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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015 | | 0 comentários

Jabuticaba de esquerda

Curiosa a posição dos manifestantes a favor do governo da presidente Dilma Rousseff - e, portanto, contra o impeachment. Desde o início do ano, e agora com mais ênfase, saem às ruas defendendo a petista e criticando o ajuste fiscal promovido por ela.

Ou a política econômica, mesmo comandada por um liberal, não é de responsabilidade da presidente? 

Defendem um governo - legitimamente - no qual não se reconhecem (ao menos na economia).

Não foi uma, nem foram duas ou três vezes, que Dilma manifestou que a política de ajuste fiscal era do governo, não do ministro Levy.

A esquerda quer o bônus, mas não o ônus da desastrosa administração Dilma, é isto? Então ficamos assim: os acertos (quais mesmo?) são de Dilma e do governo petista; os erros, dos outros...

quarta-feira, 7 de outubro de 2015 | | 0 comentários

Sobre o impeachment de Dilma

O que penso a respeito de um possível impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) foi muito bem explicitado pelo empresário Lawrence Pih numa interessante entrevista recente ao jornal “Folha de S. Paulo”

Reproduzo a seguir o trecho em questão e recomendo a leitura da entrevista na íntegra para entender um pouco mais, do ponto de vista da economia, a atual situação do país:

Impeachment é traumático. Pensam que se remove presidente do dia para a noite, mas não é tão simples. Não sou especialista, mas dizem que pode haver afastamento devido a pedaladas ou financiamento irregular de campanha. Essas coisas ocorreram no passado, mas nunca foi apurado. Os dois pontos são suficientemente graves? Essa primeira pergunta é técnica. 
 A segunda é política: ela tem condições de continuar governando sem levar o país ao caos? Quando o câmbio quase dobra em um ano, está instalado um grau de confusão grande. Com ela na Presidência até 2018, como ficará o país? Se as coisas começam a se deteriorar no ritmo em que isso acontece desde janeiro, estamos em maus lençóis. Não é só uma questão técnica. É também política, sob o aspecto da governabilidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2015 | | 0 comentários

"Saídas para a crise"

A TV Cultura promoveu recentemente uma série de ações visando discutir saídas para a atual crise política e econômica que assola o país. Programas especiais foram exibidos e um seminário de dois dias foi realizado em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, a Assembleia Legislativa paulista e um núcleo de estudos da Universidade de São Paulo (USP).

Para o "Jornal da Cultura", a equipe de jornalismo produziu uma série de 12 reportagens. Fiz a primeira e a última, ou seja, a abertura e o encerramento da série. Foram uma espécie de diagnóstico:





Depois, como encerramento da campanha, cobri os dois dias do seminários que debateu - na sede da OAB-SP - soluções para a crise:





Um livro está sendo elaborado com as sugestões apresentadas no seminário. Ele será encaminhado aos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.

quinta-feira, 19 de março de 2015 | | 0 comentários

Além da crise política

A seguir, trechos de uma interessante entrevista do filósofo Vladimir Safatle ao jornal “Folha de S. Paulo”, na qual ele faz uma análise mais ampla e complexa (distante, portanto, do inútil e rasteiro “fla x flu” partidário que tomou conta do país:

Vivemos atualmente uma instabilidade política em meio a comemorações de 30 anos da redemocratização. A democracia brasileira está consolidada?
Safatle - (...) Apesar disso, é falso chamar de "democracia incompleta". O certo é dizer que é uma neodemocracia que gira em torno dos seus impasses há 30 anos. Do final dos anos 1980 até hoje a democracia não se aperfeiçoou, e os seus problemas ficaram mais evidentes, como a baixa participação popular, um sistema parlamentar que produz distorções no sistema representativo e perpetuação de castas que interferem no sistema, interferências econômicas inacreditavelmente altas nos processos eleitorais. Nesse momento da história, é necessário ter claro o fato de que a Nova República acabou, morreu.

O que isso quer dizer? Quais são os impactos disso para o sistema democrático e para o país?
Safatle - A Nova República foi, entre outras coisas, um modelo de construção pós-ditadura na qual a governabilidade era compreendida através da cooptação de uma parte da classe política que se desenvolveu na própria ditadura, e da gestão de toda essa massa fisiológica da política brasileira vinculada a interesses locais. Foi assim no governo de Fernando Henrique Cardoso, com apoio de Antonio Carlos Magalhães e do PFL, e foi assim no governo Lula, com Sarney. Nos dois casos, o PMDB era o grande gestor da fisiologia política. Esse modelo se esgotou completamente. A produção de grandes atores políticos, do PT e do PSDB, se desmontou. Esses dois núcleos se esgotaram por completo. Ninguém mais espera que o processo de modernização nacional possa ser feito a partir de propostas desses dois grupos. Os dois já foram testados e demonstraram limites muito evidentes. Ninguém vai conseguir fazer nada continuando este modelo. O trágico é que quando uma coisa termina, ela não acaba necessariamente logo, e pode continuar como zumbi, como morto-vivo, e o país fica paralisado por muito tempo. Nada está acontecendo, apesar de todos os embates atuais. O fim do modelo é trágico, e leva consigo os atores políticos, intelectuais e formadores de opinião. (...)

