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quarta-feira, 11 de setembro de 2013 | | 0 comentários

O jogo da vida

A vida é mesmo cheia de armadilhas, surpresas, reviravoltas. Como diz um amigo no pôquer, o jogo vira; como citei numa postagem recente, o imponderável joga suas cartas.

Fernando Henrique Cardoso foi apenas a quarta escolha do então presidente Itamar Franco para ministro da Fazenda. Foi na gestão dele, porém, que a equipe econômica concluiu a formulação do que viria a ser o plano Real. A partir disso todo mundo sabe a história: embalado pelo sucesso do plano de estabilização econômica e combate à inflação, FHC virou presidente da República e foi reeleito.

Dilma Rousseff era apenas a ministra de Minas e Energia do governo Lula, sem nenhum traquejo político nem pretensão eleitoral. O destino se encarregou de tirar do caminho os favoritos para a sucessão do petista, os então ministros José Dirceu (Casa Civil) e Antônio Palocci Filho (Fazenda) - ambos caíram após denúncias. Dilma, então, foi realocada na Casa Civil, tornou-se a “gerente” do governo e a favorita de Lula para a eleição. Hoje é presidente da República.

Já o ex-prefeito e atual deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) era o favorito do partido de sustentação do governo militar para ser o primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura. Esteve bem perto de ser eleito, mas perdeu no colégio eleitoral para Tancredo Neves. Bateu na trave - a vida, o destino, não quis que Maluf fosse presidente.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012 | | 0 comentários

O Brasil pós-mensalão: uma posição definitiva

A fase de condenações e absolvições no julgamento da ação penal 470, a do chamado “mensalão”, chegou ao fim no STF (Supremo Tribunal Federal). À esta altura, não resta mais dúvida de que a então cúpula do PT se uniu em torno de um plano de poder e, para atingir tal finalidade, recorreu a práticas não-republicanas.

Cooptou, por meio da compra (ou corrupção), partidos e parlamentares. Usou recursos desviados de órgãos públicos simulando empréstimos fraudulentos com apoio de unidades do sistema financeiro.

Formou-se, como concluiu nesta segunda-feira (22/10) o Supremo, uma quadrilha a partir do Palácio do Planalto – a sede do poder Executivo nacional.

Tem-se, por enquanto, que o então presidente da República não participou do esquema, embora tivesse sido um dos maiores (senão o maior) beneficiários dele.

É forçoso reconhecer que o PT cometeu – por meio de seu alto escalão - crimes gravíssimos contra a República e a sociedade. Não há argumentos que possam justificar o recurso a práticas escusas, mafiosas até como manifestou o ministro Marco Aurélio Mello nesta terça no STF, em favor de um projeto de poder.

Deste modo, a história do Brasil é reescrita. O governo Lula ganha uma mancha indelével.

Sim, as conquistas sociais promovidas pelo governo petista não podem ser ignoradas e jamais se apagarão. Ao contrário, é preciso reconhecê-las e enaltecê-las.

Ao mesmo tempo, é preciso entender que o sucesso brasileiro nos últimos 20 anos se deve justamente à continuidade de um processo que teve início em 1993 com o governo Itamar Franco.

Neste sentido, cada governo deu sua contribuição conforme a ocasião exigia. Com Itamar, a estabilidade política necessária pós-impeachment do presidente Fernando Collor de Melo e, depois, as bases para a estabilidade econômica.

Com Fernando Henrique Cardoso, a sonhada estabilidade econômica após anos de hiperinflação e a implantação das bases dos programas sociais (com o vale-gás, bolsa-alimentação, etc). Com Lula, a consolidação e ampliação dos programas sociais, o avanço na geração de empregos e na posição do Brasil no exterior.

Ao mesmo tempo, não se pode esquecer que, nos anos FHC, o Congresso foi também cooptado com recursos (ou seja, comprado) em favor de um projeto político liderado pelo PSDB. O escândalo da compra de votos para aprovação da emenda da reeleição é mais do que conhecido.

Houve ainda fortes evidências de corrupção nos processos de privatização, notadamente das teles.

É, portanto, do saldo entre acertos e erros dos governos tucano e petista que chegamos até aqui como sociedade e nação. Ignorar avanços e desvios de um e outro é simplesmente ignorar a história – ou vê-la de forma míope ou apaixonada.

