Uma ação do Ministério Público Federal tentando retirar das cédulas de real a expressão "Deus seja louvado" colocou novamente em evidência uma polêmica que vira a mexe aparece no noticiário e, por conseguinte, na sociedade: a dos limites do estado laico.
O assunto é, por si só, polêmico. Discutir religião (como de resto futebol e política) é sempre um problema porque envolve paixões. E quando há paixão, falta razão.
A "Folha de S. Paulo" colocou o tema em pauta em "Tendências/Debates". Como é praxe, dois especialistas defenderam pontos de vista opostos. Vale a pena ler os artigos para, quem sabe, formar (ou reforçar) sua convicção a respeito do tema.
Para facilitar, reproduzo a seguir alguns dos principais trechos dos artigos, com os respectivos links para quem desejar ler na íntegra:
"(...) Tem-se confundido Estado laico com Estado ateu. Estado laico é aquele em que as instituições religiosas e políticas estão separadas, mas não é um Estado em que só quem não tem religião tem o direito de se manifestar. Não é um Estado em que qualquer manifestação religiosa deva ser combatida, para não ferir suscetibilidades de quem não acredita em Deus.
Há algum tempo, a Folha publicou pesquisa mostrando que a esmagadora maioria da população brasileira, mesmo daquela que não tem religião, diz acreditar em Deus, sendo muito pequeno o número dos que negam sua existência.
Na concepção dos que entendem que num Estado laico, sinônimo para eles de Estado ateu, só os que não acreditam no criador é que podem definir as regras de convivência, proibindo qualquer manifestação contrária ao seu ateísmo ou agnosticismo. Isso seria uma autêntica ditadura da minoria contra a vontade da esmagadora maioria da população."
Fonte: Ives Gandra da Silva Martins, "Estado laico não é Estado ateu", Folha de S. Paulo, Opinião, 26/11/12, p. 3.
"(...) Um pouco sobre o laicismo: ele deriva diretamente do princípio da liberdade religiosa: se todo brasileiro é livre para ter a religião que quiser (ou não ter religião nenhuma), então é errado que o governo, que representa e é sustentado pela totalidade dos cidadãos, eleja favoritos.
(...) Há ainda a objeção de que 'o Estado é laico, mas não ateu'. Sim, o Estado não é ateu! Só que ninguém exige que o real passe a dizer 'Deus não existe', mas apenas que o dinheiro pare de falar de Deus e ponto. Confunde-se neutralidade com oposição, o que é tolice ou má-fé."
Fonte: Carlos Orsi, "Analisando as principais críticas à proposta", Folha de S. Paulo, Opinião, 26/11/12, p. 3.
terça-feira, 27 de novembro de 2012 | Postado por Rodrigo Piscitelli às 17:04 | 0 comentários
Afinal, Deus deve ser louvado?
domingo, 26 de agosto de 2012 | Postado por Rodrigo Piscitelli às 19:47 | 0 comentários
Qual o valor do dinheiro?
Ao que tudo indica, nem o normalmente conservador Conselho Federal de Medicina (CFM) resistiu à pressão e já vai, pelas beiradas, aceitando a barriga de aluguel. Oficialmente, o CFM está apenas permitindo que uma mulher não aparentada ceda a outra seu útero por razões altruísticas, mas admite que não tem como saber se há ou não pagamento envolvido.
Como bom utilitarista, penso que, se um acordo qualquer é desejado pelas duas partes e não prejudica terceiros, esse não é um assunto no qual o Estado e suas autarquias possam interferir. Não tenho, portanto, nada contra barriga de aluguel, comércio de órgãos, prostituição e jogos de azar. É claro, porém, que minha posição está longe de ser unânime.
Quem articula com maestria argumentos contrários aos meus é Michael Sandel, no recém-lançado "O Que o Dinheiro Não Compra". Para o professor de Harvard, a crescente monetização da sociedade, além de afastar ricos de pobres, pode muitas vezes destruir valores como altruísmo, solidariedade, patriotismo etc.
Ele apresenta tantos exemplos e articula tão bem suas ideias que é difícil discordar. O que me incomoda no discurso de Sandel é que ele põe tanta ênfase na ideia de que o dinheiro degrada tudo o que toca que acaba favorecendo um certo reacionarismo de esquerda, que rejeita o avanço do mercado mesmo quando isso pode ser benéfico para a maioria.
É claro que a "commoditização" da vida cria uma série de problemas e injustiças. Só que também tínhamos problemas e injustiças antes da invenção do dinheiro. Colocando as coisas em perspectiva histórica, o paulatino avanço dos mecanismos de mercado por diferentes aspectos da vida também é responsável pela era de pujança material e sanitária sem precedentes de que até as populações mais miseráveis do planeta se beneficiam. Será que devemos mesmo criar zonas sagradas que não podem ser tocadas pelo dinheiro?
Fonte: Hélio Schwartsman, "Zonas sagradas", Folha de S. Paulo, Opinião, 26/8/12, p. 2.
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