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quarta-feira, 10 de junho de 2015 | | 0 comentários

A América Latina e o jornalismo

“A situação econômica da América Latina é fictícia.”

Ouvi a frase acima em abril de 2012, durante uma visita à sede da CNN em Atlanta (EUA). Foi dita pelo jornalista argentino Guillermo Arduino. Na época, ela até pareceu um tanto exagerado, embora existissem já claros sinais da deterioração do continente, principalmente na Argentina.

Hoje, ao rever as anotações daquela visita, lembrei da conversa com Arduino, na praça de alimentação pública no térreo do prédio da CNN, e reforcei a convicção de que ser visionário (no sentido de fazer análises e antecipar cenários) é papel fundamental do bom jornalista e do bom jornalismo.

Esta tarefa exige essencialmente uma qualidade (saber interpretar fatos) e duas características: leitura e cultivo de boas fontes.

quarta-feira, 6 de maio de 2015 | | 0 comentários

"Roda Viva" com Marília Gabriela

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 | | 0 comentários

As lições de jornalismo do PVC

Trechos da entrevista do jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, para o UOL Esporte. Vale a pena ler e refletir, são verdadeiras lições de jornalismo:

UOL Esporte: O PVC repórter é um pouco ofuscado por esse PVC comentarista de televisão e o PVC blogueiro?
PVC: Tem uma diferença de opinião e análise. Opinião todo mundo tem. Estamos em uma era em que todo mundo opina, cria. Eu posso achar qualquer coisa sobre qualquer coisa. Mas isso não quer dizer que tenha profundidade e tenha valor. Uma opinião tem valor? Claro que tem. Mas uma análise que tem apuração, que tem um cara que conversou com um, conversou com outro, checou os dois lados, construiu uma história, conseguiu analisar, citando quais foram as fontes, isso tem mais valor. O que eu tento fazer é esse tipo de análise. Eu não sei se ofusca. O que eu acho que ofusca é essa espetacularização da notícia. É quando você percebe que o jornalista virou quase um artista. O jornalista não é para ser artista. O jornalista é para dar a informação e para analisar a informação. Nesse cenário, não é que o repórter fica ofuscado. Fica ofuscado o jornalista em toda a sua plenitude. Ou seja, o jornalista que apura, que checa, que recheca, que interpreta, que analisa, que junta 20 anos de história, de experiência. Isso tá fora. O cara olha na TV a imagem do cara que tá aparecendo na televisão. E não tem como mudar isso. Tem como você ter a percepção de qual é o seu papel diante de disso. E o seu papel não é ser uma celebridade, é ser um jornalista.

UOL Esporte: De qualquer maneira, ainda te assusta o fato de você virar notícia? Isso te incomoda? Emendando, você é tímido?
PVC: Eu sou tímido. A vida inteira eu falo isso. Eu tinha 14 anos e comecei a esboçar para falar para algumas pessoas que eu pensava em ser jornalista e eu ouvia: "não pode porque você é muito tímido". Até hoje eu sou. Outro dia eu contei para o Flávio Gomes e ele adorou. Quando eu fiz a minha primeira matéria, eu passei pela rua Jurubatuba (em São Bernardo do Campo), e tinha um anúncio: "jornal O Diálogo". Eu bati na porta, subi a escada, tinha lá uma redação e eu pedi um frila. (...) Então eu tinha de aprender a driblar essa timidez. O que me assusta não é você entender que você virou notícia. Para resumir: eu sou jornalista. Se você decidiu fazer uma nota no UOL ou em outro lugar julgando que o que está acontecendo comigo é notícia, eu como jornalista tenho de entender que na opinião de outro jornalista isso tem um valor de notícia. Nesse momento eu virei notícia. Outra coisa é eu ter a percepção que o meu papel não é ser notícia. O meu papel é ser jornalista. Então, não é para ser notícia. Se for, foi circunstancialmente. (...)

terça-feira, 17 de junho de 2014 | | 0 comentários

Os jornais e o jornalismo têm futuro, diz Carr

(...) Ele (o jornalista David Carr) diz não ser pessimista em relação ao jornalismo e aos problemas que enfrenta devido à queda de circulação dos diários impressos e a competição com a internet.

