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terça-feira, 24 de setembro de 2013 | | 0 comentários

O casamento é mera burocracia

"Deficiente intelectual precisa de autorização para casar?", foi a pergunta da “Folha” do último sábado. Acredito, porém, que existe uma questão mais geral que a antecede: por que as pessoas ainda insistem em se casar?

Calma, não estou advogando pelo fim do amor, da família ou das instituições sociais. O ponto central aqui é que o casamento desempenha hoje duas funções bastante distintas.

A primeira é puramente contratual. Trata-se de regular as relações jurídicas decorrentes das uniões entre pessoas, notadamente obrigações para com filhos, sucessões etc. Essa é, sem dúvida, uma atribuição do Estado, mas, como provam as chamadas uniões consensuais, esse tipo de controle pode perfeitamente ser feito a posteriori. Hoje ninguém precisa mais pedir ao poder público uma licença para procriar para que os filhos sejam considerados legítimos.

A outra função é mais etérea e tem a ver com o reconhecimento social do matrimônio e suas implicações para o status dos envolvidos. O Estado aqui é totalmente dispensável. Na verdade, tudo ficaria muito mais simples se o poder público parasse de lidar com casamentos e tratasse exclusivamente de uniões civis, deixando os aspectos sociais para igrejas, famílias e círculos de amigos. 

(...) Ainda que sem alarde, esse movimento já está em curso. (...)

Fonte: Hélio Schwartsman, “Revolução silenciosa”, Folha de S. Paulo, Opinião, 24/9/13, p. 2.

segunda-feira, 30 de julho de 2012 | | 0 comentários

Sobre as amizades virtuais

Me despeço de minha amiga com um abraço apertado. "A gente se fala" - ela diz, enquanto se afasta de mim fazendo um gesto no meio do peito. Por um momento, achei que ela ia fazer um desses coraçõezinhos de polegares com que as pessoas andam "espalhando amor" por aí. Seria muito estranho, pois ela não é nada afeita a esse tipo de modismo.

Aos poucos fui detectando o que suas mãos diziam. Mexia freneticamente os polegares no novo gesto que tomou conta da humanidade: o digitar de mensagens. Minha amiga falou "a gente se fala" dizendo que a gente não ia exatamente se falar.

Por quê?! Por que é que depois de tão delicioso encontro só nos restava aquele tipo de comunicação? Por que não fez o tradicional polegar e mínimo na orelha? Não queria falar comigo? Ela me ama, bem sei que ela me ama. Por que não me ligaria?

Me dei conta do quanto fomos rapidamente tomados. Eu mesma já exibo uma destreza inacreditável naquele teclado mínimo que jurei não servir pra nada. Ao decodificar o gesto de minha amiga, percebi que eu também já ardia na febre dos torpedos.

Mas por que será que levamos um tempão digitando mensagens e não telefonamos? Uns dizem ser mais barato, outros, mais objetivo.

Falam ainda de respeito à privacidade, da liberdade de responder quando quiser, milhões de desculpas para o conforto do isolamento.

Vivo agora com o queixo no peito, nariz na tela e as mãos cada vez mais rápidas nesse tricô tecnológico que, na maioria das vezes, leva mais tempo do que se eu ligasse pra pessoa. Por que não ligo, santo Deus!? Economia?

No meu caso, confesso que não. Desconfio que algo maior se esconde por trás de nossas letras virtuais.

Bem sei que a vida escrita é mais charmosa que a vida falada, mas acho que estamos sendo destreinados para o convívio. Estaremos cada vez mais rápidos com nossos dedos e cada vez mais lentos para sair delicadamente de uma situação constrangedora, por exemplo. Viraremos as costas e mandaremos um e-mail no dia seguinte?

Tenho medo de, no futuro, saber detectar gestos como o de minha amiga, mas não conseguir ler nem lidar com uma baixada de olhar, um pigarro, um brilho no olho ou um sorriso burocrático. Códigos clássicos do sutil alfabeto das relações humanas.

