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sábado, 20 de agosto de 2016 | | 0 comentários

Memorial da Resistência

Na exposição temporária, a história do prédio de 1914 criado como armazém e escritório da antiga estrada de ferro sorocabana e que sediou a partir de 1940 o temido Dops. Um lugar marcado pelo sangue de muitos brasileiros, como cita a placa. 


No vídeo, a trajetória de um dos principais órgãos de polícia política do país, criado em 1924 e extinto no fim do regime militar. “Ele foi inaugurado em 2002 como Memorial da Liberdade, mas como não havia atividades educativas e culturais, mais ou menos em 2006, 2007 os ex-presos políticos solicitaram ao governo do Estado que o lugar fosse melhor aproveitado em termos educativos e culturais. Nós queríamos, de fato, trabalhar neste lugar de memória um conceito de resistência, porque ela não pode ficar só lá no passado, é uma coisa atual e que deve continuar no futuro. Neste lugar as pessoas podem tomar conhecimento de fatos que aconteceram no Brasil recente, então ela pode se educar para cidadania, para valorização dos princípios democráticos, do respeito aos direitos humanos”, diz Katia Regina Neves, coordenadora do memorial.

Em uma sala, uma linha do tempo histórica mostra casos de repressão e resistência desde a proclamação da República, em 1889. Episódios que nem a redemocratização do país impediu, como o assassianto do líder seringueiro Chico Mendes em 1988, as chacinas do Carandiru, em 92, da Candelária e de Vigário Geral em 93 e o massacre de Eldorado dos Carajás em 96.

O ponto alto da visita são as celas que abrigaram presos políticos. Uma delas reproduz o ambiente na época da ditadura. Os rabiscos na parede são atuais, um grito silencioso de quem sobreviveu. Nas celas, o som da abertura da porta indicava o destino de cada um. 





As máscaras representam 436 desaparecidos políticos. “Muitas continuam desaparecidas até hoje. E outras morreram em consequência da tortura." Aqui, como diz o painel, lembrar é resistir. 


“Isso é tão impressionante porque eu acho que as pessoas , quando elas visitam o memorial, conseguem entender isso, se a gente olhar, por exemplo, no livro de visitas que as pessoas deixam comentários, falam assim: ‘as pessoas falam que deveria voltar a ditadura porque não conheceram este lugar, eles não falariam um absurdo desses’. É impossível uma pessoa sair de um lugar como este, se ela tiver disponibilidade para aprender, e para perceber o que é você viver numa ditadura, etc, que ela não se eduque para ser um cidadão de fato, que exija seus direitos, mas também que respeite o direito dos outros”, fala Katia.
 
 

O Memoria da Resistência fica no largo General Osório, 66, junto da Estação Pinacoteca. A entrada é grátis. 
* Texto de reportagem feita para o programa “Ordem do Dia” (TV Cultura, sex. 23h30, sáb. 8h30)

quarta-feira, 29 de abril de 2015 | | 0 comentários

Ditadura nunca mais - um relato para não esquecer

(...) “Fui várias vezes espancada e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios", contou. "Um dos mais brutais torturadores arrastou-me pelo chão, segurando pelos cabelos. Depois tentou estrangular-me e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e me deram pancadas na cabeça”. 

“Fui estuprada duas vezes por Camarão [codinome de um militar] e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades os mais grosseiros”. (...)

Os relatos acima são de Inês Etienne Romeu, ex-presa política que morreu recentemente. Foram citados na coluna de Bernardo Mello Franco na “Folha de S. Paulo” do último dia 28 – cuja leitura recomendo, principalmente para aqueles que, de modo inconsequente, pregam por aí a volta dos militares. 

domingo, 13 de abril de 2014 | | 0 comentários

"No"

Belíssima história, inspirada em fatos reais, sobre a luta da sociedade pela democracia no Chile:

sexta-feira, 4 de abril de 2014 | | 0 comentários

"Pátria Armada" (5)

quinta-feira, 3 de abril de 2014 | | 0 comentários

Direto do toca-CD (47)

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

(“Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil)

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"Pátria Armada" (4)

quarta-feira, 2 de abril de 2014 | | 0 comentários

“Pra não dizer que não falei das flores”

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

(De Geraldo Vandré)

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"Pátria Armada" (3)

terça-feira, 1 de abril de 2014 | | 0 comentários

Direto do toca-CD (46)

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar

(“Angélica”, de Chico Buarque)

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"Pátria Armada" (2)

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"As entranhas expostas do golpe"

- Presidente, nós defendemos que o pedido de estado de sítio seja retirado. Vai suprimir as garantias constitucionais e fortalecer a direita. Vai acabar se voltando contra o povo, contra seu governo e contra o senhor mesmo.