"Pelo contrário, é uma época estimulante para estar no jornalismo. As pessoas vivem me perguntando se há futuro para o ofício, e eu respondo que, se alguém me dissesse há alguns anos que um blogueiro do (jornal britânico) ‘Guardian’ daria o furo do século, não acreditaria", diz Carr.

"Um fenômeno como o Wikileaks surgiu e precisou de jornais tradicionais para dar forma ao seu conteúdo. E, ainda, o dono da Amazon acaba de comprar o Washington Post'. Não me interesso tanto pelo futuro mais distante, mas sim pelo que vai acontecer agora, e o panorama é estimulante", defende.

Ativo em blog e no Twitter, por outro lado, Carr admite que há um risco na perda de leitores dos jornais impressos, embora reafirme a importância dos grandes jornais.

"Há métodos e modos de tratar certos assuntos, de cobrir os bastidores da política, que não vão ser suplantados por posts no Facebook ou tuítes. Considero ainda importante que existam grandes organizações por trás do ofício."

Para Carr, porém, discutir se o digital matará o impresso é uma abordagem equivocada. "Esses dois mundos já caminham juntos. E já há uma maneira de imaginar novas estratégias, de mudar a relação com o consumidor de notícias e com a produção de conteúdos, integrando novos atores e organizações."

Acrescenta, ainda, que considera as novas gerações muito bem informadas. "Eu convivo com gente jovem, tenho filhas, dou aulas. Eles sabem muito. Pode-se questionar a qualidade, mas não há como negar que a informação tem lugar importante na nossa sociedade", afirma.

Fonte: Sylvia Colombo, "A novela da mídia", Folha de S. Paulo, Ilustrada, 2/6/14.

quarta-feira, 16 de abril de 2014 | | 0 comentários

Vida de jornalista

Café da manhã às dez, almoço (leia-se lanchão) às três da tarde numa típica padoca paulistana. Nada saudável, mas tipicamente "jornalístico". Adoro essa vida corrida na cidade grande.

Aliás, por falar em jornalismo, recebi hoje uma frase ouvida na rádio Bandeirantes: "Não tem essa de 'quero ser jornalista'. Jornalista ou você nasce ou não nasce".

Verdade.

Quem "escolhe" ser jornalista assim, no meio da jornada, meio ao acaso, tem forte chance de se perder no caminho.
Porque, como dizem, jornalismo é profissão de fé.

Só quem nasce jornalista, quem tem jornalismo no sangue, aguenta. Os demais desistem.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014 | | 0 comentários

Frase

"Jornalistas têm a oportunidade de viver a história para contar aos outros. Nem é uma profissão, é um jeito de viver."
Patrick Chauvel, fotógrafo francês, em entrevista ao programa "Conexão Roberto D´Avila" (TV Brasil, dom., 22h)

sábado, 14 de dezembro de 2013 | | 0 comentários

10 coisas sobre namorar um jornalista

1 - Como os jornalistas vivem intensamente o trabalho, pode até parecer que eles amam mais a profissão do que amam seus (suas) parceiros (as). Em alguns casos, muitos casos, isto é verdade, mas também não chega a ser assim muuuito mais.

2 - O jeito meio “reclamão” dos jornalistas é uma questão cultural, histórica, antropológica, metafísica. E um pouco de charme.

3 - O jeito meio chato é chatice mesmo.

4 - Numa briga ou DR, não tente entender por que eles insistem em perguntar o que, quem, quando, onde, como e por quê.

5 - Não é por mal que eles riem dos erros de português da pessoa amada.

6 - É normal eles passarem a madrugada em frente a um computador.

7 - É normal eles serem um pouco anormais.

