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domingo, 13 de abril de 2014 | | 0 comentários

"No"

Belíssima história, inspirada em fatos reais, sobre a luta da sociedade pela democracia no Chile:

quarta-feira, 11 de setembro de 2013 | | 0 comentários

Para não se esquecer

Ainda havia filetes de sangue nas águas rasas do Mapocho, o riozinho que corta Santiago, quando cheguei ao Chile para cobrir o golpe que derrubou o presidente constitucional Salvador Allende Gossens.

Era 21 de setembro de 1973, porque, nos dez dias desde que foi dado o golpe, o Chile ficara fechado por terra, mar e ar para que os militares pudessem provocar o derramamento de sangue que manchou o Mapocho e espalhou-se por todo o Chile, "desde el salar, ardiente y mineral/al bosque austral", como diz a canção "El pueblo unido jamás será vencido" que o grupo folclórico Quilapayún cantava nos tempos em que o sangue ainda não corria.

Deu tempo também de ver ao vivo o que se tornaria uma foto que ficou famosa no mundo inteiro: a queima de livros que trazia à memória o nazismo alemão.

Via-se então que não apenas o passo de ganso característico dos militares chilenos os aproximava de seus congêneres de outros tempos na Alemanha.

Tornou-se obrigatório deixar um pouco de lado o profissionalismo para oferecer-me como muleta (inútil, logo se veria) a pais de brasileiros exilados no Chile e desaparecidos desde o golpe.

Acompanhava-os ao Estádio Nacional, transformado em campo de concentração e morte, no que acabava sendo uma tortura adicional à falta de notícias sobre os filhos.

Ninguém dava informações à porta do estádio e, na falta delas, os parentes dos presos trocavam os piores presságios e contavam as mais horríveis histórias, que, ao longo dos anos, acabaram se provando verdadeiras, terrivelmente verdadeiras.

Dizia-se, por exemplo, que o cantor e compositor Victor Jara, que era adepto declarado da Unidade Popular, a coligação que o golpe apeou do poder, tivera os dedos quebrados durante a tortura no estádio, para que nunca mais tocasse as canções que embalavam os sonhos da esquerda no poder.

Jara não morreu no Estádio Nacional de Santiago, mas foi torturado até a morte no Estádio Chile, outro campo de concentração.

É fácil para qualquer ser humano com um dedo de sensibilidade sentir o pavor de pais que, primeiro, haviam perdido seus filhos para o exílio, depois do golpe no Brasil, e agora viam fugir a perspectiva de revê-los ainda que massacrados, mas pelo menos vivos.

Havia toque de recolher, primeiro a partir das 18h. Depois, das 20h. Eu me hospedara no então Hotel Carrera Sheraton, atrás do Palácio de la Moneda em que Allende se matou.

As noites eram intermináveis, trancado no quarto.

Olhava pela janela, via os sinais do ataque da Força Aérea ao palácio, uma sombra na praça vazia.

Ninguém na rua.

O semáforo, no entanto, continuava mudando do verde para o amarelo, para o vermelho, para ninguém, salvo um ou outro veículo militar, enquanto ao longe se ouvia o "ratatá" das metralhadoras, porque, dia após dia, noite após noite, "están matando chilenos/ay que haremos/ay que haremos", como cantavam os Quilapayún.

Ninguém no Chile os ouvia.

Fonte: Clóvis Rossi, “Sangue ainda escorria quando cheguei para a cobertura do golpe contra Allende”, Folha de S. Paulo, Mundo, 11/9/13.

PS: postei o texto na íntegra como lembrança do golpe militar e da posterior sangrenta ditadura de Pinochet no Chile. O golpe faz nesta quarta-feira 40 anos. É uma forma de fazer com que o terror comum a toda ditadura não seja jamais esquecido para que nunca se repita.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013 | | 0 comentários

Amém!

Dias atrás entrei na catedral de Santiago do Chile. (...)

A catedral silenciosa, discreta e com pouca luz, com sua altura gigantesca, nos ajudava a lembrar nosso lugar no mundo - que não me venham os inteligentinhos fazer o blá-blá-blá da crítica à religião, porque a conheço desde o jardim da infância.