- Olha, jovem, tu não precisas te preocupar, porque, antes de vir aqui, já tomei providências para retirar. Não deixem essa notícia circular, pois vou anunciar depois de amanhã. Acho bom vocês continuarem falando contra daqui até lá. Direi que atendi a seu pedido. Mas o estado de sítio não era para agredir vocês, não era contra o povo, não. Ao contrário. Eu sei das dificuldades que tenho"¦ Agora vou lhes dizer uma coisa: eu não vou terminar este mandato, não. Não chegarei até o fim.

O presidente era João Goulart, e o jovem, eu mesmo, numa tarde de domingo, 6 de outubro de 1963, no apartamento de um familiar de Jango, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Estavam lá uns seis ou sete dirigentes da Frente de Mobilização Popular (FMP). (...)

Fonte: José Serra, “Folha de S. Paulo”, Ilustríssima, 16/3/14, p; 4-7 (íntegra aqui).

segunda-feira, 31 de março de 2014 | | 0 comentários

"Pátria Armada" (1)

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Frase

“E será então um triunfo direitista que atrasará por vinte anos o progresso do Brasil.”
Alceu Amoroso Lima, pensador católico, em carta para a filha

quarta-feira, 25 de setembro de 2013 | | 0 comentários

Tortura nunca mais: novo capítulo

Uma confusão marcou a visita de parlamentares da Comissão da Verdade da Câmara Federal ao prédio que abrigou o DOI-Codi, no Rio de Janeiro, onde hoje funciona o 1 Batalhão de Polícia do Exército. O edifício é apontado como o principal centro de tortura da ditadura militar brasileira (1964-85).

A confusão foi causada pelo deputado federal e oficial da reserva, Jair Bolsonaro (PP-RJ).

Bolsonaro é uma das "viúvas" da ditadura e defende a classe. Suas opiniões a respeito deste e outros assuntos revelam o que há de mais conservador e retrógrado na sociedade brasileira. Em alguns casos, beiram o crime.

Reconheço que Bolsonaro - como seus votos indicam - representa uma parcela da sociedade. É legítimo o direito dele de se manifestar, seja como parlamentar ou cidadão.

Já agressão física (ainda que tenha sido um mero empurrão, como o próprio deputado reconheceu) é inaceitável. Revela truculência típica de quem defende práticas da ditadura. Tratando-se de um parlamentar (ainda mais agindo contra um senador da República), é caso de falta de decoro. 

A dúvida é se a Câmara Federal terá coragem de colocar o dedo nesta ferida.

***

Bolsonaro à parte, dois aspectos muito mais relevantes chamam a atenção no fato. O primeiro deles é a incapacidade do Brasil como sociedade e governo de lidar com sua própria história. 

Países vizinhos, como o Chile e a Argentina, e distantes, como a Alemanha, tratam de suas ditaduras e as atrocidades por elas cometidas de forma muito mais direta e transparente. Entendem que é preciso lembrar para não repetir. Sabem que nenhum povo poderá avançar sem conhecer sua trajetória. Falam do passado para virar a página e escrever uma nova história.

Na Argentina, por exemplo, ex-oficiais e colaboradores do regime (inclusive os que ocuparam cargos de alto comando na esfera militar e no Executivo, como presidente da República) foram colocados no banco dos réus e condenados pelas práticas nefastas ocorridas naqueles tempos sombrios. No Brasil mal se pode tocar no assunto - e estamos em pleno século 21!

O segundo aspecto, tão preocupante quando o primeiro, é a reação ensandecida (e em muitos casos ignorante) de parte da sociedade, manifestada por comentários na Internet. Apenas como exemplo retirei algumas mensagens postadas junto da reportagem do UOL sobre a confusão no antigo DOI-Codi:

"Tem que apanhar mesmo. Pelo menos para aprender a falar como homem. Esse bando de aproveitadores da comissão da mentira tem que entrar na peia para saber o que é ditadura mesmo e não a ditabranda dos militares."
(Louroferreira)

"temos uma lei de anistia - AMPLA, GERAL E IRRESTRITA! pq comissão da verdade para os militares e não para os terroristas comunistas que nunca, nunca lutaram pela democracia ou pelas liberdades democráticas no Brasil! (...) Pena que o DOI CODI não trabalhou melhor. Iríamos ter menos dor de cabeça hoje!"
(Francisco Jose Rabello)