8 - Levar um bloquinho de anotações para o jantar de aniversário de namoro é apenas precaução. É que a notícia não marca hora.

9 - Acredite: a Patrícia Poeta também tem crises existenciais e o William Bonner também brocha.

10 - Apesar de tudo, é comum as pessoas sentirem orgulho de namorar um jornalista.

PS: não sei quem é o autor deste "decálogo jornalístico", recebi por e-mail. Só sei que ele é 100% verdadeiro!

quinta-feira, 27 de junho de 2013 | | 0 comentários

"Drones para jornalistas"

A utilização de drones na cobertura jornalística marcou o primeiro dia de debates do encontro de editores de jornais da Global Editors Network (GEN), que ocorreu entre os dias 19 a 21 deste mês, em Paris.

Os drones, palavra que em inglês significa zangão, são os veículos aéreos não tripulados (vant), que, se utilizados com câmaras ou filmadoras, constituem mais uma ferramenta para o jornalismo.

A BBC, a ABC News e outros grupos de mídia já têm usado os drones, mesmo que não haja uma legislação específica sobre o tema nos países em que atuam.

O grupo L'Express, da França, fez uma experiência de três meses de cobertura com drones equipados com filmadora. Para contornar o custo da experiência, os jornalistas da empresa contaram com a parceria de uma fabricante de drones, a Parrot, que durante o encontro em Paris vendeu o equipamento ao preço de 300 euros, na versão básica, com autonomia de 15 minutos e com peso inferior a 500 gramas.

Os jornalistas do L'Express contam que a Parrot cedeu dez unidades para a experiência, mas que ao menos quatro foram perdidas, por falta de perícia no manuseio. Com humor, Raphael Labbé, um deles, contou que um drone caiu no Sena quando tentava fazer a cobertura de uma manifestação, pois o aparelho dependia de conexão wi-fi e se afastou demais da base. A sua exposição no evento do GEN se chamava "Drone it".

Guy Pelham e Nicholas Pinks, da BBC, disseram que a palavra drone assusta os ingleses e que grande parte do trabalho para a adesão a essa ferramenta passa por convencer a opinião pública da sua utilidade.

Em geral, as regras para a utilização de veículos aéreos não tripulados fazem distinção em função do tamanho e do peso das engenhocas.

Em alguns países, como na Austrália, há a expectativa de que os aparelhos que pesem menos de dois quilos sejam liberados pela legislação, podendo voar sem qualquer tipo de licença. A Austrália atualmente exige autorização para uso do equipamento, que pode custar até U$ 8.000.

Mas, mesmo que sem licença alguma, é claro que a utilização do drone sempre gera responsabilidade, pois um acidente pode causar grande estrago, com danos inclusive à reputação da empresa que o provocou.

Há drones para todos os gostos e mais de um milhão deles voando por aí. Desde aqueles de uso militar, como tem sido notícia nos EUA, com autonomia de 24 horas e que podem custar milhares de dólares, como os da Parrot e alguns outros que pesam menos de 50 gramas, bem pequenos, com um design similar ao de um inseto.

Alguns podem ser pilotados por uma só pessoa e outros necessitam de uma equipe com pessoas de diferentes especializações.

Os jornalistas apontam algumas vantagens na utilização dos drones, a primeira delas relativa à segurança. Mark Corcoran, que narrou as experiências da Australian Broadcasting Corp com os drones, afirma que, na cobertura de uma guerra, por exemplo, não é necessário que jornalistas corram os mesmos riscos que os soldados.

Os drones com câmeras ou filmadoras podem se aproximar mais dos eventos, poupando os repórteres. Ele mesmo, que esteve em zonas de combate, defende que a segurança dos jornalistas talvez seja a maior vantagem da utilização dos drones.

Mas há também vantagens ecológicas, se comparados a helicópteros, e também de custo e flexibilidade. A Fox Sports, por exemplo, contou que tem autorização para ficar a cinco metros dos jogadores, o que é um privilégio para algumas práticas esportivas.