Sentir-se "em seu justo lugar no mundo" é parte clássica de toda boa espiritualidade, contra esse narcisismo dos "direitos do Eu total" de hoje, essa coisa "ninja brega".

Este "justo lugar no mundo" é parte daquilo que o historiador das religiões Mircea Eliade chama de perceber que não somos o "axis mundi" (o eixo do mundo). Toda verdadeira espiritualidade deve nos ajudar a vivenciar este "descentramento" de nosso próprio valor.

O mistério me encanta e me faz sentir menos banal. A sensação da banalidade de tudo me esmaga continuamente. Sou um peregrino da falta de sentido. Uma testemunha da noite escura da alma de San Juan de la Cruz e Terrence Malick. Não levo a sério ateus militantes que ainda acham que ateísmo é "evolução espiritual". Para mim, ateísmo é, apenas, o modo mais óbvio de ser e um estágio elementar em filosofia.

(...) A vida é precária. A pobreza (material, espiritual, psicológica) é como a gravidade, na hora em que relaxamos, ela nos consome. É uma questão de tempo. Nosso caminho é "para baixo". Não é à toa que tomamos antidepressivos o tempo todo, cada um se vira como pode. A solidariedade na melancolia devia nos unir a todos. O que não perdoo na autoajuda é que ela mente para nosso justo desespero dizendo que ele é mera questão de incompetência.

É aqui que começa a consistência da teologia da alegria a qual se refere o papa Francisco: temos todas as razões "materiais" do mundo para sermos tristes, o milagre é não sermos tristes todo o tempo.

Confiar na vida é quase impossível. A fé na vida é um mistério e um dom. (...)

Ter esperança, crer na vida e amar são experiências que separam a infância espiritual da maturidade d'alma. O desespero é o caminho mais curto entre dois momentos na vida. A esperança é que é o milagre para quem enxerga o mundo como ele é. (...)

Fonte: Luiz Felipe Pondé, “Salmos chilenos”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 26/8/13.

domingo, 2 de junho de 2013 | | 0 comentários

Por aí

Gosto muito de postagens sobre turismo. Outro dia vi uma série do UOL sobre hotéis com belas vistas. Uma das paisagens é das cataratas do Niagara, na divisa entre o Canadá e os Estados Unidos.

Estive lá em abril de 2012. A vista mostrada na série (que menciona apenas um hotel) é flagrada a partir dos vários hotéis que ficam na parte alta da cidade:


A vista de lá pode ser vista (a repetição da palavra foi intencional) aqui.

Outra série recente abordou estradas curiosas pelo mundo. Passei por duas delas. Uma foi a Overseas Highway, a rodovia que liga a região de Miami às Flóridas Keys (região cuja cidade mais famosa é Key West):




Leia mais sobre o passeio até Key West aqui.

A outra estrada foi nos Andes, não no mesmo trecho mostrado:




O passeio pelos Andes pode ser visto aqui.

domingo, 1 de janeiro de 2012 | | 0 comentários

Flagrante chileno 4

Terremotos são dos fenômenos naturais mais devastadores que existem. Deixam marcas profundas, nas pessoas e nas estruturas das cidades. Por isso, estar num lugar foco de tremores de terra é um tanto estranho.

Já estive no Japão e na Califórnia, onde ocorrem dezenas de pequenos (e imperceptíveis) tremores todos os dias. Embora não tenha vivenciado nenhum tipo de problema do gênero durante minha estadia nestes dois lugares, uma sensação estranha nos acompanhava sempre e era presente a ideia de que algo podia ocorrer a qualquer momento. 


Recentemente, estive no Chile - outro local foco de terremotos. Confesso, porém, que não havia me tocado deste fato até que notei em frente ao hotel em Santiago um prédio todo rachado. Vi que era resultado, provavelmente, do grande temor que atingiu o país em 27 de fevereiro de 2010. Na ocasião, mais de 300 pessoas morreram (leia mais
aqui).