Em tempo: postei apenas dois trechos, como exigido pelo jornal, mas reforço que vale a leitura de toda a entrevista, cujo link está no início da postagem.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013 | | 0 comentários

Sinal dos tempos

A crise econômica que atingiu os Estados Unidos em 2008, a maior desde a Grande Depressão de 1929, produziu personagens antes dificilmente vistos naquele país.

É o caso do catador de latinhas flagrado na St. Charles Avenue, em Nova Orleans. Um personagem bastante conhecido no Brasil, mas até então raro nos EUA.



Leia também:

- A nova realidade americana

- A nova realidade americana (2)

- Divagações sobre um país

* As fotos são de Carlos Giannoni de Araujo

quarta-feira, 6 de junho de 2012 | | 0 comentários

Crise e corrupção

No momento em que o governo brasileiro busca alternativas para aquecer a economia após o pífio desempenho no primeiro trimestre deste ano, com aumento de meros 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em relação ao trimestre anterior,  o jornal “El País”, da Espanha, trouxe na edição desta quarta-feira um interessante artigo que tem muito a nos ensinar – ou muito a ver com nossa realidade.

No Brasil, especialistas têm atribuído o fraco desempenho da economia ao baixo investimento dos governos em geral em infraestrutura. Gasta-se muito em custeio, pessoal e programas sociais e pouco em obras que estimulam a indústria, criam empregos e desencadeiam um círculo econômico virtuoso. Em praticamente todos os setores do governo federal, o nível de investimento este ano despencou – o que inclui o propalado PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).


Há, porém, um outro – e decisivo – fator que escapou das principais análises e que está diretamente ligado aos baixos investimentos (e, no caso do artigo do “El País”, à crise europeia): a corrupção (ou a sensação de corrupção). Dinheiro público que deveria servir para obras vai para o ralo – ou para o bolso de cachoeiras e cuecas de mensaleiros em geral.


Escreve Ricardo Martínez de Rituerto no “El País”, com base em levantamento da ONG (organização não-governamental) Transparência Internacional, que dois de cada três espanhois acreditam que o país seja o mais corrupto da Europa. Para 81%, os partidos políticos são “corruptos” ou “muito corruptos”. A percepção é a mesma entre italianos, portugueses e gregos.


Não é à toa que Espanha, Itália, Grécia e Portugal são os protagonistas da forte crise que atinge e ameaça a zona do euro.


Segundo a TI manifestou em seu mais recente informe, os quatro países sofrem de “uma grave carência de responsabilidade dos poderes públicos e uma ineficácia, negligência e corrupção tão enraizadas pela falta de controle e de punição”. “Já não se pode passar por alto os vínculos entre corrupção e a crise financeira e orçamentária nestes países”, aponta a ONG, conforme o “El País”.


Ainda de acordo com o artigo, a TI apontou – em referência aos quatro países europeus - que “'a corrupção consiste com frequência em práticas legais, mas não éticas' fruto da opacidade das regras que regem os grupos de pressão, o tráfico de influências ou a permeabilidade entre os setores público e privado”.


Alguma semelhança com a realidade brasileira?


Daí que aquecer a economia passa também – e necessariamente – pelo combate a esta mazela chamada corrupção, o princípio de todos os males, da falta de educação e saúde aos altos índices de violência.


Daí entendo, como já registrei neste blog, que o nível de intolerância em relação ao desvio de dinheiro público e aos aproveitadores do erário deve ser máximo.


Em tempo: o informe da TI citado no artigo é o “Money, Politics and Power: Corruption Risks in Europa” (“Dinheiro, política e poder: os riscos da corrupção na Europa”).


PS: o título desta postagem teve uma leve inspiração em uma das obras máximas do russo Dostoiévski, “Crime e Castigo”.

domingo, 3 de junho de 2012 | | 0 comentários

Sistema prisional: uma bomba-relógio

PRÓLOGO

Na iminência da fome, alguns outros problemas de primeira grandeza do Brasil foram historicamente relegados a segundo plano – não só por governantes, mas também por nós, o povo. Um exemplo? A educação.