"O Brasil na época dos militares era mil vezes melhor. Que sirva para eles de lição, da próxima vez que voltarem ao poder, não deixarem escapar nínguém, para não haver tempos depois comissões do tipo desta de meia verdade."
(Alberon Santista)

"Total apoio!!!!!!!!!!!!!! Antes tivessem feito o que o ditador Pinochet fez no Chile, fazendo sumir 20.000. Hoje o Chile é o país mais desenvolvido da América Central e Sul..."
(ivan de Bauru)

"Como não poderia ser diferente, mais dinheiro público indo pro ralo. Até quando estes revanchistas vão tentar inventar mortos e torturados para ganhar às custas do povo brasileiro? Por que nunca consultaram os brasileiros comuns que viveram durante o "regime" para verificar se eles tem queixas contra os militares? Por que não investigam as atrocidades cometidas pelos comuno-socialistas? na verdade, não adianta investigar, já que todos estão aí, dilapidando o patrimônio público e cobertos pelo $TF. Acorda Brasil! 
(Schneiderus)

"Sou contra qualquer tipo de limite à liberdade da vida. Mas era estudante universitário nessa época, pagava o meu curso, trabalhava de dia a estudava a noite. Nunca fui impedido de ir a aula. Não apanhei nem fui preso. Sou democrata, contra qualquer regime de ditadura, daí o comunismo, porque não conheço nenhum país comunista que não seja ditadura no seu regime. Se alguém fez alguma coisa para que meu País não tivesse caido nas garra de um comunista eu agrdeço e torço por ele."
(leão falante)

Três observações necessárias: 

1 - todas estas pessoas esquecem que se hoje elas podem manifestar-se livremente é justamente porque a ditadura ficou para trás. Naquela época o cidadão não tinha direito à livre manifestação do pensamento. 

2 - naturalmente, houve abusos do "outro lado", como citam, não se nega isto. O que está em questão, porém, é o recurso a práticas ilegais e arbitrárias por parte do Estado brasileiro na época.

3 - o fato do Brasil ter hoje uma série de problemas e desafios a enfrentar, como corrupção e insegurança, jamais deve servir de pretexto para louvar qualquer tipo de ditadura. Como diz o ditado, não se deve confundir alhos com bugalhos.

PS: os comentários foram reproduzidos tal como aparecem na Internet, com eventuais erros de ortografia e gramática.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013 | | 0 comentários

Para não se esquecer

Ainda havia filetes de sangue nas águas rasas do Mapocho, o riozinho que corta Santiago, quando cheguei ao Chile para cobrir o golpe que derrubou o presidente constitucional Salvador Allende Gossens.

Era 21 de setembro de 1973, porque, nos dez dias desde que foi dado o golpe, o Chile ficara fechado por terra, mar e ar para que os militares pudessem provocar o derramamento de sangue que manchou o Mapocho e espalhou-se por todo o Chile, "desde el salar, ardiente y mineral/al bosque austral", como diz a canção "El pueblo unido jamás será vencido" que o grupo folclórico Quilapayún cantava nos tempos em que o sangue ainda não corria.

Deu tempo também de ver ao vivo o que se tornaria uma foto que ficou famosa no mundo inteiro: a queima de livros que trazia à memória o nazismo alemão.

Via-se então que não apenas o passo de ganso característico dos militares chilenos os aproximava de seus congêneres de outros tempos na Alemanha.

Tornou-se obrigatório deixar um pouco de lado o profissionalismo para oferecer-me como muleta (inútil, logo se veria) a pais de brasileiros exilados no Chile e desaparecidos desde o golpe.

Acompanhava-os ao Estádio Nacional, transformado em campo de concentração e morte, no que acabava sendo uma tortura adicional à falta de notícias sobre os filhos.

Ninguém dava informações à porta do estádio e, na falta delas, os parentes dos presos trocavam os piores presságios e contavam as mais horríveis histórias, que, ao longo dos anos, acabaram se provando verdadeiras, terrivelmente verdadeiras.

Dizia-se, por exemplo, que o cantor e compositor Victor Jara, que era adepto declarado da Unidade Popular, a coligação que o golpe apeou do poder, tivera os dedos quebrados durante a tortura no estádio, para que nunca mais tocasse as canções que embalavam os sonhos da esquerda no poder.

Jara não morreu no Estádio Nacional de Santiago, mas foi torturado até a morte no Estádio Chile, outro campo de concentração.