Depois, em Viña del Mar, o motorista nos levou ao Parque Vergara - onde fica a mansão que pertenceu à família de mesmo sobrenome (e que doou aquela área ao governo). A tal mansão estava fechada para reforma, justamente em razão dos estragos causados pelo último grande terremoto, o de 2010.



PS: quem quiser ler relatos sobre viagens, basta ir ao blog Piscitas - Travel & Fun.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011 | | 0 comentários

Flagrante chileno 3

Vitrines de Santiago, no Chile: a loja de R$ 1,99 de lá e o salão de "beleza":




quarta-feira, 21 de dezembro de 2011 | | 0 comentários

Flagrante chileno 2

Em Santiago, café, cerveja ou...?


terça-feira, 20 de dezembro de 2011 | | 0 comentários

Flagrante chileno 1

Eis aí uma coisa meio comum em Santiago, capital do Chile...



Em tempo: pelo que vi, costumam funcionar 24 horas. Sim, pode-se fazer uso das "mercadorias" a qualquer hora. E olha que, pelo menos em um caso, conferi a "mercadoria" de perto, já que ela fez questão de ir à calçada - com roupa de trabalho, ou seja, de lingerie - para atender o celular.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011 | | 1 comentários

No Chile, consciência política é coisa séria!

“Estamos en presencia de um quiebre entre la ciudadanía y el mundo político que prácticamente lo desligitima. Una reforma política profunda es imprescindible para recuperar la legitimitad de la representación.”
Roberto Méndez, presidente do Adimark GfK, em entrevista para o jornal “El Mercurio”, de Santiago (Chile), publicada em 25/11/11 na página B 7


Viajar não é só conhecer lugares. É também entender (ou tentar) uma outra cultura. Foi justamente este aspecto o que mais me chamou a atenção numa recente viagem ao Chile.

Nós, brasileiros, sempre ouvimos falar do nível educacional do povo chileno, um dos mais elevados da América Latina. Recentemente, assistimos à disputa entre estudantes e governo, que incluiu uma greve dos alunos que durou seis meses.


Tudo isso eu já sabia e de alguma forma já esperava. O que me surpreendeu mesmo foi constatar a quantidade de protestos do povo. Não há rua que se passe em que não se veja alguma forma de protesto em muros, fachadas, etc.

Grande parte dos protestos é de caráter genérico e puramente ideológico, com frases feitas como “abaixo o capitalismo”, “não ao lucro”, etc.



  
Há protestos mais diretos contra o que consideram repressão por parte do governo ou contra demissões e supostos arrochos salariais (escrevo “supostos” porque não conheço a realidade do país).


Existem, por fim, protestos que me parecem ser resquícios de uma das mais violentas ditaduras que a América Latina conheceu, comandada pelo general Augusto Pinochet. São mensagens de lembrança, heroísmo e saudade de pessoas que se foram. Mensagens assim foram vistas até nas margens do rio Mapocho, que corta a capital chilena com suas águas cor de achocolatado.



Também chamou a atenção o local onde alguns protestos apareceram. É significativo, do ponto de vista da democracia, ver uma gigantesca faixa em plena fachada de uma das mais tradicionais universidades chilenas, a Universidad de Chile (ou simplesmente "La U”, como dizem os locais).

  

Mais significativo ainda foi ver outra grande faixa pendurada no alto do Ministério da Agricultura, a dez metros do Palácio de La Moneda, sede do poder Executivo federal (ou seja, o local de trabalho do presidente). Em meio a folhetos com mensagens de protesto (pelo que entendi, partiam de uma central de trabalhadores públicos) jogados do alto do prédio, a faixa dizia: “Piñera miente”.

Em tempo: a pessoa citada é Sebastian Piñera, que vem a ser justamente o presidente da República.

  
Confesso que não consegui imaginar cenário semelhante no Brasil, algo como uma grande faixa pendurada em alguns dos ministérios da esplanada, em Brasília, dizendo “Dilma mente”. Não, não consegui vislumbrar algo assim, pacificamente como vi em Santiago.

É certo que pouco tempo depois a polícia compareceu ao local e vi inclusive um certo tumulto, mas me pareceu uma reação a um suposto fechamento do órgão público (até porque a tal faixa ficou lá no alto do prédio durante todo o dia).