Com a expansão da renda verificada no país nos últimos 15 anos, estes outros problemas começaram a ganhar maior relevância na agenda de debate dos brasileiros. Ainda há, porém, muito o que caminhar.

O FATO

Uma decisão da Justiça de Piracicaba, assinada pela juíza Gisela Ruffo na última terça-feira, acendeu a luz vermelha (era preciso acender?) no sistema prisional paulista – o maior do Brasil, com 40% da população carcerária nacional. A juíza determinou, por meio de liminar (uma decisão provisória), que o Estado suspenda o envio de presos para o CDP (Centro de Detenção Provisória) de Piracicaba até que sejam retirados do local os detentos já condenados.

Ela deu ainda um prazo de 30 dias para que o Estado retire os presos condenados irregularmente instalados no CDP (unidade para aqueles que ainda aguardam julgamento).

A decisão foi tomada com base em ação civil pública movida pelos promotores Enzo Boncompagni, da 2ª Promotoria, e Maria Cristina Freitas, da Promotoria dos Direitos Humanos. Na ação, segundo a juíza, eles apontaram superlotação do CDP e citam riscos à integridade dos presos, dos familiares que os visitam e dos funcionários do local, em número aquém do necessário para a unidade.

Inaugurado em 21 de outubro de 2001, o CDP de Piracicaba tem capacidade para 512 presos. No último dia 25 de maio, abrigava 1.695, conforme dados da
Secretaria Estadual de AdministraçãoPenitenciária (SAP). Ou seja: 232% além da sua capacidade (os promotores consideram plausível uma ocupação até 30% maior que o total de vagas, o que daria 665 pessoas).

Importante ressaltar que cerca de 40% dos presos do CDP são oriundos da Delegacia Seccional de Limeira, que não possui unidade do gênero nas oito cidades de sua circunscrição.

O outro CDP da região, em Americana, também está superlotado. Com capacidade para 576 presos, abrigava naquela mesma data 1.282, também conforme a SAP.

Na última quinta-feira, pelo menos sete presos enviados de Limeira para o CDP de Piracicaba foram recusados. Foram abrigados provisoriamente na carceragem junto à Delegacia Seccional, na Vila Cristóvam. Detalhe: a carceragem possui três celas, sendo que uma é destinada a prisões administrativas (falta de pagamento de pensão alimentícia, por exemplo). As outras duas têm capacidade para 12 pessoas. Na sexta-feira à noite, já estavam lotadas.

A Seccional aguarda para esta segunda-feira uma posição da SAP a fim de saber para onde enviará os presos enquanto o Estado tenta reverter a decisão da Justiça.

O problema, porém, não é restrito à região. Dados da própria SAP indicam que a situação prisional no Estado é mais do que crítica. Em dezembro de
2001, a população carcerária paulista somava 67.624 pessoas. Em dezembro de 2011, eram 180.333 – ou 166% a mais.

Não bastasse isso, o que se verificou nos últimos meses é estarrecedor: em
2011, a população prisional do Estado aumentou em 9.504 pessoas. Isto representou um ingresso de 26 presos por dia no sistema, em média. Este ano, até 9 de abril, já eram 8.185 detentos a mais (ou seja, quase o mesmo que em todo o ano passado). A média de ingresso diária saltou para 81,85 pessoas. Neste ritmo, serão quase 30 mil a mais no fim de dezembro.

Pelo que se vê, os números são insustentáveis. Desde 2010, o Estado tem um plano para construir 49 presídios, mas o ritmo das obras é lento. Até o momento, foram inauguradas sete unidades, sendo quatro CDPs (em Franca, Jundiaí, Taiúva e Pontal), duas penitenciárias femininas (em Tremembé e Tupi Paulista) e um Centro de Progressão Penitenciária (CPP, em São José do Rio Preto).

De acordo com a SAP, 16 unidades estão em construção, sendo três CDPs (em Cerqueira César, Riolândia e Icém). Uma está em licitação e oito em trâmites para iniciar este processo. Cinco unidades aguardam a decretação de utilidade pública da área e outras 12 seguem em estudo.

Atualmente, o Estado conta com 151 unidades prisionais, sendo 38 CDPs, 13 CPPs e 74 penitenciárias.


EPÍLOGO

Os números não mentem: há uma bomba-relógio instalada no sistema prisional paulista. A situação não é diferente no restante do país. Daí que têm pipocado no Congresso – mediante o discurso da garantia constitucional da presunção da inocência - projetos que “relaxam” as prisões.

O fato é que a seguir o ritmo atual, São Paulo não vencerá a disputa com a demanda por vagas. Só na região de Limeira, se fosse possível erguer quatro CDPs em um dia, todos nasceriam lotados.