É fácil para qualquer ser humano com um dedo de sensibilidade sentir o pavor de pais que, primeiro, haviam perdido seus filhos para o exílio, depois do golpe no Brasil, e agora viam fugir a perspectiva de revê-los ainda que massacrados, mas pelo menos vivos.

Havia toque de recolher, primeiro a partir das 18h. Depois, das 20h. Eu me hospedara no então Hotel Carrera Sheraton, atrás do Palácio de la Moneda em que Allende se matou.

As noites eram intermináveis, trancado no quarto.

Olhava pela janela, via os sinais do ataque da Força Aérea ao palácio, uma sombra na praça vazia.

Ninguém na rua.

O semáforo, no entanto, continuava mudando do verde para o amarelo, para o vermelho, para ninguém, salvo um ou outro veículo militar, enquanto ao longe se ouvia o "ratatá" das metralhadoras, porque, dia após dia, noite após noite, "están matando chilenos/ay que haremos/ay que haremos", como cantavam os Quilapayún.

Ninguém no Chile os ouvia.

Fonte: Clóvis Rossi, “Sangue ainda escorria quando cheguei para a cobertura do golpe contra Allende”, Folha de S. Paulo, Mundo, 11/9/13.

PS: postei o texto na íntegra como lembrança do golpe militar e da posterior sangrenta ditadura de Pinochet no Chile. O golpe faz nesta quarta-feira 40 anos. É uma forma de fazer com que o terror comum a toda ditadura não seja jamais esquecido para que nunca se repita.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013 | | 0 comentários

O exemplo de "O Globo"

Diante dos gritos "A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura!", que se ouvem nos protestos de rua, a reação esperada de um grande órgão de imprensa seria: 1) ignorar a provocação; 2) desmenti-la; 3) tentar justificar-se.

No domingo passado, as Organizações Globo surpreenderam ao não fazerem nada disso. O jornal "O Globo" publicou um editorial no qual reconhece que o apoio dado ao golpe militar de 1964 foi um erro.

"De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura", admite o jornal. O editorial cita o contexto da época - Guerra Fria, radicalização do governo João Goulart e a promessa dos militares de que seria uma "intervenção passageira" - para justificar o apoio dado ao golpe, chamado por muito tempo de "revolução".

O "Globo" fez questão de sublinhar que, ao concordar com a intervenção militar, estava "ao lado de outros grandes jornais, como 'O Estado de S. Paulo', ‘Folha’, 'Jornal do Brasil' e o 'Correio da Manhã'". De fato, dos grandes periódicos, só a "Última Hora", de Samuel Wainer, ficou ao lado de João Goulart.

Só que o "Globo" deu apoio à ditadura praticamente até o fim, o que o jornal admite, embora ressalve que "sempre cobrou (...) o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática".

(...) É a primeira vez que se vê tamanho ato de contrição na imprensa brasileira. Trata-se do principal conglomerado de mídia assumindo um erro editorial - não de informação - sobre um momento decisivo da história recente do país.

(...) Não importa tanto se há interesses outros nessa autocrítica, feita às vésperas dos 50 anos do golpe, ou se havia muito mais para ser dito. O principal é perceber que se está dando uma satisfação ao público, que hoje, graças às redes sociais, tem uma capacidade inédita de expressão - e de pressão.

É um primeiro passo no longo caminho para a transparência, que passa pelo respeito ao "outro lado", pela obsessão com o equilíbrio, pelo reconhecimento rápido dos erros cometidos e por canais que permitam uma crítica constante.

Quem sabe "o futuro já começou", como diz o slogan de fim de ano da emissora.

Fonte: Suzana Singer, “Fantasmas do passado”, Folha de S. Paulo, 8/9/13.

domingo, 11 de agosto de 2013 | | 0 comentários

PCB buscou agir em Limeira na ditadura; limeirense foi preso

Parte dos arquivos dos porões da ditadura brasileira (1964-1985) foi aberta ao acesso de toda a população na última sexta-feira na Internet. Trata-se de uma iniciativa do projeto “Brasil Nunca Mais”. Um site foi lançado reunindo 900 mil páginas digitalizadas de 710 processos envolvendo a repressão militar. Do Estado de São Paulo, são 171 processos do período entre 1963 e 78.

O arquivo tem algumas menções a Limeira. Uma delas é a cassação por motivos políticos do então deputado estadual e futuro prefeito da cidade, Jurandyr Paixão de Campos Freire. A cassação foi publicada no Diário Oficial de 30 de abril de 1969.