Talvez a força democrática vista nas ruas de Santiago e nas demais cidades chilenas por onde passei esteja ligada ao elevado nível educacional da população. Talvez ela esteja ligada ao fato do país não abrir mão de acertar as contas com seu passado, sua história (ao contrário do Brasil...). Talvez seja uma bela lição para nós, brasileiros - que vimos recentemente a reitoria da maior universidade do país ser tomada pelos estudantes em protesto contra uma ação da Polícia Militar de repressão ao uso de maconha...

PS: registre-se que se há diferenças claras no que diz respeito à conscientização política entre brasileiros e chilenos, alguns aspectos nos unem. É o caso da desconexão entre os anseios do povo e a ação de seus representantes, como evidencia a manifestação que abre esta postagem.

terça-feira, 30 de agosto de 2011 | | 0 comentários

O desafio da educação de qualidade

Poderia até funcionar como propaganda do ProUni brasileiro: em 20 anos, o número de estudantes universitários multiplicou-se por cinco, passando de 200 mil a 1 milhão. Melhor ainda: 70% dos universitários de hoje são filhos de pais que jamais tiveram acesso à universidade.

Mas não estamos falando do Brasil e, sim, do Chile. Aliás, os estudantes chilenos de 15 anos ficaram no primeiro lugar na América Latina, no mais recente exame internacional comparativo, o Pisa, conforme lembrou ontem, em "El País", o colunista Andrés Oppenheimer.

Esses números indicam que são ingratos os estudantes chilenos, que não saem das ruas há meses, reclamando educação pública gratuita e de qualidade? Não. Indicam duas coisas, a saber:

1 - O chileno, ao contrário do acomodado brasileiro, é um bicho afeito à mobilização desde sempre.

2 - O sistema educacional chileno nem é público nem é gratuito nem é de qualidade.

O Chile, como o Brasil, resolveu o problema da quantidade (conseguiu universalizar o acesso ao ensino básico), mas não o da qualidade: 40% dos alunos deixam o ensino fundamental sem entender o que leem (como no Brasil).

Vale o mesmo raciocínio para a universidade. No modelo chileno, o Estado praticamente afastou-se do ensino superior, limitando-se a financiar as escolas privadas para que aceitem o maior número possível de alunos. 

Em consequência, a metade praticamente dos jovens em idade universitária está na escola superior, índice melhor do que o de quase todos os vizinhos.
Mas a legislação é frouxa no que tange ao controle da qualidade do ensino (como no Brasil).

Pior: o custo é o mais elevado da América Latina, o triplo do italiano, 19 vezes maior do que o francês, conforme os dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o que levou o endividamento (do estudante e de sua família, avalista do débito durante a graduação) a um ponto insuportável e empurrou a moçada para a rua.

Em um país em que o salário médio (não o mínimo) equivale a R$ 1.755, os jovens desembolsam entre R$ 580 e R$ 1.370 mensais conforme o curso escolhido. 

Consequência inescapável: 70% dos estudantes estão endividados e 65% dos mais pobres interrompem os estudos sufocados por problemas financeiros insuperáveis.

Os custos levam ainda à reprodução, no acesso à universidade, da desigualdade que existe no conjunto da sociedade (como no Brasil, aliás): entre os 10% mais pobres, só 16% conseguem chegar ao ensino superior, ao passo que, nos 10% mais ricos, a taxa é de 61%.

Tudo somado, fica evidente que a América Latina tem um nó formidável na educação, posto que há deficiências colossais nos dois modelos (o público gratuito do Brasil, complementado por proliferação descontrolada do ensino privado, e a escola privada financiada pelo Estado, como no Chile, também com setor estritamente privado igualmente sem controle de qualidade).

O que surpreende, pois, não é que os jovens chilenos ganhem a rua, mas que os brasileiros só o façam para reivindicar meia entrada.

Fonte: Clóvis Rossi, “Chile e Brasil, dois fracassos”, Folha de S. Paulo, Mundo, 30/8/11.