As implicações da utilização dos drones são diversas. Vão desde as mais óbvias, como a questão da privacidade e a proteção de dados, até a que envolve a discussão das liberdades civis e da utilização do espaço aéreo.

As legislações americana e inglesa limitam a aproximação de um drone de uma pessoa a 500 metros de distância e a 400 pés (122 m) de altura, o que, a julgar por notícias publicadas, parece não ser muito respeitado.

De qualquer modo, a disseminação do uso dos drones para fins jornalísticos já faz com que algumas redações pensem em adotar um código de melhores práticas para a sua utilização. 

Fonte: Taís Gasparian, “Folha de S. Paulo”, Opinião, 26/6/13, p. 3.

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Uma reflexão profissional

Jornalismo é profissão de fé. Ponto.

Jornalismo consiste na busca incansável pela informação e a consequente transmissão desta ao público - seja por qual meio for.

Qualquer coisa além disto pode até ser trabalho de jornalista, como assessorias em geral, mas não é nem nunca será jornalismo. É o que penso, foi o que aprendi.

Ponto.

PS: a observação feita nesta postagem não tem nenhuma intenção de crítica a quem quer que seja, trata-se apenas de uma reflexão.

segunda-feira, 27 de maio de 2013 | | 0 comentários

Entrevista com um jornalista

Quando estava na faculdade de Comunicação Social da Unesp/Bauru, em meados dos anos 1990, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do jornalista Caco Barcellos – autor do livro clássico “Rota 66 – A história da polícia que mata” e idealizador do programa “Profissão Repórter” (TV Globo, terça, 23h45).

Na ocasião (15/9/95), ele falou sobre seu início da profissão, os desafios do jornalismo e sua obra mais célebre, o “Rota 66”. A entrevista a seguir é fruto do bate-papo com os alunos e reflete o pensamento do jornalista na ocasião (que pode, ou não, ser o mesmo de hoje):

Você sofreu algum tipo de ameaça?
Tinha medo. Sofri ameaças de morte só para me assustar. Não tenho mais o perfil dos mortos. Tive, sim, noites de pesadelo. Nos últimos dois meses não conseguia mais dormir. Nos pesadelos eu era muito perseguido, muita tortura.

De que forma você analisava os tiroteios?
De uma forma muito óbvia: tiros em partes vitais, cabeça, nuca, não são sinais de tiroteio, mas sim de assassinato. A PM de São Paulo matava cerca de 1.500 pessoas por ano. Hoje, ela mata muito menos, mas mesmo assim é um número absurdo. São 400 mortes por ano. Em Nova York, uma cidade tão violenta quanto São Paulo, a polícia mata cerca de 20 pessoas por ano.

Você teria alguma solução?
Tem que se alterar a estrutura da PM. A Polícia Civil não mata. Ou mata pouco. O problema é que a Polícia Civil pode ser punida e a PM não. Os policiais militares sabem que ficarão impunes. O PM hoje é juiz, testemunha, carrasco.

Você é a favor ou contra a pena de morte?
Sou extremamente contra. Nós não temos a pena de morte neste país, então a morte de bandidos é morte, assassinato. Ou se institucionaliza a pena de morte ou para de discutir se é bom ou não a morte de bandidos. Toda atitude que leve à não-violência é bem-vinda. Mas ainda acho que há muita enrolação. Quero esclarecer uma coisa: os matadores são uma pequena minoria poderosa. Tem que se mudar a estrutura. Modificar a estrutura. Eu não estou dizendo que acho a polícia inútil. Ela até defende a vida, mas a vida de quem? Por que policiar grandes bancos e grandes empresas? Eles podem fazer a autodefesa.