Há ainda menções a uma passeata de trabalhadores sem-terra de Limeira a São Paulo em abril de 1988 e à organização do movimento sindical, principalmente metalúrgicos e bancários.

Os arquivos revelam que Limeira foi meta de ação da esquerda na ditadura por meio de membros do PCB, o Partido Comunista Brasileiro. O blog descobriu também a ação direta de pelo menos um limeirense no movimento estudantil que combatia a ditadura: Walter Aparecido Cover. O arquivo traz ainda menção a um outro nome conhecido na cidade: o médico e ex-deputado federal Heitor Franco de Oliveira.

O PARTIDO E OS SIMPATIZANTES
Numa denúncia contra Nelson Polastro, então com 60 anos, preso em 28 de outubro de 1975 acusado de ser um arrecadador do PCB em Campinas, consta que ele, “a mando de Bernardino (Antonio Bernardino dos Santos), por intermédio de Romeu Sturaro, fêz contato com ‘Nascimento’ e ‘Dárcio’, da cidade de Limeira, buscando organizar o PCB nessa cidade e obter contribuições”.

No processo, Polastro relata ter sofrido tortura na sede do DOI (Destacamento de Operações de Informações), órgão de repressão da ditadura ligado ao Exército.

Num outro processo, consta que o engenheiro pernambucano Diógenes de Arruda Câmara, ex-secretário-geral do PCB na Bahia, “em 1948, juntamente com José Alves, digo, Alvaro Coccino esteve em Campinas, Vila Americana e Limeira angariando donativos para o jornal ‘Hoje’”.

Já num auto de qualificação e interrogatório do advogado Marco Antonio Moro, então com 33 anos, datado de 29 de abril de 1970 e conduzido pelo delegado-adjunto Edsel Magnotti, da Delegacia Especializada de Ordem Social, consta que: “nessa época (1967) o PCB vinha sofrendo sérias divergências entre Luiz Carlos Prestes e Carlos Mariguela, mas ainda não haviam se separado; que, no escritório ‘Ricardo’ conversou pessoalmente e a sós com o interrogando (Moro), uma vez que seu acompanhante se retirou; que, em seguida ‘Ricardo’ pediu ajuda financeira, o que foi recusado uma vez que o interrogando se encontrava em dificuldades financeiras, tendo êste indicado outro elemento simpatizante do PCB que talvez pudesse auxiliar o Partido, indicando à ‘Ricardo’ o Dr. Tebaldi de Americana; que, conheceu o Dr. Tebaldi por ocasião da eleição de 1955 (ou 65), quando este foi candidato, cujo conhecimento deu-se através de um médico primo do interrogando, residente em Limeira de nome Heitor Franco de Oliveira (...)”.

No mesmo processo consta uma declaração assinada pelo dr. Heitor, então diretor clínico da Sociedade Operária Humanitária, e por Luiz Carlos Tank, então assistente da diretoria, atestando que Waldemar Tebaldi (futuro prefeito de Americana) trabalhou no local de 10 de maio a 31 de outubro de 1965, tendo conduta ilibada.

Num outro caso, há uma declaração de 29 de junho de 1971 assinada pelo ex-prefeito de Limeira, Palmyro Paulo Veronesi D´Andréa, atestando a idoneidade do professor Rubens Murilo Marques, da então Faculdade de Engenharia de Limeira, da Unicamp: “Nestes dois anos que tive a oportunidade de conviver com o referido Professor, não observei nenhum comportamento desairoso quer no terreno moral, quer no terreno político, portando-se sempre dentro de uma conduta exemplar quer como professor quer como pessoa ciente de suas obrigações”.

FOFOCAS – “THE MAN”
A juntada num dos processos de um fac-símile do “Jornal do Clube de Classe”, ano 3, número 12, de abril de 1975, traz uma menção curiosa a Limeira. Na seção “Fofocas” (página 4), consta algo enigmático: “Este ano vai ser o ano dos acontecimentos pois já nesse comecinho eventos incriveis e inacreditáveis estão acontecendo: (...) The man from Limeira City emagrecendo (Paixão?)”.

Na página seguinte, uma outra citação: “The man from Limeira neste último sábado entrou em má situação: Teve que trazer sua “Irmanzinha” Americana para São Paulo porque ia ficar noivo da filhinha do Prfeito de sua Terra Orange Natal. Se a outra ficasse lá aconteceriam cenas copiosas de ciumes, e como ele não gosta de escândalos...”

Pelo histórico das “fofocas” e notícias, o “Jornal do Clube de Classe” envolvia estudantes de Medicina.

