Mostrando postagens com marcador Luiz Felipe Pondé. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luiz Felipe Pondé. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015 | | 0 comentários

Reforma ou ruptura?

Por vezes, ao pensar nos problemas políticos ou esportivos do Brasil - ou mais precisamente na solução destes problemas (que, na minha visão, passa necessariamente pela troca das figuras que hoje protagonizam estes setores) - chego à conclusão de que não haverá mudança se não houver ruptura.

Por ruptura, entenda-se um processo radical, que pode incluir certo grau de violência (refiro-me a invasões, não a agressões). Talvez o exemplo mais próximo do que imagino seja a Revolução Francesa (embora nela cabeças tenham literalmente rolado).

Afinal, não se imagina mudar a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ou o Congresso Nacional sem que o povo tome o poder (algo próximo do que assistimos nas Jornadas de Junho, em 2013). Na ocasião, defendi que não se fazia mudanças com protestos organizados (hora e local marcado, sem ameaças ou prejuízos). Argumentava que o poder político só se sentiria pressionado pelo poder econômico e este, por sua vez, só pressionaria se tivesse prejuízos.

Em resumo, defendia o radicalismo no lugar do diálogo para situações que considero aparentemente sem solução.

Pois dia desses, conversando com o sempre provocativo filósofo Luiz Felipe Pondé, comecei a mudar de opinião. Pondé comparou a evolução histórica de França e Inglaterra para indicar que a reforma, e não a ruptura, pode levar a mudanças efetivas e estáveis. Demora mais (muito mais), mas cria bases sólidas - e, portanto, duradouras.

Em dado momento da história, os dois países enfrentaram desafios semelhantes - questionamentos aos abusos do absolutismo. Ambos tinham longa tradição monárquica. A França, como já registrado, optou pela revolução. Guilhotinou rei e rainha, entre outros, e derrubou o regime. Como consequência, o país viveu décadas de instabilidade política, com um vai-vem sem fim, ora restaurando-se a monarquia, ora a república.

Sem contar que a ruptura criou um vácuo de poder instantâneo, disputado forte e violentamente por grupos distintos, antes unidos contra um mesmo inimigo - a monarquia. Uma instabilidade que, de certo modo, avançou até o século 20 (não é preciso lembrar as várias convulsões sociais em solo francês).

Já a Inglaterra buscou outra solução. Reduziu poderes reais, mas manteve o regime. Num primeiro momento, o diálogo entre forças da sociedade pode ter transmitido a impressão de falsa mudança. Afinal, o símbolo maior dos abusos - a realeza - permanecia tal e qual (aparentemente). Mas as mudanças de modo lento e progressivo deram ao país uma certa estabilidade que o fez atravessar as décadas seguintes de modo mais seguro - e assim seguiu no século 20.

Segurança institucional que, neste caso, é pré-condição para o desenvolvimento.

Aliás, o processo econômico está intimamente ligado ao político, como bem explicado pelo renomado economista francês Thomas Piketty em “O capital no século XXI”: “No Reino Unido, as coisas foram diferentes – mais lentas e sem tanto fervor” (p. 134).

Para ser justo, em nenhum momento Pondé taxou um modelo como adequado ou melhor que outro. Apenas registrou, nas experiências bastante conhecidas de Inglaterra e França, que às vezes a reforma pode se mostrar, na distância do tempo, mais eficaz do que a ruptura.

No Brasil, portanto, terá que ser mesmo no voto - o que dependerá da qualidade da educação das futuras gerações.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015 | | 0 comentários

Frase

“Muitas vezes, se concentrar em conseguir levantar de manhã e trabalhar, conseguir olhar para as pessoas à sua volta e ser generoso, pode ser o maior dos milagres na Terra.
Luiz Felipe Pondé, filósofo, em artigo para o jornal “Folha de S. Paulo”

segunda-feira, 9 de junho de 2014 | | 0 comentários

Reflexão (provocação) a respeito da "violência criadora"

(...) duvido fortemente da suposta evidência de que sem movimentos de rua a sociedade deixe de se modernizar. A Revolução Francesa é um fetiche de professores que erotizam a política da violência "criadora". A França, como a Inglaterra, teria se modernizado sem a maldita revolução. A maioria dos movimentos políticos marcados por uma metafísica revolucionária (jacobinos, Rússia, Cuba, China, Vietnã, Leste Europeu até a queda do muro de Berlim e outros) não serviu para nada a não ser para matar seus inimigos com desculpas metafísicas ou enriquecer seus líderes corruptos com o passar do tempo.

É fato surpreendente que o mesmo tipo de gente que se diz contra guerras goza com a ideia de revoluções. (...)

Fonte: Luiz Felipe Pondé, “Hobbes de bike”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 9/6/14.

segunda-feira, 31 de março de 2014 | | 0 comentários

Vida "loka" - provocações

(...) E se o velho ritmo de nascer, crescer, plantar, colher, reproduzir e morrer, com variações criadas pela Apple, for tudo o que temos? E se for justamente essa "perenidade do esforço" impermeável às modas de comportamento a realidade silenciosa da vida?

E se o Eclesiastes, livro que compõe o conjunto de quatro textos da Bíblia hebraica (que os cristãos chamam de Velho Testamento) conhecidos como Sabedoria Israelita (Provérbios, Eclesiastes, Livro de Jó e Cântico dos Cânticos) estiver certo, e não existir nada de novo sob o Sol? E se tudo for, como diz o sábio bíblico, vaidade e vento que passa?

Fonte: Luiz Felipe Pondé, “Melhor impossível?”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 31/3/14.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014 | | 0 comentários

Mobilidade: a questão dos carros

(...) Os motoristas viraram a erva daninha da cidade. Ciclistas já os odiavam quando passavam com seu ar de santo ecológico pelos pobres coitados dos motoristas que não moram numa "pequena Amsterdã", como a moçada da classe média alta que mora perto do trabalho ou da "facul", ou que tem um trampo fácil, sem horas duras, ou ganha muito bem ou tem grana de outra fonte e então pode ir de bike para o trabalho ou para a "facul". Quem anda de bike para salvar o planeta é playboy light.

(...) O ódio ao motorista virou demonstração de consciência social e ambiental - outro modismo contemporâneo. Esquece-se que essas pessoas são cidadãs como todas as outras. Que pagam impostos exorbitantes para comprar os carros e IPVA todo ano. Pagam IPVA, mas logo não terão direito de andar de carro pela cidade. Nada de novo no front: os brasileiros estão acostumados a pagar impostos e não ter nada em troca. (...)

Fonte: Luiz Felipe Pondé, “A erva daninha”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 3/2/14..