Como você trabalha, tem muitas fontes?
Em 20 anos de profissão, sabe quantas fontes consegui? Zero. Hoje há uma ilusão de gabinete aberto, porque quando eu pesquisei, nós não podíamos nem chegar perto dos gabinetes. Assim, se investiga dossiês oficiais e se divulga as denúncias sem checá-las. Para que fontes oficiais? Para divulgar os “tiroteios”? Eu demoro mais tempo para checar dados do que para divulgá-los. Não cultivo fontes oficiais. Apesar de dar “status” dizer: “hoje eu conversei com tal ministro, com o chefe de sei lá o quê...”. Na verdade, se eu não tivesse escrito esse livro, teria abandonado a profissão.

Qual sua avaliação sobre a imprensa brasileira?
A imprensa só ouve os dois lados da notícia quando a elite está envolvida. O poder da imprensa deveria ser o poder da sociedade e não é isso que a gente vê hoje em dia.

Você já teve que romper com a ética para obter alguma informação?
Não. Prefiro ficar sem a informação. A vontade da vítima é soberana. Só não dou opção de escolha às pessoas que roubam a sociedade porque elas não pensaram na sociedade na hora de cometer os seus atos. Assim, não posso falar para ela: “você quer aparecer na minha matéria?”.

segunda-feira, 6 de maio de 2013 | | 0 comentários

"Silvio Santos e a imprensa"

(...) Ao elogiar Keila Jimenez, colunista da Folha, Silvio (Santos) aproveitou para fazer uma acusação grave: "Você é imparcial. Não torce pra ninguém. Faz aquilo que tem que fazer. Faz a comidinha de pensão legal. O que é justo é justo. Tem uns bobalhões aí que, de vez em quando, começam a ganhar um dinheirinho por fora e começam a falar bem de alguém e mal de alguém. Eu não vou falar o nome porque estou com raiva".

Com tanta experiência no ramo, e em nome dos princípios editoriais do SBT, Silvio deveria não apenas dizer quem é o jornalista que recebe "por fora" como informar quem paga.

Fonte: Mauricio Stycer, Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 5/5/13 (leia a íntegra aqui).

terça-feira, 5 de março de 2013 | | 0 comentários

Nós, os jornalistas

Tanto quanto políticos e advogados, jornalistas sempre renderam bons vilões na ficção -primeiro, na literatura; depois, no cinema e, mais recentemente, na televisão. O seriado "House of Cards", disponível desde 1º de fevereiro na Netflix, tem merecido reparos pelo retrato nada edificante que pinta de um tipo específico, e poderoso: o repórter de política.

Jornalistas costumam ser críticos e até maledicentes com colegas de ofício, mas não gostam de ouvir avaliações vindas "de fora" a respeito de suas práticas.

A série se passa em Washington, nos dias atuais. O protagonista, Frank Underwood (Kevin Spacey), um experiente e poderoso deputado democrata, acaba de saber que o presidente dos Estados Unidos ignorou um acordo que parecia certo e não o nomeou secretário de Estado.

Destinado a se vingar, mas sem perder a proximidade com o presidente, Underwood faz tudo o que o senso comum imagina ser da alçada de um político sem escrúpulos: ajuda a queimar o nome do político indicado para o cargo com que sonhava, manipula votações, mente, troca cargos por votos, destrói carreiras, faz lobby suspeito etc..

A jornalista Zoe Barnes (Kate Mara) tem um papel central neste projeto de poder de Underwood. Sonhando voos mais altos no "Washington Herald", onde trabalha, a jovem repórter se aproxima do deputado interessada em conseguir notícias exclusivas mesmo que em troca de sexo.

Casado, o deputado adverte a repórter de que ela vai se machucar no fim, mas Zoe está mais interessada nos benefícios no curto prazo. Estabelece-se, então, uma relação de negócios, com benefícios para ambos.

Com as informações passadas por Underwood, a carreira da jornalista dá um salto. Logo é convidada pelo chefe a assumir o cargo de principal repórter na Casa Branca, mas recusa. "É onde as notícias morrem", diz. A ocupante do posto, uma repórter veterana, suspeita que Zoe esteja trocando notícias exclusivas por sexo. Em um episódio, dirá para a colega: "Também fiz isso no início da carreira".