PRISÃO
O caso mais significativo envolve as ações de um limeirense pelo Estado. Walter Cover, então com 23 anos, filho de Antonio Cover e Josepha Hebling Cover foi indiciado em 13 de agosto de 1968 em Botucatu (SP) junto com outros seis estudantes.

Segundo o registro da ocorrência, a “pacífica e ordeira cidade de Botucatu foi tomada, repentinamente, de sobressaltos frequentes desde que um grupo atuante de acadêmicos da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas desta cidade, instigado e levado à agitação e a subversão da ordem pública por indivíduos inescrupulosos, portadores de idéias avessas à formação cristã e moral de nosso povo, a serviço do credo vermelho, passou a promover nêste município e região, passeatas, comícios, reuniões, assembleias, acampamentos, nas ruas e praças desta urbe (...)”.

Do Fichário de Ordem Social, um documento de 29 de novembro de 1968 classifica Cover como “elemento agitador ou subversivo”. Líder estudantil, ele havia sido autuado e preso em 15 (ou 16) de outubro de 1968 acusado de crime contra a segurança nacional.

Num outro documento, de 25 de novembro de 1968, assinado pelo chefe substituto do Arquivo Geral Dops, Laerth Mihich Marcondes Machado, Cover aparece junto de outras cinco pessoas indiciadas em razão do chamado “Caso Ibiúna”. Entre elas está Franklin de Souza (Sousa) Martins, que viria a ser ministro da Secretaria de Comunicação Social no segundo governo Lula (2007-2012) e um dos mentores do sequestro do embaixador norte-americano, Charles Elbrick, em setembro de 1969.

O caso em questão envolve a prisão por membros da ditadura de cerca de 700 pessoas durante o 30° Congresso - feito clandestinamente - da UNE (União Nacional dos Estudantes), em outubro de 1968, na cidade de Ibiúna (SP).

O TORTURADOR
O site do projeto ainda permite acesso a outros bancos de dado sobre o tema. Há referências a Limeira envolvendo os sem-terra (como a invasão da Fazenda Colorado) e o movimento sindical. Sobre a ditadura, existe a citação de um nome (coincidentemente igual ao que já tinha aparecido neste blog, mas com sobrenome distinto): Lazinho.

“António Lazaro Constanzia, vulgo ‘Lazinho’, investigador de Policia, torturador lotado no DOPS/S. Paulo em 1969, componente da equipe do delegado Firminiano Pacheco, ambos pertencentes ao bando ‘Esquadrão da Morte’ paulista. Hoje atua no interior de S. Paulo, onde já esteve envolvido em vários casos de tortura, de grande repercussão, notadamente nas cidades de Piracicaba e Limeira.”

Lazinho aparece na lista de torturadores do regime militar em vários outros sites.

* Todos os trechos dos processos aparecem com texto tal como no original, daí eventuais erros de ortografia.

sábado, 18 de maio de 2013 | | 0 comentários

O medo das ditaduras

Jorge Rafael Videla, o maior símbolo da ditadura argentina do período 1976/83, morreu onde devia mesmo morrer: na cadeia.

Não é o caso de fazer um balanço do que foi esse terrível período da história argentina, prenhe, aliás, de períodos terríveis.

Só vou falar do medo, o medo tremendo que ditaduras injetam no corpo e na alma até de quem, como eu, nem argentino sou.

Medo que começou quando a sucursal da Folha em Brasília iniciou as gestões junto à embaixada argentina para que eu obtivesse o visto de residência, já que havia sido designado correspondente do jornal em "mi Buenos Aires querido".

Era 1980, Videla era o presidente de turno da ditadura. A informação inicial foi a de que não me dariam o visto porque eu não era jornalista, "era militante".

Não era exatamente mentira. Nunca militei em partido algum, mas militava, sim, como voluntário em defesa dos direitos humanos, sob o generoso guarda-chuva da Arquidiocese de São Paulo, então comandada por dom Paulo Evaristo Arns.

Ser carimbado como militante pela ditadura argentina equivalia quase a uma sentença de morte. Por isso, hesitei a princípio em assumir o posto, ainda mais pelo risco a que exporia a família.

Mas acabei indo, torcendo para que o fato de ser correspondente funcionasse como um habeas corpus preventivo, embora precário.

Funcionou em termos. Até que, um dado dia, apresenta-se em meu apartamento Eduardo Pereyra Rossi (sem parentesco), um dos sete "comandantes", como os Montoneros, o grupo peronista dedicado à luta armada, chamava seus principais líderes.

