Será que, nessa zona de tiro livre, só tem espaço para linchadores e bandidos? Não, claro, há todos os outros, que são (somos) os "salve-se quem puder" - com diferenças: alguns podem fugir para Miami, outros só podem baixar os olhos e caminhar rente aos muros.

Fonte:
Contardo Calligaris, “Linchadores e bandidos”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 20/2/14.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014 | | 0 comentários

Limeira é campeã estadual em furtos de veículos

Em 2011, mais precisamente no dia 27 de junho, postei neste blog um balanço sobre a criminalidade na região. A conclusão não deixava margem para dúvidas: “(...) nos crimes patrimoniais (exceto veículos), Limeira é a que apresenta os maiores índices disparadamente”.

Em 28 de agosto de 2012, registrei – uma conclusão subjetiva, embora embasada em dados mais do que objetivos – que a política de segurança e a polícia tinham fracassado em Limeira.

Em 27 de setembro de 2013, praticamente um ano depois, fiz um novo levantamento de dados da criminalidade e constatei que “roubos e furtos só crescem em Limeira”. Na ocasião, perguntei: “até quando?”.

Enviei o texto, em tom de cobrança, aos 21 vereadores de Limeira. Até hoje não recebi NENHUMA resposta ou comentário.

Ao abrir a “Folha de S. Paulo” desta quarta-feira (19/2/14), vejo que Limeira é a campeã estadual (lembre-se: são 645 cidades em São Paulo) em furtos de veículos.

Nada diferente do que eu já vinha apontando há mais de dois anos.

Infelizmente, nenhuma autoridade em Limeira parece se importar com a questão. Quando muito, há uma ação pontual aqui e outra acolá, sempre descoordenadas e desprovidas de qualquer planejamento de médio e longo prazos.

Não se ouve nenhuma voz se erguer na Câmara Municipal, tampouco no Executivo (isto porque o atual prefeito é delegado de carreira).

Sabe-se que segurança é um dever do Estado, mas sequer há notícia de cobrança de investimentos e melhorias por parte de autoridades limeirenses.

Registre-se que a chamada sociedade organizada também tem se calado.

Todos assistindo, como também já registrei neste blog, passivamente a escalada de violência.

Como diria o narrador esportivo Milton Leite: “Que fase!!!”

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014 | | 0 comentários

Uma discussão sobre causas da criminalidade

(...) Para a esquerda, condições socioeconômicas como pobreza, desemprego, desigualdade e educação são os principais fatores a explicar a criminalidade. Já para a direita, delinquência se resolve é com polícia.

(...) Para desgosto da esquerda, é fraco o elo entre economia e violência, como mostra Steven Pinker em "Melhores Anjos". Dados de EUA, Canadá e Europa Ocidental revelam que melhoras econômicas quase não têm efeito sobre as taxas de homicídios. Há, isto sim, uma correlação bem modesta entre os índices de desemprego e os crimes contra o patrimônio.

A desigualdade se sai um pouco melhor. Ela até que prediz os índices de violência quando se comparam países, mas fracassa em apontar tendências dentro da mesma nação. É pouco provável, portanto, que haja aqui uma relação causal. Mais razoável imaginar que falhas institucionais que produzem excesso de desigualdade gerem também violência.

A solução da direita também traz problemas. É claro que, em algum nível, melhorar o policiamento reduz crimes. Mas isso só funciona até certo ponto. Se você o excede, desperdiça dinheiro público e estraga inutilmente a vida de um monte de gente.

Os EUA, por exemplo, adotaram a tolerância zero nos anos 90 e reduziram o crime. Mas os índices de homicídio do Canadá, que já eram bem menores que os dos EUA, seguiram as mesmas curvas sem que o país tenha sucumbido à histeria.