Daí que se faz necessária uma pergunta: até quando o Estado brasileiro vai optar por prender ao invés de educar?

Naturalmente, ninguém é inocente a ponto de imaginar que a educação evitará o aparecimento de criminosos. Não resta dúvida, porém, que há uma relação direta entre a baixa qualidade da educação e o número de criminosos numa sociedade (ainda que se diga que nos Estados Unidos a população carcerária seja a maior do mundo – e de fato é; são 2,3 milhões de presos. O Brasil ocupa o quarto lugar, com meio milhão de detentos, atrás da China e Rússia, segundo o
Instituto de Pesquisa e Cultura Luiz Flávio Gomes).

Em tempo: o problema se agrava pela morosidade da Justiça e dos governos em tirar das prisões quem já cumpriu pena ou, no caso do CDP de Piracicaba, os condenados (que devem ir para unidades próprias).

* A imagem foi retirada do site da SAP, já "linkado" nesta postagem

terça-feira, 22 de maio de 2012 | | 0 comentários

Será o apocalipse?

Em praticamente dois meses, o dólar passou de R$ 1,72 a R$ 2,08 no Brasil. Reflexo da crise europeia que se acentua a cada dia.

Não sei onde o mundo vai parar – ou melhor, a economia (e ela é determinando para o resto). Paul Krugman previu em seu blog no site do “The New York Times” o colapso do euro. Para breve, questão de meses. O roteiro: a Grécia abandona o euro; Espanha, Itália, Portugal e Irlanda quebram; a Alemanha se vê num impasse. A União Europeia corre riscos.

Nos EUA, a situação também não é cômoda. Segundo Krugman, mais da metade da população norte-americana vive em estados com um nível de desemprego de pelo menos 8%. Só 8% dos norte-americanos moram em estados com desemprego inferior a 6%.

A questão que se coloca na Europa é, de acordo com o “El País” desta terça-feira: como resolver o impasse entre corte de gastos e crescimento econômico. Aparentemente, fazer as duas coisas parece impossível. Este será o tema principal de um encontro informal do Grupo dos 27, no final de junho.

O impasse ganhou um novo – e poderoso – ingrediente com a eleição do esquerdista François Hollande na França. Ele quer uma alternativa ao arrocho proposto (e acordado meses antes pelos líderes dos países da zona do euro, França incluída) em detrimento do crescimento econômico e da geração de empregos.

Na Espanha, um dos países que mais sentem a crise, a saída encontrada pelo governo de Mariano Raroy é conhecida: elevar impostos e reduzir gastos na primeira metade do mandato. As metas propostas por ele levariam a economia da Espanha ao mesmo nível da dos países do leste europeu. Em quatro anos, o nível de investimentos/gastos públicos cairia dos atuais 43,6% do PIB (Produto Interno Bruto) para 37,7%, informa “El País”.

A política de austeridade fiscal está sendo questionada por um motivo básico: seus resultados “escassos”, nas palavras do principal diário espanhol. Como contraponto, porém, apresenta-se a Alemanha: exemplo máximo da tal política, o país exibe os melhores números da economia em toda a União Europeia.

Li hoje que muito em breve, questão de anos, o PIB mundial será comandado pelos ditos emergentes (notadamente os Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Ontem, a presidente Dilma Rousseff manifestou num evento que o Brasil está “300% preparado” para enfrentar a crise. O governo brasileiro, ao contrário da austeridade pregada pela Europa, tem optado desde 2008 por elevar os gastos públicos como forma de impulsionar o consumo. Dilma acaba de reduzir a zero as alíquotas do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para carros populares. A medida faz parte de um pacote que totaliza R$ 2,7 bilhões entre isenções e oferta de crédito.

Como disse, não sei para onde o mundo caminha, não sou especialista no assunto, pouco entendo de economia. Leio e tento compreender o contexto atual. Só sei que a situação da Europa me parece sombria. O futuro é incerto. Teme-se um quadro de convulsão social – por lá, os protestos são comuns.

Será o apocalipse neste sombrio 2012?

sexta-feira, 11 de maio de 2012 | | 0 comentários

Pulseira anticrise

Escrevi numa postagem anterior que nós, brasileiros, não "vemos" muito a crise nos Estados Unidos porque o nível de consumo no país continua alto - pelo menos o nível de incentivo ao consumo (para ler mais, clique aqui).

Contudo, alguns sinais aparecem com evidência. Um deles pode-se ver na foto abaixo, tirada num quiosque da Starbucks no CNN Center, em Atlanta. O recado é claro: "Você compra uma pulseira e os EUA geram mais empregos. Vamos criar empregos para os EUA". A iniciativa é do grupo "Americanos ajudando americanos a criar empregos".