Era um dos sete homens mais procurados pela máquina de matar dos militares. Eduardo me fora apresentado em São Paulo, durante as férias, por um amigo comum.

Conversamos um bom tempo. Ao despedir-se, me pediu que eu observasse da sacada até que ele dobrasse a esquina. Se fosse preso antes, que eu fizesse a denúncia.

Eduardo, naquele dia, dobrou a esquina, mas uns dez dias depois, foi morto em um suposto "enfrentamiento".

Aí, começaram os problemas mais sérios. Primeiro, um roubo no apartamento, quando estávamos todos fora, em que levaram notas de US$ 50 e US$ 100, mas deixaram as de US$ 10. Você conhece ladrão comum que deixa notas de dólar encontradas na mesma gaveta em que estavam as roubadas?

O objetivo era deixar a mensagem de que eu estava sendo vigiado e podiam fazer o que quisessem. Após outro episódio similar, chamamos a polícia, que, porém, não procurou impressões digitais nas portas, alegando que em portas de madeira não ficam impressões digitais.

Depois, começou o seguimento na rua. Notei que um baixinho gordinho aparecia frequentemente em locais a que eu ia. Um dado dia, apareceu na porta da galeria em que ficava a lavanderia a que eu levava a roupa (a família estava de férias no Brasil).

Depois, reapareceu na estação do metrô perto de casa, e desceu na mesma estação que eu. Eu havia marcado encontro com um advogado (comunista) da Liga dos Direitos do Homem, num café da praça Lavalle, no centro.

Entrei no café, sentei e, pelos janelões, vi que ao baixinho gordinho se juntara um mais alto, espigado, de óculos escuros, bolsa tipo capanga embaixo do braço. Ficaram olhando para o café, e eu olhando para eles.

O advogado não apareceu. Deduzi que havia sido preso, que meu nome e telefone estavam na agenda dele e por isso eu estava sendo seguido.

Saí depois de uma hora de espera. Quando dei meia volta após um tumulto qualquer na pracinha, dei de cara com o baixinho gordinho, que me seguiu até o metrô.

Pouco mais tarde, vou almoçar no café da esquina de casa. Não demora e entram o baixinho gordinho e o da bolsa capanga. Não consigo comer, já aterrorizado.

Vou à sede da Liga dos Direitos do Homem, saber do meu amigo advogado. Não estava, não aparecia havia dias. Parecia confirmar-se a minha dedução sobre sua prisão.

Desço e, no térreo, ao fechar a porta pantográfica do elevador (prédio antigo, elevador antigo), dou de cara com um gigante de 2 metros de altura. Pensei: "Agora, engrossaram e mandaram um bem grandão para me fazer desaparecer". Era apenas a minha imagem no espelho. O episódio me ensinou o efeito devastador que o medo provoca, em situações que você não pode controlar.

Folha achou prudente antecipar viagem já programada para a América Central para cobrir as guerras em andamento. Fui e mesmo tendo caído em fogo cruzado em El Salvador, eu ao menos sabia quem era quem e de onde vinha o perigo.

Na guerra argentina, o terror era promovido pelas sombras de um Estado tomado por uma máquina de matar.

PS - Meu amigo advogado tinha apenas ido visitar a mãe doente no interior.

Fonte: Clóvis Rossi, “Sofri o medo que as ditaduras injetam no corpo e na alma”, Folha de S. Paulo, Mundo, 18/5/13.

PS: embora este blog não tenha finalidade comercial, sigo a regra determinada pela “Folha” - para preservar direitos autorais - a respeito da republicação de seu material (dois parágrafos, com link para o original). 

Neste caso, porém, dada a importância do tema, decidi postar o texto na íntegra. Ele só é compreensível se toda a história for contada. 

Além disso, serve de lição para que NUNCA MAIS alguém seja perseguido, preso, torturado e morto apenas por exercer o sagrado direito de discordar.

quarta-feira, 6 de março de 2013 | | 0 comentários

Tortura em Limeira, um registro histórico

Fuçando dia desses no arquivo digital da revista “Veja”, deparei-me com um registro histórico. O Brasil vivia plena ditadura militar e Limeira foi destaque numa matéria que tratava de uma prática muito comum no período: a tortura.

A reportagem – publicada na página 26 da edição número 200, de 5 de julho de 1972 – tratava de uma máquina de choques encontrada na cidade. Título da matéria: “Os torturadores”. Uma pequena foto mostrava o aparelho achado em Limeira. No texto, um dos acusados menciona o famoso delegado Fleury.

