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quinta-feira, 22 de agosto de 2013 | | 0 comentários

O segredo de Fátima em detalhes

Certamente, muitas pessoas já ouviram falar dos segredos de Fátima, as mensagens que - creem os católicos - foram transmitidas diretamente pela mãe de Jesus, Nossa Senhora, a três crianças portuguesas em 1917.

O primeiro e o segundo segredos eram conhecidos há décadas. A manutenção do terceiro segredo por anos fez surgir uma série de lendas e cercou o fato de mistério até que, no ano 2000, o então papa João Paulo 2° decidiu torná-lo público.

Para minha surpresa, o relato dos segredos e o tratamento dispensado a eles pela Igreja Católica desde que se revelaram aos pastorinhos portugueses estão detalhadamente contados, inclusive com reprodução dos documentos originais, no site do Vaticano.

Estão lá, além das páginas manuscritas pela irmã Lúcia, uma das pastorinhas, a carta do papa a ela, datada de 19 de abril de 2000; uma descrição do colóquio que houve com ela em 27 de abril daquele mesmo ano; a comunicação lida pelo cardeal Ângelo Sodano, então Secretário de Estado, em Fátima no dia 13 de maio de 2000; e o comentário teológico da terceira parte do “segredo” feito pelo cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e posteriormente eleito papa Bento 16. 

Segundo a Igreja, “Fátima é, sem dúvida, a mais profética das aparições modernas”.

“A primeira e a segunda parte do ‘segredo’ (...) dizem respeito antes de mais à pavorosa visão do inferno, à devoção ao Imaculado Coração de Maria, à segunda guerra mundial, e depois ao prenúncio dos danos imensos que a Rússia, com a sua defecção da fé cristã e adesão ao totalitarismo comunista, haveria de causar à humanidade.



Em 1917, ninguém poderia ter imaginado tudo isto: os três pastorinhos de Fátima veem, ouvem, memorizam, e Lúcia, a testemunha sobrevivente, quando recebe a ordem do Bispo de Leiria e a autorização de Nossa Senhora, põe por escrito”. 

As duas primeiras partes do “segredo” foram redigidas por Lúcia em 1941 (o original está nas imagens acima); a terceira e misteriosa parte foi escrita em 3 de janeiro de 1944 (a parte inicial do original está na imagem abaixo). 


De acordo com o Vaticano, só há um manuscrito. “O envelope selado foi guardado primeiramente pelo Bispo de Leiria. Para se tutelar melhor o ‘segredo’, no dia 4 de abril de 1957 o envelope foi entregue ao Arquivo Secreto do Santo Ofício. (...)

Segundo apontamentos do Arquivo, no dia 17 de agosto de 1959 (...), o Comissário do Santo Ofício, Padre Pierre Paul Philippe OP, levou a João 23 o envelope com a terceira parte do ‘segredo de Fátima’. Sua Santidade, ‘depois de alguma hesitação’, disse: ‘Aguardemos. Rezarei. Far-lhe-ei saber o que decidi’.

Na realidade, a decisão do Papa João 23 foi enviar de novo o envelope selado para o Santo Ofício e não revelar a terceira parte do ‘segredo’. 

Paulo 6° leu o conteúdo (...) a 27 de março de 1965, e mandou novamente o envelope para o Arquivo do Santo Ofício, com a decisão de não publicar o texto. 

João Paulo 2°, por sua vez, pediu o envelope com a terceira parte do ‘segredo’, após o atentado de 13 de maio de 1981. (...) No dia 11 de agosto seguinte, o Senhor D. Martínez Somalo devolveu os dois envelopes ao Arquivo do Santo Ofício.”

A terceira parte do segredo só viria a ser revelada ao mundo quase 20 anos depois.

A seguir, reproduzo-a tal como descrita no original:

“A terceira parte do segredo revelado a 13 de julho de 1917 na Cova da Iria-Fátima. 
Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe. 
Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus. 

Tuy-3-1-1944”. 

Para saber mais sobre toda esta história, basta clicar aqui.

* As imagens foram retiradas do site do Vaticano

quinta-feira, 15 de abril de 2010 | | 0 comentários

O Arquivo Secreto do Vaticano

“Interim vero Deum Optimum Maximum, quem ipsam esse veritatem certissimo testimonio cognoscimus, comprecabimur, ut Sanctitatis Vestre consilia ita informare atque dirigere dignetur, ut quod sanctum, iustum ac verum est a Vestre Sanctitatis auctoritate obtinentes, ab omni alia assequende veritatis molestia liberemur.”
Trecho da carta (foto abaixo) do rei Henrique 8°, da Inglaterra, ao papa Clemente 7°, no qual o soberano pede que a Igreja Católica declare nulo o casamento dele com Catarina de Aragão. Era o início do cisma anglicano. A carta é datada de 13 de julho de 1530

Polêmicas e religião à parte, ninguém há de duvidar que o Vaticano é um dos maiores depositários da história documental da humanidade. Uma visita aos seus museus, arquivos e bibliotecas leva a uma volta ao passado, um passado de reis e papas, um passado que ajuda a contar parte da nossa história.