Numa discussão com a dona do jornal, o chefe de Zoe Barnes diz que a repórter, assim como o Twitter e blogs, é superficial. O jornal foi fundado sob outras bases e não são essas novidades que o manterão vivo, diz. É demitido.

Depois de dar uma série de "furos" no "Herald", ela troca o jornal por um site, Slugline, onde ouve da nova chefe que não precisa mostrar previamente os seus textos. "O objetivo aqui é que todos publiquem com mais velocidade do que eu tenho a capacidade de ler."

Tanto os diálogos entre Zoe e Underwood, quanto os que a repórter tem com os demais jornalistas na série são de uma crueza assustadora. Beau Willimon, autor do texto, trabalhou com uma série de políticos, inclusive Hillary Clinton, no final dos anos 1990. É autor da peça "Farragut North", que virou o filme "The Ides of March" ("Tudo pelo Poder"), dirigido por George Clooney em 2011.

Enquanto a série "The Newsroom" apresenta uma visão do que o jornalismo poderia ser, mas não é, "House of Cards" expõe o que ele não deveria ser. Não espanta que o retrato da repórter Zoe Barnes, bem como o da profissão hoje, pintado nesta série, desagrade muito mais.

Fonte: Mauricio Stycer, "Trocando 'furos' por sexo", Folha de S. Paulo, Ilustrada, 3/3/13.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013 | | 0 comentários

Para ser um bom jornalista...

Revendo alguns materiais da época da faculdade (ou seja, dos primórdios da popularização da Internet, meados dos anos 1990), encontrei anotações de uma palestra do jornalista Marcelo Mendonça a alunos de Comunicação Social da Unesp (Universidade Estadual Paulista), em Bauru.

Mendonça – na época editor do hoje extinto “Jornal da Tarde” – teve que responder uma pergunta que começava a intrigar quase todo mundo: “Existe futuro para a mídia impressa?”

“Isto ela mesma se pergunta. Os brindes jogaram a circulação num nível insuportável. Isto gerou problemas físicos, falta de papel jornal. Acredito que a mídia impressa ainda tem uma vida longa”, disse ele na ocasião.

De fato, até hoje (cerca de 15 anos depois da palestra) ninguém tem ao certo uma resposta para a tal pergunta.

O que se sabe é que o conhecido “JT”, nascido em 1966 para revolucionar a imprensa, não resistiu aos novos tempos. Deixou de circular em 31 de outubro de 2012.

Na ocasião, nós alunos perguntamos também a Mendonça quais os requisitos para conseguir um bom emprego (ou seja, ser um bom jornalista). Trata-se de uma pergunta que já me fizeram, uma ex-aluna, e que foi motivo de postagem aqui no blog.

Mendonça respondeu de modo objetivo. Eis, então, os requisitos citados por ele (com os quais concordo):

- ter vontade (gostar do que faz);
- escrever bem (dominar a Língua Portuguesa);
- ler muito;
- saber pelo menos o inglês;
- ser curioso;
- não se acomodar.

E aí, alguém se arrisca?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013 | | 0 comentários

Profissão: perigo (3)

A seguir, trechos da entrevista publicada nesta quinta-feira com o presidente da Federação Internacional dos Jornalistas (IFJ, na sigla em inglês):

Folha - O relatório da IFJ mostra que 2012 foi um dos anos mais sangrentos para a imprensa, com 121 jornalistas assassinados. O que esse número representa?
Jim Boumelha - É um número terrível, precisamos chamar atenção para ele. Se fossem cem médicos ou cem advogados assassinados em um ano, não se falaria em outra coisa no mundo.O mais preocupante é que a soma de mortes tem se mantido num patamar muito alto a cada ano que passa.