Trata-se de Sérgio Fernando Paranhos Fleury, morto em 1979, homem-forte do DOPS paulista, o Departamento de Ordem Política e Social, organismo central da máquina de tortura do governo militar.

Parte da reportagem está reproduzida a seguir:

Confiante, o investigador Lázaro Pacheco dizia a jornalistas sobre o inquérito em que o juiz de Piracicaba, SP, ouve presos que se dizem torturados: “Não adianta denunciar torturas às autoridades porque tenho proteção na Secretaria de Segurança”.

Lázaro (ou, como ele prefere, o famoso “Lazinho de São Paulo, da equipe do delegado Fleury”) talvez esteja enganado quanto aos favores da autoridade que porventura o acoberte. Mas dois inquéritos iniciados também na semana passada – no Recife e em outra cidade paulista, Bebedouro – indicam que ele pelo menos não está sozinho quanto aos métodos que emprega.

Exemplos paulistas - O juiz de Piracicaba, Alfredo Miglori, já colheu o depoimento de quinze presos. Um deles, estudante, contou: “Lazinho me espancava, enquanto o investigador Jurandir pisava na minha garganta, obrigando-me a confessar que tinha entorpecentes em casa. Fui solto porque meu patrão pagou 500 cruzeiros”. Outra vítima, uma moça, contou: “Fui levada para a sala de torturas, despida e amarrada. Quando o investigador Édson me amarrou, Lazinho pediu a ele que molhasse bem o pano, para não deixar marcas. Depois me deram choques e me bateram na sola dos pés”.

Num terceiro depoimento, as palavras de um dono de bar: “Lazinho e o investigador ‘Fininho’ revistaram tudo na minha casa, em busca de drogas. Nada encontraram, mas levaram um relógio, um rádio portátil, um aparelho de televisão e uma máquina fotográfica”. Levaram também o dono do bar e o torturaram.

Na delegacia de Bebedouro, onde apurava denúncias de torturas, o juiz Álvaro Breves de Menezes encontrou uma engenhosa máquina de dar choques, movida a manivela, usada para obter confissões. Máquina idêntica fora encontrada, meses antes, na cidade de Limeira, pelo juiz Ernani Miglori. O delegado de Limeira, para que o juiz tivesse inteira liberdade de investigar, foi removido para Piracicaba. (...)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012 | | 0 comentários

A ausência escancarada*

A arte é pródiga em produzir efeitos de uma forma lúdica. Aliás, esta é a sua essência. Quando trata de temas delicados, esta característica torna-se ainda mais evidente.

Um bom exemplo é a exposição "Ausências Brasil", aberta no último dia 10 no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ela mostra - por meio de fotos aparentemente singelas, mas de uma dor e uma verdade impressionantes - famílias que tiveram parentes mortos pela repressão do regime militar (1964-85).

A exposição funciona assim: fotos antigas de família, nas quais aparece o parente morto pela ditadura ou desaparecido, são colocadas lado a lado de imagens atuais, feitas com as mesmas pessoas e no mesmo cenário. É quando a tal "ausência" que dá título ao projeto revela-se, desnudando também a face mais sangrenta e sombria do regime miliar. Evidencia-se um vazio dolorido, cruel, exposto de forma nua, embora delicada.

As imagens atuais foram captadas pelo 
fotógrafo argentino Gustavo Germano.



A mostra é promovida pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e organizada pela ONG Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). Uma versão do mesmo projeto já foi feita na Argentina, onde a ditadura deixou cerca de 30 mil mortos, conforme entidades como a Anistia Internacional.

“É um projeto político e estético ao mesmo tempo, algo que faltava no país”, disse Luciano Piccoli, coordenador do projeto na Alice, segundo notícia divulgada no site do Arquivo Público do Estado.

A exposição pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 9 às 17h, e uma vez por mês no sábado. A entrada é livre. O Arquivo Público do Estado fica na Rua Voluntários da Pátria, 596, ao lado da estação Tietê do metrô, em São Paulo.

* O título desta postagem é uma referência à obra "A ditadura escancarada", do brilhante jornalista Elio Gaspari, parte da trilogia sobre o regime militar brasileiro que tem ainda: "A ditadura revelada" e "A ditadura encurralada".

** As fotos foram retiradas do site do Arquivo Público do Estado. A primeira é de 1967 e traz Suzana Keniger Lisboa, Milke Waldemar Keniger e Luiz Eurico Tejera Lisboa. Em 2012, a foto sem Luiz Eurico.