Fonte: Hélio Schwartsman, “Especulação precoce”, Folha de S. Paulo, Opinião, 16/2/14, p. 2.

domingo, 16 de fevereiro de 2014 | | 0 comentários

Frase

“Mesmo se em alguns momentos da história o saber não soube ou pôde eliminar por completo a barbárie, não temos outra escolha. Devemos continuar a crer que a cultura e uma educação livre são os únicos meios para tornar a humanidade mais humana.”
Nuccio Ordine Diamante, professor de literatura italiana da Universidade da Calábria, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”

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A morte de Santiago (1)

(...) Entendo quem enxerga espírito de corpo no noticiário inflamado dos últimos dias, mas, pelas circunstâncias, a morte de Santiago é diferente das anteriores. Ele foi a primeira vítima direta da violência dos "black blocs". As outras mortes registradas em protestos ocorreram por acidentes, como queda de viaduto e atropelamento.

É significativo também que Santiago estivesse ali a trabalho, exercendo o papel de informar o público. O exagero está em considerar a sua morte um atentado à liberdade de imprensa, como fizeram editoriais da “Folha” e do "Globo".

(...) É essencial manter o sangue-frio para não perder a isenção no dimensionamento das notícias, uma das funções mais importantes do jornalismo. Caio de Souza e Fábio Raposo devem ser punidos pela morte trágica que provocaram, mas sem linchamento midiático. (...)

Fonte: Suzana Singer, “Ação e reação”, Folha de S. Paulo, Ombudsman, 16/2/14.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013 | | 0 comentários

Uma saída (séria) para a violência no futebol

Sobre o episódio de violência (mais um, apenas mais um...) no jogo entre Atlético-PR e Vasco na rodada final do Campeonato Brasileiro, em Joinville (SC), recomendo a leitura da entrevista do antropólogo Marcos Alvito à “Folha de S. Paulo”, em matéria assinada por Thais Bilenky.

Extraí três trechos apenas como degustação. Vale a pena ler na íntegra. 

Qualquer coisa além do que Alvito apresenta terá sido, mais uma vez, mero blá-blá-blá de autoridades.

Folha - O que o Brasil pode aprender com o policiamento britânico nos estádios?
Marcos Alvito - A Inglaterra tentou primeiramente a solução que o Brasil ainda procura adotar: escoltar torcedores, encarando-os todos como violentos. Chegou a um ponto, na época da Margaret Thatcher, de pensar em cadastrar os torcedores.

(...) Como evoluiu o modelo na Inglaterra?
A polícia continuou a tentar repreender com mais violência. Os estádios passaram a ser campos de concentração para torcedores enjaulados. Até a tragédia de 1989 [no estádio Hillsborough, em Sheffield, quando torcedores não conseguiram evacuar por conta das grades, e 96 morreram]. Hoje, como medida de segurança, não há grade entre a torcida e o campo, como no Maracanã, por exemplo.

Como a polícia inglesa age?
A polícia passou a adotar um sistema nacional de inteligência do futebol, com uma autoridade central que detém todos os dados sobre os torcedores, sabe quais são os perigosos que ainda não puderam ser incriminados. A polícia brasileira não tenta incriminar, enquanto a inglesa passa 24 horas por dia pensando em como tirar essas pessoas de circulação. E lá ela fiscaliza 92 clubes. Aqui são 30, 40 clubes importantes. Seria até mais fácil. A polícia inglesa trata cada jogo como uma tragédia em potencial. Os estádios têm um corredor de ambulância para dar acesso ao hospital. O perímetro ao redor fica interditado. Existe um sistema de câmera com monitoramento de médico, polícia, bombeiro. (...)

domingo, 17 de novembro de 2013 | | 1 comentários

Modernidade

Que seguro, alarme, trava eletrônica que nada. A melhor solução contra a criminalidade ainda está nas boas e velhas trancas manuais...


domingo, 1 de setembro de 2013 | | 0 comentários

Futebol, crime e impunidade

Dos torcedores do Corinthians envolvidos numa recente briga entre torcidas no Distrito Federal, três foram identificados como sendo os mesmos que estiveram presos na Bolívia suspeitos de envolvimento no caso da morte de um garoto durante um jogo do time paulista pela Taça Libertadores.

Reportagem deste domingo (1/9) do “Fantástico”, da TV Globo, mostrou que três dos seis líderes da principal torcida organizada do Corinthians já foram indiciados (acusados formalmente pela polícia) por homicídio.

Cadê a “comoção nacional” pela prisão dos torcedores corintianos na Bolívia?