Acredite se quiser...


sábado, 5 de maio de 2012 | | 0 comentários

A nova realidade americana (2)

Os Estados Unidos estão diferentes. Não sei dizer se para melhor ou pior. Em dois anos, desde minha última visita ao país, alguns aspectos mudaram. Notei desta vez, salvo uma ou outra exceção (por exemplo, a área histórica da Filadélfia, com muitos prédios fechados), que o número de imóveis “for leasing” ou “for rent” aparentemente caiu em relação a 2009. Ao mesmo tempo, cresceu espantosamente o número de pessoas pedindo dinheiro nas ruas. Em todas as cidades – e até no Canadá.

Pedintes eram uma cena inimaginável nos EUA há alguns anos. Já em 2009, quando lá estive, encontrei dois. Desta vez, porém, eram quase dois por quarteirão. Muitos. Em geral, de dois tipos: os “homeless” (ou seja, os sem-casa) e os “veterans” (os que dizem ser veteranos de guerra). Cheguei a ver uma jovem carregando um filho pequeno no colo dizendo ser sem-teto e pedindo ajuda. Cena triste e, repito, raríssima até alguns anos.

Também foi um tanto comum encontrar pessoas dormindo nas ruas -
em Nova York e Toronto (foto) lembro-me bem das cenas (não vou considerar os que encontrei em Nova Orleans porque provavelmente dormiam em razão de bebedeira).


Perguntei a um taxista em Las Vegas como estava a economia. “Ah, melhorou muito nos últimos tempos perto do que estava”, disse. Estranhei, porém, a pouca movimentação na cidade. Quando lá estive, em 1999, via-se uma “muvuca” de dia e à noite. Desta vez, a cidade ficou quase às moscas depois das 22h. Às moscas é um certo exagero, é verdade, mas se tratando de Las Vegas a manifestação faz sentido. Tudo bem que era terça-feira, mas trata-se de uma cidade que existe em função unicamente do entretenimento. Perguntei a um outro taxista e ele justificou dizendo que após um “big weekend” era normal a cidade esvaziar um pouco nos dias seguintes. Sei lá...

Em Atlanta, uma pessoa que nos acompanhava e era um tanto “habitué” por lá observou que o hotel estava vazio desta vez em relação aos últimos anos. Comentou isso com um garçom que a reconheceu de visitas anteriores. “Sim, está vazio, é a crise”, respondeu o funcionário.

Para nós, brasileiros, é um tanto difícil “ver” a crise, principalmente nas grandes cidades, com vocação mais turística. O nível de consumo do país continua muito alto, o estímulo às compras (com promoções e cartões de desconto por todos os lados) é incrível, quase insano. Ainda assim, a crise existe e é forte. “É que o nível de consumo deles há alguns anos era algo fora do comum”, comentou uma brasileira que morou por alguns anos na região de Michigan.

Seja como for, o país está fervilhando às vésperas de uma campanha eleitoral. A esperança Obama de ontem é uma realidade hoje, com realizações e decepções; a divisão entre democratas e republicanos (para simplificar as correntes políticas) segue acentuada. Obama continua sendo “acusado” de comunista pelos opositores, o “presidente mais esquerdista da história”, como vi em algum lugar.

Li no “Metro”, por exemplo, a carta de um leitor de Manville, Nova Jersey. Wayne Sargent criticava os gastos do governo Obama – dizia que foram maiores em três anos do que nos oito anos de George W. Bush. Os alvos? Os programas sociais Medicare e Social Security (Obama reformulou os programas, ampliando o acesso das minorias e, naturalmente, elevando os gastos com o bem-estar social).

No mesmo “Metro”, uma reportagem citava a acusação dos republicanos de que o déficit federal cresceu US$ 530 bilhões em relação a dez anos atrás.

A leitora Kathy Kourian, por sua vez, rebateu as críticas contra o atual presidente alegando que o custo da dívida se deve ao grande corte de impostos visando estimular a economia e às duas guerras (Afeganistão e Iraque) “que não feitos pelo Obama”. Ela manifestou ainda temor em relação ao futuro dos programas sociais caso o democrata deixe o governo.

São visões diferentes de um mesmo país eternamente dividido e que louva sua liberdade e democracia.

Assim seja.

PS: para ler "A nova realidade americana" (1), clique aqui.

domingo, 12 de fevereiro de 2012 | | 0 comentários

A crise da Inter: mais um capítulo

Acompanhei pela rádio Educadora, neste domingo, a cobertura pós-jogo do dérbi limeirense entre Internacional e Independente, válido pela Série A3 do Campeonato Paulista. O jogo terminou 2 a 0 para o Galo da Vila – para tristeza dos leoninos, que jogaram em casa (no Limeirão).