Um outro amigo diz que o único desconforto do isolamento é o buraco que fica no peito do animal que foi feito pra viver em bando. Vou ligar pra minha amiga. Melhor, vou marcar um novo encontro.

Fonte: Denise Fraga, "A gente se fala", Folha de S. Paulo, Equilíbrio, 10/7/12.

segunda-feira, 25 de julho de 2011 | | 0 comentários

Abaixo as redes sociais!

Vou contar o que fiz ontem: escrevi um e-mail a um amigo. Para atualizar as notícias (e sequer havia novidades a contar). Ainda assim, escrevi com entusiasmo. E recebi, logo na manhã seguinte, uma resposta também com entusiasmo – sim, percebi isto pelo texto.

Você pode pensar: e daí? Pois um gesto simples como este esconde uma mudança radical que afeta a vida de todos nós.

Com o passar do tempo e o avanço das tecnologias, as pessoas estão cada vez mais “conversando” pelo Twitter, MSN, Orkut, Facebook e cada vez menos cara a cara ou que seja por e-mail (mas um e-mail pessoal).

Que me perdoem os modernos, mas não é possível manter um diálogo minimamente consistente com alguém por meio de 140 caracteres.

Por isso decidi escrever para um amigo. E na noite anterior, liguei para outro a fim de cumprimentá-lo pela passagem de mais um aniversário (algo que poderia ter feito pelo Twitter...).

Vou fazer uma confissão: durante mais ou menos dois anos, decidi isolar-me do mundo. Por motivos diversos, incluindo o afastamento de alguns amigos, optei por recolher-me à solidão. Para quem passa por esta experiência ou pensa em fazer isto, dou uma dica: não perca tempo. O mais frutífero é cultivar as amizades.

O verbo “cultivar” não foi usado ao acaso. A amizade é como uma planta, que precisa ser regada, cuidada, para estar sempre bonita e viçosa.

E como fazer esse cultivo? Simples: mantenha contatos – por e-mails, telefonemas, etc. Por isso, liguei para um amigo, escrevi para outro e ainda marquei uma visita a uma amiga que mora em outra cidade. E vou continuar fazendo isso.

As pessoas cada vez menos se lembram de perguntar “como vai?”, “o que tem feito?”, “precisa de algo?”, “quais seus planos?”, etc. Tudo isso deu lugar a “Blz? E aí?”, “O q vai fazer hj?”, “Veja isso – www........”. Assim, em 140 caracteres.

O ser humano está perdendo a essência do convívio. Tem-se “um milhão de amigos” virtuais, mas basta precisar de alguém que você terá sorte se encontrar uma mão amiga.

Teste você mesmo: quando foi a última vez que escreveu para um amigo ou parente? Quando ligou para perguntar como estão as coisas?

Não se engane: a tela de um computador é mais fria do que você pode imaginar. E ela pode esfriar seus relacionamentos (sejam amorosos, familiares ou com seus amigos).

Fale com as pessoas, escreva para elas, ligue, mantenha contatos reais. Tenha certeza de que isto será muito mais valioso do que qualquer coisa que você possa escrever em 140 caracteres.

Em tempo: no e-mail que recebi como resposta, o amigo propôs lançar uma campanha contra as redes sociais (ou algo mais ou menos assim). Claro que não é bem isso, o exagero apenas serve para reforçar o conceito proposto: retomar o contato mais pessoal, menos virtual.

De minha parte, vou endossar a campanha “Abaixo as redes sociais!”. Assim mesmo, com o radicalismo que a questão exige.

PS: estou esperando o seu e-mail ou o seu telefonema (risos)!

quinta-feira, 16 de junho de 2011 | | 0 comentários

Reflexões sobre o casamento

No domingo passado, Dia dos Namorados, um amigo mandou flores para sua mulher com este bilhete: "Posso ser seu namorado ou continuo sendo apenas seu marido?".