Para nossa felicidade, parte do acervo do Vaticano está disponível para consulta na Internet. Pelo site oficial da sede principal da Igreja Católica (ou, para quem preferir, de um dos menores Estados do mundo), é possível acessar documentos papais e reais, materiais preciosos e afrescos dos mais ricos da história da arte.

Pintura que mostra o rei francês Carlos Magno (768-814) confirmando ao papa Adriano 1° (772-795) uma doação dos territórios feita pelo seu pai Pepino, o Breve

Para quem gosta de arte, por exemplo, o site oferece uma navegação por dentro da Capela Sistina, onde são realizados os conclaves.

Entre todos os setores do Vaticano, um em especial chama a atenção: o Arquivo Secreto. Só pelo nome ele desperta grande interesse universal. O local guarda desde documentos relativos à história geral do cristianismo até os primeiros documentos de muitas nações.

Se fosse colocado em linha reta, o acervo do Arquivo Secreto atingiria 85 quilômetros em estantes, que contam mais de 800 anos de história. O documento mais antigo é do final do século 8.

Não custa registrar que todo esse patrimônio que agora está na Internet, ao alcance de todos, só foi aberto à consulta de estudiosos em 1881 por ação do papa Leão 13.

Dos principais documentos disponíveis na Internet, estão os dos concílios ecumênicos de 1245 (de Leão 1°), de 1439 (com o decreto da união entre as igrejas grega e latina) e de 1961 (Vaticano 2°); os das grandes universidades do mundo, desde 1254 (Oxford) até 1410 (Budapeste), passando por Avignon (1303) e Cambridge (1318); dos soberanos, como o francês Luís 14 (1693); de eventos célebres, como o Diploma de Otón 1° (de 962) e os Templários (1308); de confissões cristãs, como a excomunhão de Martinho Lutero (1521) e o divórcio do inglês Henrique 8° (1530), que mudaram os destinos da igreja e da humanidade; de figuras ilustres da arte, literatura, música, ciência, política e religião, como um tal Miguel Ángel (1535 e 1550), Mozart (1770), São Francisco de Assis (1223) e Galileu Galilei (1616-33).

Em alguns casos, o site oferece uma ferramenta que permite dar “zoom” nos documentos a ponto de ver os detalhes.

Sem dúvida, é um passeio virtual que vale a pena, independentemente de religião.

A bula “Decet Romanum Pontificem”, na qual o papa Leão 10 excomunga Martinho Lutero, líder da revolta protestante, datada de 3 de janeiro de 1521

Parte do processo contra Galileu (no detalhe, a assinatura do cientista renascentista)

Neste documento, de 1° de setembro de 1535, o papa Paulo 3° chama Michelângelo de “glória do nosso século” e define para o artista uma renda vitalícia de 1.200 escudos de ouro por ano

Detalhe da assinatura de Michelângelo Buonarroti numa carta ao bispo de Cesena, datada de janeiro de 1550

Detalhe do documento do imperador João Comneno 2° (do Império Romano do Oriente ou Bizantino) ao papa Calixto 2° sobre a união das igrejas, enviado de Constantinopla (atual Istambul) em junho de 1139

Em tempo: um dos motivos que faz o Arquivo Secreto despertar tantas curiosidades é, antes de tudo, seu nome. A designação dá a ideia de que o local guarda segredos que podem mudar os rumos da humanidade. Segundo o Vaticano, porém, a origem do nome é muito mais simples e está baseada na língua.

No século 15, chamava-se de secreto (do latim secretum) – tanto nas cortes reais como eclesiásticas – as pessoas ou instituições muito próximas (ou as mais próximas) do príncipe (ou no caso do papa) e sua família. Daí vem o termo secretário (secretarium), nome dado aos auxiliares mais próximos dos monarcas e líderes da igreja, aqueles que detinham a confiança para tratar dos assuntos mais reservados.

Portanto, tudo o que era mais próximo do príncipe ou do papa – fosse a biblioteca, a sala de estar, a cozinha, o jardineiro, etc – recebia o nome de “secreto”.