Uma derrota assim, num dérbi, por mais que o futebol limeirense esteja moribundo, mexe com os ânimos. E, naturalmente, o efeito colateral pelos lados da Inter não foram positivos. Atual presidente da equipe, o advogado e empresário Ailton Vicente de Oliveira manifestou à rádio seu descontentamento com as críticas que recebeu da torcida e de alguns conselheiros em razão do resultado da partida.

Ouvi parte da entrevista do dr. Ailton, como é conhecido. Ele reclamou que não tem apoio da prefeitura nem das empresas locais e dos conselheiros. Manifestou a vontade de deixar o cargo caso continue sem apoio (financeiro inclusive e, talvez, principalmente). Por mais de uma vez, destacou que nunca teve apoio algum da administração municipal, ao contrário do Independente.

É um direito do dr. Ailton reclamar da falta de apoio. Só não entendo porque ele, como presidente da equipe, permitiu que se colocasse na entrada do Limeirão, durante os jogos da Copa São Paulo de Juniores, em janeiro último, uma faixa que dizia justamente o contrário do que agora aponta: “Obrigado ao prefeito Silvio Félix pelo apoio”.

A faixa, aliás, foi alvo de comentários de torcedores. “Por que colocaram aquela faixa? Que apoio o prefeito deu?”, comentou um deles, sentado no degrau logo acima do meu, no Limeirão.

Das duas, uma: ou o dr. Ailton sabia da faixa e foi conivente com ela, de modo que sua crítica agora soa estranha, ou não sabia da faixa e permitiu que algum “puxa-saco” do então prefeito a colocasse lá (o que indica um certo desmando).

Em tempo: embora o atual presidente esteja mantendo (até onde se informa) os compromissos da Inter em dia, é preciso registrar que ele apareceu na cidade vindo de São Paulo com o intuito de lucrar investindo no Leão da Paulista.

Não há nada de ilegal nisso. Contudo, não se pode tirar de foco que ninguém foi atrás dele na capital, onde atua como empresário na famosa – e polêmica - feira da madrugada, no Brás. Foi ele que procurou a Inter (até o estatuto do clube foi alterado para que ele pudesse se tornar presidente). Logo, questionar a falta de apoio financeiro me parece injustificável (ou ele desconhecia a real situação financeira da Inter e o custo de se manter uma equipe de futebol quando se apresentou com a intenção de comandar o clube?).

PS: presidente do Conselho Deliberativo da Inter, o jornalista e empresário Wagner Barbosa tentou colocar panos quentes nas declarações do dr. Ailton. Disse à Educadora que o conselho não aceitaria um pedido de renúncia do atual presidente e que as críticas a ele são injustas.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 | | 0 comentários

Notícias pelo mundo

Ontem pela manhã, tirei algumas horas para ler jornais. “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “Diário de Notícias” e “Expresso” (ambos de Portugal), “Wall Street Journal” e “The New York Times” (ambos dos EUA).

A leitura de jornais nos dá um interessante panorama da situação mundial. Por exemplo: enquanto no Brasil se noticiava o recorde na venda de automóveis e comerciais leves em 2011 (com 3,426 milhões de unidades, alta de 2,89% sobre o desempenho de 2010), em Portugal “foram vendidos 153.433 veículos ligeiros de passageiros”, informou o “Diário de Notícias”, queda de 31,3% ante 2010, de acordo com a Associação Automóvel de Portugal (ACAP).

É o retrato acabado da crise que atinge a zona do euro (exceção à Alemanha) e da bonança dos países emergentes.

Nos jornais norte-americanos, o destaque era o início da corrida pela Casa Branca, com o caucus em Iowa, o primeiro passo para definir o adversário republicano do presidente Barack Obama na disputa de novembro.

Para o “NYT”, mais do que indicar quem venceria a primeira das 50 prévias pelos estados, o caucus de Iowa seria importante para definir o rumo das próximas votações – a primeira delas já marcada para a próxima terça-feira, em New Hampshire.

E, de fato, o primeiro caucus já produziu seus efeitos. Pelo menos três merecem destaque: 1) a confirmação da liderança do ex-governador Mitt Romney; 2) o surpreendente desempenho do ex-senador Rick Santorus (ficou a apenas oito votos de Romney); 3) e a desistência da deputada Michele Bachmann (em último na votação).