A frase foi bem recebida. É que, para nós, "namorado e namorada" pode ser muito mais do que "marido e mulher". Em regra, nossa cultura romanceia o namoro, mas imagina o casamento como uma tragicômica "tumba do amor".

Na última sexta, na Academia de Ideias de Belo Horizonte, durante um bate-papo com João Gabriel de Lima sobre meu último livro, ao falar de amor e casais, eu propus o seguinte: 1) todos tendemos a amarelar diante de nosso próprio desejo; 2) o casamento nos permite acusar alguém de nossa própria covardia -
assim: eu quero fazer isso ou aquilo, mas tenho preguiça e medo; por sorte, agora que me casei, posso dizer que desisto porque assim quer minha parceira; 3) um casal, para valer a pena, não deveria servir para justificar as desistências de nenhum de seus membros; ao contrário, ele deveria potencializar os sonhos e os desejos de cada um dos dois.

Uma mulher me lembrou, com razão, que até esse tal casal que vale a pena pode acabar. E perguntou: por quê?

Existe uma sabedoria popular resignada sobre a duração de um casal. Os sentimentos do namoro viveriam, no casamento, uma decadência progressiva inelutável. E os casais continuariam unidos mais por inércia do que por gosto.
Alguns dizem que a rotina e a proximidade desgastam os sentimentos. Ou seja, o apaixonamento sempre é fruto de alguma idealização, e de perto ninguém parece ideal por muito tempo. Será que o remédio seria manter a distância para não enxergar as falhas do outro?

Respondo: amar não significa não enxergar os defeitos do outro, mas achar graça neles. Uma amiga perde um celular por semana; ela sabe que uma relação amorosa está acabando no dia em que seu homem, em vez de achar graça na sua desatenção, irrita-se com seu descuido.

Outros acusam o tédio. A novidade (valor mor da modernidade industrial) seria o ingrediente essencial (e, por definição, efêmero) do casal feliz. Ou seja, felizes são só os recém-casados.

Respondo: todos nós, neuróticos, amamos a repetição e a praticamos com afinco. A rotina, portanto, não deveria nos afastar do amor.

Volto, portanto, à pergunta: por que um casal acaba? Levantei a questão no Twitter, e @M_Angela_ Jesus me escreveu que, segundo Anaïs Nin, os casais não morrem nunca de morte natural, mas por falta de cuidados, de atenções e de esforços.

A citação me levou a pensar nos meus próprios casamentos fracassados; não cheguei a resultado algum, salvo o fato de que não deveríamos chamar necessariamente de fracasso um amor que acaba; erigir a duração em valor é uma ideia perigosa, que pode transformar separações bem-vindas e necessárias em processos laboriosos e infinitos.

No meio dessas reflexões, no domingo, fui assistir a "Namorados para Sempre", de Derek Cianfrance, que me tocou fundo, por ser justamente a história de um amor que não é mais possível. Isso, sem que os protagonistas consigam saber por que "não dá mais": nenhum deles é o vilão da crise, e nenhum deles é capaz de dizer o que está errado e deveria mudar para que o casal tivesse uma chance.

A julgar pela idade aparente da filha, o casal do filme dura há mais ou menos cinco anos. Em cinco anos, os namorados que, no primeiro encontro, haviam dançado e cantado na rua, cheios de alegria e de encantamento, transformaram-se num casal de estranhos que se encaram antes de se enxergar.

O que aconteceu? Não há resposta. Essa é a força do filme, que acua cada espectador a se perguntar o que foi que aconteceu a cada vez que ele ou ela amou, e o amor se perdeu.

Não é preciso que haja discordância brutal, traição ou desamor para que um casal se perca. Claro, é sempre possível racionalizar e apontar causas: no caso do filme, ao longo dos cinco anos, talvez ela tenha "crescido" profissionalmente (como se diz) e alimente agora ambições que ele não pode compartilhar porque, para ele, o casamento e a filha continuam sendo as únicas coisas que importam. Pode ser.