Folha - Os países em guerra civil lideram o ranking de mortes de jornalistas, mas não chegam à metade do total de casos no mundo. Por quê?
Boumelha As pessoas acham que a maioria das mortes acontece nas coberturas de guerra, mas isso não é verdade. A maior parte dos assassinatos que nós temos registrado é fruto de perseguição a profissionais que estão fazendo reportagens nos lugares em que costumam trabalhar no seu dia a dia. É muito barato matar um jornalista. A impunidade é muito grande. Em vários países, esta tem sido a melhor forma de silenciar um jornal ou interromper uma série de reportagens investigativas. Na maior parte das vezes, os alvos desses assassinatos por encomenda são jornalistas que não são famosos. Por isso, os crimes acontecem e muita gente nem se lembra dos nomes das vítimas.

Fonte: Bernardo Mello Franco"É muito barato matar um jornalista hoje no mundo", Folha de S. Paulo, Mundo, 10/1/13.

Leia também:

Profissão: perigo

Profissão: perigo (2)

terça-feira, 30 de outubro de 2012 | | 0 comentários

A missão

"Na sua opinião, que características importantes um jornalista precisa ter?"
(...) 
"A capacidade de ver com seriedade", respondeu ela por fim. "Através da observação paciente, da acumulação meticulosa de detalhes e de um apetite voraz pela verdade, o quadro mais amplo surgirá. É dever do repórter defender os fracos e acender um farol nos cantos mais tenebrosos da experiência humana."
Annalena McAfee, "Exclusiva" (p. 151)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012 | | 0 comentários

Profissão: perigo (2)

O ano de 2012 tem sido particularmente trágico para os jornalistas - e, consequentemente, o jornalismo. O número de assassinatos de profissionais da imprensa assusta. O caso mais grave talvez seja o México, embora o Brasil não fique muito distante no ranking.

A violência contra repórteres no México foi tema de um documentário produzido pela StoryHunter, organização que reúne videojornalistas de todo o mundo. 

Recomendo que você assista e reflita – trata-se de tema da mais alta relevância não só para os profissionais da imprensa como também para toda a sociedade.

Afinal, está em jogo o direito constitucional (em todos os países democráticos) de acesso à informação e da liberdade de expressão.


Leia também:


quinta-feira, 27 de setembro de 2012 | | 0 comentários

A profissão

- (...) Mas o jornalismo parecia uma profissão de macho alfa.
- O jornalismo consiste em um bando de idiotas fingindo ser machos alfas – comenta ela. (...)
- Estou farta da pirataria das agências de notícias – explica ela. – Seria bom desgrudar o ouvido do telefone e sair para fazer reportagens de vez em quando.
Tom Rachman, “Os imperfeccionistas” (p. 216)

domingo, 19 de agosto de 2012 | | 0 comentários

Ainda a questão do diploma para jornalistas

Parece-me despropositada a tentativa do Senado de contornar a decisão do Supremo que extinguiu a necessidade de diploma para o exercício da profissão de jornalista aprovando uma proposta de emenda constitucional (PEC) que reintroduz a exigência.

O Legislativo brasileiro adora um projetinho de regulamentação profissional. Pesquisa rápida no site da Câmara revela a existência de 6.893 itens cuja ementa faz referência a algum ofício. Difícil coadunar isso com o espírito da Carta, que, em seu artigo 5º, XIII, determina: "É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer".


É até razoável defender a regulamentação para ofícios que requeiram um saber técnico bastante preciso, como medicina e engenharia, ou exijam perícia específica, como piloto de avião, e cuja ausência represente risco físico para a população. Um jornalista até pode divulgar informações falsas que provocam grandes estragos. Mas é bobagem buscar um conjunto de matérias teóricas que capacitem o estudante a tornar-se um bom repórter.

Podemos afirmar que o engenheiro, para fazer com que a ponte fique em pé, precisa ter cursado cálculo I e II e conhecer noções de física que podem ser aprendidas nas escolas politécnicas. O médico, para receitar uma droga, precisa saber algo de bioquímica e farmacologia. Mas o que dizer do jornalista? O que ele precisa além de noções de português (em tese obtidas com a alfabetização) e de disposição para estudar o assunto de que vai falar? Ao que consta, o MEC não reconhece as disciplinas verdade I, II, III e IV.