Mais sobre a eleição nos EUA aqui.

quarta-feira, 6 de abril de 2011 | | 0 comentários

Saga lusitana

A crise chegou com tudo a Portugal. A antiga metrópole pede socorro. À antiga colônia, o Brasil. Ao mundo. Deixando de lado as agruras econômicas do povo, a situação não deixa de ser curiosa. Talvez este início de século 21 seja apenas a concretização de um processo iniciado 200 anos antes, com a transferência da família real de Lisboa para o Rio de Janeiro. Naquele momento, a então metrópole começava a perder importância política - a econômica já vinha sendo arranhada desde séculos antes.

Não vou discorrer aqui sobre a história de Portugal e do Brasil. Para saber mais sobre este processo, sobre o momento crucial em que a historia dos dois países se uniu e o destino de ambos mudou para sempre, recomendo a leitura dos dois livros do jornalista Laurentino Gomes, "1808" e "1822".

Quero falar do século 21. Notícias recentes vindas da corte, ou melhor, de Portugal, revelam uma situação dramática. Greves, desemprego altíssimo, renda em queda, déficit nas contas do país, falta de dinheiro. Fala-se abertamente, ainda que em tom de ironia, na anexação da antiga metrópole pelo Brasil. Obviamente, esta possibilidade não foi sequer cogitada nos círculos diplomáticos durante a recente visita da presidente Dilma Rousseff a Portugal, mas as vozes são ouvidas aqui e ali, nas ruas e nas páginas dos jornais.

Para a alma e o orgulho portugueses, trata-se de uma desfaçatez, uma desonra - como fora em 1807 a partida da corte para o Brasil fugindo das tropas de Napoleão. A verdade é que os portugueses nunca digeriram aquele episódio. Para muitos, dom João 6° não passa de um covarde traidor. Não é à toa que houve uma reação muito forte, quase um golpe de estado, exigindo a volta do rei para Portugal (de novo recomendo "1822").

O fato é que a decisão de dom João 6° - genial ou humilhante, conforme o ponto de vista - antecipou na então colônia um processo que viria mais dia, menos dia. Desde o início, em que pese a colonização predatória instalada pelos portugueses, o Brasil estava fadado a ser grande. E isto incomodou os portugueses.

Hoje, 200 anos depois, esse sentimento ainda é muito presente. Nas três vezes em que estive em Portugal, entre 2005 e 2007, presenciei várias manifestações de orgulho português. Um orgulho exacerbado porque, na realidade, contido. Desde 1808, quando a família real aqui aportou, a influência de Brasil sobre Portugal só cresceu. Em todas as áreas, da economia à cultura, passando pelo esporte.

Nos tempos modernos, isso se vê em vários momentos. Primeiro foi a invasão de dentistas brasileiros - ouvi alguém dizer que foram mais de 20 mil. Depois, a dos jogadores de futebol, que dominam os gramados lusos (a seleção nacional tem três brasileiros naturalizados, sem contar o técnico Luiz Felipe Scolari, que comandou o time durante anos). As prostitutas brasileiras também ocuparam seu espaço - o que faz, alias, muitos portugueses destratarem as mulheres do Brasil, conhecidas pelo "rebolado".

Até a língua pátria, quem diria, começou a mudar. Por influência das nossas telenovelas, sucessos em Portugal. Nossas gírias aos poucos começaram a ser incorporadas pelos jovens portugueses, para desgosto dos mais conservadores. E quando a dominação passa a ser cultural, como a dos EUA, a situação tende a se acentuar. Algo que os portugueses não querem aceitar.

Tudo isso, um processo histórico secular acentuado pela crise financeira atual, atinge diretamente a alma portuguesa (algo bem analisado pelo jornalista João Pereira Coutinho no artigo indicado abaixo).

Embora distantes geograficamente, portugueses e argentinos compartilham algo em comum: a melancolia típica de quem pretende ser novamente algo que um dia foi. Daí para uma certa soberba é um passo – e não é difícil encontrar argentinos e portugueses topetudos. Eles gostam de exaltar as glórias passadas (e ninguém mais vive do passado do que os portugueses, cuja alma ainda espera o retorno do rei dom Sebastião, e os argentinos, que vivem eternamente o legado de Eva e Perón). Consideram melhor tudo o que é local. Proclamam-se desenvolvidos e superiores. Ainda que inúmeras dificuldades batam à porta.

Ah, um último detalhe a uni-los: a soberba de um e outro está diretamente ligada ao crescimento do Brasil.