Já dizia o ditado: “pau que nasce torto nunca se endireita”.

E que ninguém pense que esta postagem é contra este ou aquele clube porque a reportagem do “Fantástico” deixa claro que se trata de um problema das torcidas organizadas de praticamente todos os times grandes de São Paulo (e provavelmente de outros estados, como o histórico de ocorrências indica).

Infelizmente, a reportagem mostra também que prevalece a impunidade - a mesma, aliás, que beneficia dirigentes corruptos, atletas violentos, clubes devedores, etc.

Neste quesito, o futebol é nada mais que um retrato do Brasil. Se a impunidade é regra no país, por que seria diferente no meio esportivo nacional?

quinta-feira, 11 de julho de 2013 | | 0 comentários

Por que, afinal, aceitamos a violência passivamente?

Estava dia desses na casa de uns amigos assistindo – por tabela - a estes programas policiais que pululam pela TV. É inevitável vê-los e pensar que o Brasil está cada vez mais violento (sim, há um componente a ser considerado, o de que esta sensação tem relação direta com a maior quantidade de informação distribuída sobre o tema diariamente, mas isto não vem ao caso agora).

O fato é que eu pensei: por que, afinal, aceitamos tal situação passivamente?

Independentemente dos programas policiais aumentarem a sensação de violência, os números no Brasil estão longe dos de um país civilizado.

Tomemos o exemplo de Limeira: só nos primeiros cinco meses deste ano, os ladrões levaram nada menos que 848 veículos – média de quase seis por dia. Em 2012, foram levados 1.885 veículos (sendo 564 roubos, quando há ameaça e/ou violência) – média de cinco por dia.

Nos últimos 12 anos, o número de furtos e roubos de veículos só cresce, resultando num prejuízo milionário, como já mostrou este blog.

Os casos de furtos e roubos em geral (excluindo veículos) também aumentam anualmente. Foram 2.029 registros este ano até maio, média de 13,5 por dia (sem contar os casos que não chegam à polícia porque as vítimas, cansadas da impunidade, sequer registram a ocorrência).

Em 2012, os casos patrimoniais foram 4.497 (sendo 1.239 roubos) – média diária de 12 (menos do que já se verifica este ano).

Fora o prejuízo direto com as perdas patrimoniais e o risco à vida num assalto, os brasileiros pagamos uma fortuna com serviços e equipamentos de segurança privada. São câmeras de vigilância, cercas elétricas, vigilantes e seguro de casa e veículo.

O seguro de um carro médio numa cidade como Limeira, por exemplo, custa entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, dependendo do modelo e da idade do proprietário. Isto representa, em alguns casos, o que o dono ganha de salário mensal. Ou seja: há quem trabalhe um mês unicamente para pagar o seguro do carro.

O custo direto e indireto da criminalidade numa cidade como Limeira é praticamente incalculável, mas é fácil imaginar que atinja vários milhões de reais.

E, afinal, por que aceitamos tudo isto? Por que não reagimos? Por que aceitamos a ineficiência dos nossos políticos na (má) gestão da segurança?

Está realmente na hora de sairmos às ruas, de pararmos o país. Ou fazemos algo agora ou a barbárie da qual já estamos próximos nos dominará de vez.

Em tempo: as estatísticas da violência no Estado podem ser conferidas no site da Secretaria de Segurança Pública.

Leia também: 

segunda-feira, 8 de julho de 2013 | | 0 comentários

Um exemplo de jornalismo

Trabalho magnífico de reportagem feito pela equipe do “Fantástico”, da TV Globo. Um trabalho de um ano, com edição primorosa, mostrando que o INVESTIMENTO em jornalismo de QUALIDADE vale a pena!


* Veja mais sobre o tema e os bastidores da reportagem aqui.

terça-feira, 21 de maio de 2013 | | 0 comentários

Na Virada, o retrato de uma sociedade doente

O caos na segurança no Brasil nas últimas décadas – reflexo de uma série de problemas estruturais, da péssima educação às desigualdades acentuadas, passando por uma perda de valores por parte da sociedade e da má gestão pública – tem tornado um tanto míope o debate a respeito do tema.