Ninguém se torna ético só porque assistiu a aulas de ética na faculdade. Afirmar, como se faz por aí, que a exigência do curso de jornalismo é garantia de bom comportamento no exercício da profissão faz tanto sentido quanto dizer que quem vai à missa não comete pecados.

Fonte: Hélio Schwartsman, "Nada mais que a verdade", Folha de S. Paulo, Opinião, 19/8/12, p. 2.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012 | | 0 comentários

A visão do outro

Assistindo à primeira temporada de “Clube dos Correspondentes”, série da Globo News, comecei a pensar no Brasil e nas nossas falhas (ou desafios, chame como preferir).

Ouvir um correspondente é, como disse certa feita um amigo, “olhar a garrafa pelo lado de fora” para quem sempre esteve dentro dela. Em outras palavras, ter outra visão.

Naturalmente, fazer esse exercício exige boa dose de humildade e abertura para ouvir, enxergar e refletir (como você se comporta diante da crítica ou do apontamento de um colega ou amigo?).

Voltando à questão principal: dos tantos apontamentos feitos, dois chamaram mais a atenção. Um deles veio do correspondente da rede de TV Al-Jazeera, a principal emissora de notícias do mundo árabe. Questionado sobre o que lhe causava mais espanto no Brasil, ele respondeu sem titubear: o modo como o brasileiro assimilou a violência no dia-a-dia.

Segundo esse correspondente, é comum no mundo ocidental as pessoas imaginarem que as cidades e os países árabes vivem um eterno conflito bélico, com tiros e mortes todos os dias pelas ruas.

Ao contrário, disse ele: há, sim, guerras estabelecidas, mas em locais específicos. Em geral, falou o jornalista, as cidades são pacíficas e pode-se sair às ruas, ir ao supermercado e ao cinema com toda tranquilidade, sem o aparato de segurança (oficial e não-oficial) que se vê no Brasil.

O correspondente contou que a filha, quando esteve no Brasil, assustou-se ao ver tanta gente armada em tantos lugares – nos bancos, hospitais, casas noturnas, nas ruas. De acordo com ele, o brasileiro acostumou-se a este estado de violência e não se dá conta do clima de insegurança e terror em que vive.

Ontem, no último programa da série (foram quatro na primeira temporada), o correspondente de uma agência de notícias da China enumerou os três problemas que mais chamam a atenção dele no Brasil: corrupção, burocracia e baixa eficiência.

Ao ouvir, refleti sobre como um problema está umbilicalmente ligado ao outro: a corrupção favorece a burocracia e se alimenta dela. O resultado de uma e outra é a pouca eficiência.

Será que poderemos um dia nos considerar desenvolvidos de fato sem resolver estas questões básicas de civilidade?

PS: a primeira temporada de “Clube dos Correspondentes” será reprisada a partir do próximo domingo, sempre às 17h05.

domingo, 5 de agosto de 2012 | | 0 comentários

Ameaças a jornalistas de Limeira chegam à SIP

As ameaças a jornalistas de Limeira durante o processo de cassação do ex-prefeito Silvio Félix (PDT), em apuração no Ministério Público, repercutiu agora na SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). A questão aparece em relatório elaborado durante reunião da organização em abril em Cádiz, na Espanha.

O documento enumera os fatos mais relevantes do período. Entre eles, cita:

"18 de janeiro de 2012 - Jornalistas de Limeira (estado de São Paulo) foram ameaçados de morte por meio de correspondências eletrônicas após cobrir investigações do Ministério Público Estadual sobre familiares e pessoas ligadas ao prefeito da cidade, Silvio Félix (PDT). Os e-mails intimidatórios exigiam que repórteres da Gazeta de Limeira, do Jornal de Limeira e da TV Jornal parassem de noticiar as denúncias de enriquecimento ilícito que pesam contra familiares de Félix."