Mas talvez o fim de um amor seja um fenômeno tão misterioso quanto o apaixonamento. Talvez existam duas mágicas opostas, igualmente incontroláveis, uma que faz e outra que desfaz. 

Fonte: Contardo Calligaris, “Por que acaba um casal?”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 16/6/2011, p. 8.

domingo, 2 de maio de 2010 | | 0 comentários

A necessidade de esquecer

Esquecer. Eis o grande segredo dos novos tempos. Segredo e desafio. Afinal, com o mundo virtual, tudo fica eternizado. E numa dimensão nunca antes imaginada. Se você pensa que é exagero, deve ler (clique aqui) a entrevista que o pesquisador Viktor Mayer-Schöenberger deu recentemente ao jornal “Folha de S. Paulo”.

Nela, o autor do livro “Delete - The Virtue of Forgetting in the Digital Age” (Princeton University Press) diz que a capacidade (isto mesmo, capacidade!) de esquecer, de apagar da memória, que o ser humano possui é antes de tudo uma virtude, a engrenagem de um motor que o impulsiona para adiante.

Obviamente que, para Mayer-Schöenberger, esta essencial capacidade foi seriamente arranhada nos tempos modernos. Daí a pregação para que o ser humano recupere seu potencial de esquecer – o que, convenhamos, é cada vez mais difícil. Duvida? Basta “googlar” à procura de algo ou alguém (sim, da mesma forma que o “delete” fez surgir o “deletar”, o Google gerou sua versão verbal, que pode ser traduzida justamente por descobrir no baú da Internet tudo o que talvez merecesse estar esquecido).

Aliás, o Google acaba de criar uma ferramenta - um mapa na verdade - para mostrar os pedidos de informação e de retirada de dados que recebe por país (leia aqui). Curiosamente, na primeira divulgação, o Brasil liderou o ranking. Foram 3.663 pedidos de informação e 291 solicitações de remoção (218 ligadas ao Orkut, a comunidade de relacionamentos virtuais que encontrou nos brasileiros seus mais ardorosos adeptos). Estariam os brasileiros mais expostos e mais dispostos a tornar público o que antes era privado?


A questão é mais séria e complexa do que parece. “Esquecer nos ajuda (...) a viver e agir no presente, em vez de ficar amarrado a um passado cada vez mais detalhado. Esquecer nos ajuda a evoluir, a crescer, a seguir em frente - para aprender novas coisas. (...) Pelo esquecimento, também facilitamos a nossa capacidade de perdoar os outros por seus comportamentos. (...) As sociedades devem ter a capacidade de perdoar indivíduos esquecendo o que eles fizeram, reconhecendo, deste modo, que os seres humanos têm a capacidade de mudar e de crescer”, diz Mayer-Schöenberger à “Folha”.

No mesmo jornal, um texto de João Pereira Coutinho (leia
aqui) tratou de um outro aspecto deste “admirável mundo novo”, tão relevante quanto a lembrança e o esquecimento: os relacionamentos. Ele fala das novas “amizades” – aquelas que dispensam o contato pessoal - para tratar da privacidade e desta para uma questão mais profunda: a liberdade.

Citando o escritor Jordi Soler, Coutinho escreve que “é precisamente porque existe um espaço nosso, e só nosso, que existe também a liberdade de pensarmos como entendemos; de nos reunirmos com quem quisermos; e de nos expressarmos sem temer as interferências do poder político com a sua pata potencialmente censória”.

E, por coincidência, Coutinho considera que estas questões estão intimamente ligadas à... capacidade de esquecer! “Porque sem esquecimento não existe liberdade para continuarmos ainda e um pouco mais”.

* Infelizmente, os links dos dois textos exigem senha do UOL ou da “Folha”.