***

Para saber mais sobre a crise de Portugal, recomendo os artigos a seguir:

* Calote é a saída para Portugal – Clóvis Rossi

* Incerteza portuguesa – Vaguinaldo Marinheiro

* Sem governo e sem dinheiro, a festa acabou no país que vive das aparências – João Pereira Coutinho

quinta-feira, 25 de novembro de 2010 | | 0 comentários

Ventos que sopram da Europa

Quarta-feira (24/11) foi a greve geral em Portugal, um protesto dos trabalhadores – organizado pelas duas maiores centrais sindicais do país – contra medidas de austeridade fiscal anunciadas pelo governo para 2011: aumento do IVA (o imposto sobre valor agregado, algo como o ICMS no Brasil) em dois pontos percentuais, redução dos salários em média de 5% e redução das pensões, entre outras.

No dia seguinte (25/11), foi a vez dos estudantes ocuparem o Coliseu, em Roma, e a famosa torre da catedral de Pisa protestando contra uma reforma do Ministério da Educação que inclui cortes de verbas do setor.

Recentemente, a França foi agitada por paralisações e protestos contra o aumento – de 60 para 62 anos - da idade mínima para se aposentar.

São os ventos que sacodem a Europa desde que a crise financeira mundial estourou, em outubro de 2008. A ferida do que muitos consideram gastança e outros chamam de estado de bem-estar social foi aberta. Uma bolha que estouraria em algum momento. A Grécia já quebrou. A Irlanda ruma para isso (ambas recorreram ao dinheiro da União Europeia). Especialistas afirmam que Portugal, Espanha e Itália seguem de modo acelerado no mesmo caminho.

Diante deste cenário, duas palavras têm dominado o noticiário nos principais jornais europeus: crise e reforma. Não se fala em outra coisa, não se discute outro assunto, embora muitas vezes com posições diversas – não raramente divergentes. É preciso reformar o Estado, as finanças públicas não se sustentam diante do atual nível de gastos, pregam quase em uníssono.

Isso implica mexer em algo caro para os europeus, o gasto social. Implica também melhorar a eficiência dos gastos públicos, atacar a corrupção, estabelecer freios para o mercado (principalmente o sistema financeiro) e por fim a benesses populistas.

Na Itália, o “la Repubblica” de 19/10 informava sobre um decreto do governo prevendo que a Igreja volte a pagar impostos. Em busca de votos num país tradicionalmente católico, isenções foram concedidas em dezembro de 2005 pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi com vistas às eleições da primavera seguinte. Cerca de um bilhão de euros.

Agora a conta chegou.

Pelo que entendi, a Igreja aceitou uma espécie de acordo de cavalheiros para voltar a pagar tributos a partir de 2014. Funcionará assim: escolas, hospitais, clubes, etc, da Igreja vão pagar os mesmos impostos que qualquer outro empreendimento privado semelhante. Ou seja: a volta de uma concorrência leal.

No “24 Ore” de 31/10 (a mesma edição em que a então candidata – hoje presidente eleita – Dilma Rousseff foi chamada de “alterego feminino do presidente Lula”), vejo a entrevista de uma líder da oposição italiana cobrando reformas drásticas por parte do governo. E urgentes.

Uma brasileira que vive na Itália há anos contou que muitas empresas estão oferecendo dinheiro para que os trabalhadores estrangeiros voltem para seus países de origem. “Aqui já foi bom, o bom agora é o Brasil”, disse, enquanto esperava o trem na estação central de Milão e contava os dias para as férias no Brasil (ela embarcaria dali três dias).

Faz sentido.


Enquanto por lá o desemprego bate na casa de 20% em muitos lugares, como a Espanha, no Brasil ele atingiu o menor índice desde que a série histórica de registros começou, em março de 2002: 6,1% nas seis principais regiões metropolitanas, apontou nesta quinta-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para tomar o exemplo espanhol, quando um em cada cinco trabalhadores está sem uma ocupação formal – e vê ameaçados os benefícios sociais de que os desempregados desfrutam -, as reações são previsíveis. Quando não se vislumbra uma luz no túnel, a situação tende a piorar. Daí ao perigo da volta de um cenário sombrio de 70 anos atrás é um passo.

Sinais nesse sentido já são vistos com certa frequência na Europa. São os efeitos colaterais que surgiram com a crise. A ultradireita avança e conquista espaço em vários países, informou o “Corriere della Sera” em matéria de uma página. Crescem também as manifestações de xenofobia (a França expulsou os ciganos).

Crescem também as ondas separatistas e as respectivas reações contrárias (de resistência), como vi em duas pichações em Pisa.

Não se sabe se reformas serão suficientes para salvar o euro e, de resto, a União Europeia. Se salvarem, não se sabe se a sociedade sobreviverá (no sentido figurado) a uma anunciada convulsão social decorrente das medidas.

Nunca, portanto, Sócrates esteve tão em voga com seu “Só sei que nada sei” (citado por Platão em “Apologia de Sócrates”, já que o filósofo de quem foi discípulo não deixou escritos).