Com o julgamento do “mensalão”, o STF recoloca a locomotiva nos trilhos. Abre um novo capítulo na história do Brasil. E, espera-se, estabelece um novo patamar para as práticas políticas (e eventuais punições) no país.

domingo, 19 de junho de 2011 | | 0 comentários

Pedaços de jornal: textos que valem a pena

A edição deste domingo - 19/6 - da "Folha de S. Paulo" está bem elaborada, notadamente naquilo que o jornal tem de melhor, a análise e a opinião. Por isso, decidi compartilhar aqui alguns textos (infelizmente, o acesso a eles exige senha da "Folha" ou do UOL).

É espantoso como há quem se espante com as notícias em torno dos preparativos para que o país receba a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. 
Como se todos não soubessem o que já era público e notório desde que o Brasil se candidatou a sediar os dois maiores eventos do mundo. (...)
E você, por que não reage?
Juca Kfouri, E qual é a surpresa? (Esportes)

A verdade é que Lula - e agora Dilma -, tendo se transformado em autores dos projetos e programas que combateram, aliaram às medidas saudáveis do governo anterior - que liquidaram com a inflação e mantiveram estável a economia- outras abertamente populistas, visando conquistar o maior número possível de pessoas carentes.
Com isso, Lula garantiu a seu governo e seu partido uma popularidade de que jamais gozariam se tivessem persistido na pregação radical que sempre os caracterizou. Além do mais, aparelhou órgãos e empresas estatais, pondo-os todos a serviço da propaganda oficial. 
Ferreira Gullar, Às cegas (Ilustrada)

Quase no fim da entrevista, FHC se definiu como uma pessoa "de temperamento conciliador e pensamento conflitivo". A imagem é precisa para sintetizar sua atuação como político e sua força como sociólogo. 
Entre um e outro, a relação é mais complementar do que se imagina. De certa forma, o político FHC "realizou" o que o intelectual escreveu -muito mais, por exemplo, do que Lula cumpriu o que falava até chegar à Presidência.
 
Fernando de Barros e Silva, O provocador cordial (Ilustríssima)

Não seriam estádios, elevados, avenidas e metrôs, e demais projetos pretextados pela Copa e pela Olimpíada, que escapariam ao cartel tão presente no interior dos governos quanto os próprios governos. E até mais, em determinadas áreas governamentais. Do mesmo modo nas instâncias federal, estadual e municipal. É uma das faces do Brasil desconhecido. Sigiloso, digamos.
Janio de Freitas, O lado sigiloso (Poder)

domingo, 29 de maio de 2011 | | 0 comentários

Drogas: uma discussão necessária

A “Folha de S. Paulo” deste domingo publicou uma interessante e elucidativa entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele fala de sua luta a favor da descriminalização das drogas. Presidente de honra do PSDB, FHC acaba de protagonizar um documentário chamado “Quebrando o tabu”, no qual defende sua ideia. O filme - imperdível! - mostra como a questão é tratada ao redor do mundo.


A seguir, um trecho da entrevista publicada na “Folha” (a íntegra pode ser liga aqui – é preciso ter senha do jornal ou do UOL):

Folha - Claramente, qual é a sua posição sobre as drogas?
FHC -
Eu sou a favor da descriminalização de todas as drogas.

Folha -
Cocaína, heroína?
FHC -
Todas, todas. Uma droga leve, tomada todo dia, faz mal. E uma droga pesada, tomada eventualmente, faz menos mal. Essa distinção é enganosa. Agora, quando eu digo descriminalizar, eu defendo que o consumo não seja mais considerado um crime, que o usuário não passe mais pela polícia, pelo Judiciário e pela cadeia. Mas a sociedade pode manter penas que induzam a pessoa a sair das drogas, frequentando o hospital durante um período, por exemplo, ou fazendo trabalho comunitário. Descriminalizar não é despenalizar. Nem legalizar, dar o direito de se consumir drogas.

Folha -
Os manifestantes da Marcha da Maconha, por exemplo, defendem a legalização, o direito de cada um fumar ou não o seu baseado.
FHC -
Eles defendem não só a legalização, como dizem: "Não faz mal". Eu não digo isso, porque ela faz mal. Agora, não adianta botar o usuário na cadeia. Você vai condená-lo, estigmatizá-lo. E não resolve. O usuário contumaz é um doente. Precisa de tratamento e não de cadeia.