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terça-feira, 24 de junho de 2014 | | 0 comentários

Frase

"Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade."
Fernando Pessoa, poeta português, no "Livro do Desassossego" (p. 70)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013 | | 0 comentários

Frase

“É todo o mistério de que nada dura que martela repetidamente coisas que não chegam a ser música, mas são saudade, no fundo absurdo da minha recordação.”
Bernardo Soares, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa, no “Livro do Desassossego”

terça-feira, 4 de dezembro de 2012 | | 0 comentários

Um poema

Aguardo, equânime, o que não conheço - 
Meu futuro e o de tudo. 
No fim tudo será silêncio, salvo 
Onde o mar banhar nada. 

(Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, em "Odes")

sexta-feira, 30 de novembro de 2012 | | 0 comentários

"Da verdade não quero mais que a vida"

Sob a leve tutela 
De deuses descuidosos, 
Quero gastar as concedidas horas 
Desta fadada vida. 
Nada podendo contra 
O ser que me fizeram, 
Desejo ao menos que me haja o Fado 
Dado a paz por destino. 
Da verdade não quero 
Mais que a vida; que os deuses 
Dão vida e não verdade, nem talvez 
Saibam qual a verdade. 

(Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, em "Odes")

quarta-feira, 28 de novembro de 2012 | | 0 comentários

"Tenho mais almas que uma"

Vivem em nós inúmeros; 
Se penso ou sinto, ignoro 
Quem é que pensa ou sente. 
Sou somente o lugar 
Onde se sente ou pensa. 

Tenho mais almas que uma. 
Há mais eus do que eu mesmo. 
Existo todavia 
Indiferente a todos. 
Faço-os calar: eu falo. 

Os impulsos cruzados 
Do que sinto ou não sinto 
Disputam em quem sou. 
Ignoro-os. Nada ditam 
A quem me sei: eu 'screvo. 

(Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, em "Odes)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012 | | 0 comentários

“Nada fica”

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada

(Ricardo Reis, um dos quatro heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012 | | 0 comentários

"Breve o dia"

Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensado, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.

(Ricardo Reis, um dos quatro heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa)

terça-feira, 14 de agosto de 2012 | | 0 comentários

"Cada Um"

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, 
E deseja o destino que deseja; 
Nem cumpre o que deseja, 
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros 
O Fado nos dispõe, e ali ficamos; 
Que a Sorte nos fez postos 
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento 
Do que nos coube que de que nos coube. 
Cumpramos o que somos. 
Nada mais nos é dado.

(Ricardo Reis, um dos quatro heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 7 de junho de 2012 | | 0 comentários

"Tabacaria"

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
(...)
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
(...)
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.

(...)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(...)

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.

(Excertos do poema "Tabacaria", de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa)

terça-feira, 5 de junho de 2012 | | 0 comentários

Frase

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa, poeta

quinta-feira, 24 de maio de 2012 | | 0 comentários

Frase

"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa, poeta

segunda-feira, 21 de maio de 2012 | | 0 comentários

Frase

"Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso."
Fernando Pessoa, poeta

quarta-feira, 16 de maio de 2012 | | 0 comentários

Um poema

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.

("Basta pensar em sentir", de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 14 de maio de 2012 | | 0 comentários

Frase

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto."
Fernando Pessoa
, poeta

sábado, 12 de maio de 2012 | | 0 comentários

Um pouco de Pessoa

Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

(Título desconhecido; Fernando Pessoa)

***

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

("Deixei atrás os erros do que fui", idem)

quarta-feira, 9 de maio de 2012 | | 0 comentários

Frase

"Eu sou aquilo que perdi."
Fernando Pessoa, poeta

domingo, 6 de maio de 2012 | | 0 comentários

Mistério

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento. 

Nada sabemos da alma

Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

(Título desconhecido; Fernando Pessoa)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011 | | 0 comentários

"Não sei quantas almas tenho"

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011 | | 0 comentários

"Pessoando..."

(...) Sempre esta inquietação sem propósito,
sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre
Esta angústia excessiva do espírito
por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho,
ou na estrada da vida...

(Álvaro de Campos, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa, “Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra”)

quarta-feira, 22 de junho de 2011 | | 0 comentários

Poesia da amizade

Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade. Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.

Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

(Fernando Pessoa)