Tome-se o caso da Virada Cultural, brilhante iniciativa feita pela Prefeitura de São Paulo e que tem também uma versão estadual. Este ano, o número de ocorrências policiais subiu, havendo inclusive o registro de duas mortes.

Discutiu-se quem falhou: município ou Polícia Militar. Falou-se que o número de pms (cerca de 3,4 mil, segundo a organização, fora os agentes municipais) era insuficiente para a dimensão do evento.

Na verdade, a pergunta deveria ser: por que precisamos de tantos homens (cerca de cinco mil no total) para fazer a segurança de uma atividade cultural que visa unicamente levar lazer e entretenimento grátis para a população?

Porque vivemos numa sociedade doente.

Definitivamente, perdemos o foco da questão.

***

E o slogan do governo federal diz que “País rico é país sem miséria”. Não! País rico é país com educação e civilidade.

Fosse assim, sequer pms seriam necessários para uma Virada Cultural.

Quem sabe um dia...

segunda-feira, 6 de maio de 2013 | | 0 comentários

Mais uma voz contra redução da maioridade penal

Trecho da entrevista do ex-presidente colombiano César Gaviria à “Folha de S. Paulo”:

O Brasil voltou a discutir a redução da maioridade penal. Qual é a sua posição?
Essas decisões não servem para nada. A única coisa que funciona são políticas integrais. Temos experiência na Colômbia. Medellín chegou a ter 300 mortes por 100 mil habitantes. Isso é mais do que qualquer guerra civil, é dez vezes a taxa do Brasil. Saímos por meio de trabalho social, tratamento integral. As empresas da cidade criaram fundações para levar educação e saúde aos meninos. É possível transformar um assassino de 14 anos num bom cidadão se a sociedade se mobiliza para fazê-lo. Esses problemas não mudam com leis, mudam quando a sociedade decide resolver. É o que as pessoas do Rio e de São Paulo têm de fazer. Se todas as empresas se dedicarem, verão como esses meninos sairão da violência. Dói em mim ver o que está ocorrendo no Brasil, pensando em soluções tão contraindicadas e alheias ao que está acontecendo no mundo.

Fonte: Fabiano Maisonnave, “Redução de maioridade penal e internação forçada vão fracassar no Brasil”, Folha de S. Paulo, 6/5/13, p. A-10.

Leia também:

terça-feira, 30 de abril de 2013 | | 0 comentários

Violência e juventude: o problema real

A necessidade e a urgência de bloqueio ao uso de menores por bandidos e monstros como os incendiários da dentista indefesa Cinthya de Souza, em São Paulo, não podem continuar pendentes da discussão tergiversante sobre a menoridade penal. A menos que se continue admitindo, com estupor mas passivamente, que crimes se propaguem amparados na pena máxima de três anos de "reeducação" para o falso principal autor.

O truque adotado pela bandidagem é inteligente. Suas ações passaram a ter, como norma, a presença de um menor de 18 anos. No caso de mau resultado final do crime, a gravidade maior do ato é atribuída ao "dimenor" e, como passaporte para o primeiro nível da bandidagem, por ele assumida. Não considerado criminoso e preso, como de fato é, mas como "apreendido" para reeducação nos tais três anos máximos, proporciona aos criminosos "dimaior" penas muito mais leves, como coadjuvantes. E saídas da prisão muito mais cedo, com os benefícios presenteados pela lei.

(...) À parte a idade penal, as autoridades ditas responsáveis, nos governos e no Congresso, e mesmo nas polícias, precisam remediar o problema já. Ou ser pressionadas a fazê-lo. Agravante de corrupção de menor, agravar pesadamente a prática de crime de adulto acompanhado de menor, levando a pena a ultrapassar a vantagem do truque, são exemplos de providências adotáveis com rapidez. Mesmo que o marginal de 17 ou 18 anos em nada se diferencie do marginal de 20 ou mais, e mesmo que seu aprendizado criminal nos presídios não seja maior do que o aprendizado fora, não é possível perder mais tempo discutindo idades. (...)

Fonte: Janio de Freitas, “Protetores do crime”, Folha de S. Paulo, Poder, 30/4/13, p. 6.