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terça-feira, 21 de julho de 2015 | | 0 comentários

Um guia para a ideologia

O que está por trás dos grandes sucessos do cinema, analisado pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek:

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015 | | 0 comentários

Frase

“Muitas vezes, se concentrar em conseguir levantar de manhã e trabalhar, conseguir olhar para as pessoas à sua volta e ser generoso, pode ser o maior dos milagres na Terra.
Luiz Felipe Pondé, filósofo, em artigo para o jornal “Folha de S. Paulo”

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014 | | 0 comentários

A teoria do egoísmo responsável

Ao fazer recentemente uma reportagem sobre o antropoceno, período geológico no qual o homem causa os problemas do planeta e é também responsável por encontrar as soluções, passei a refletir sobre o futuro. E desenvolvi uma teoria: a do egoísmo responsável.

Trata-se, como o nome indica, de uma alternativa (ou de uma saída) para viver sem preocupações coletivas complexas (que tornariam a vida um tormento, conforme esta teoria) e, ao mesmo tempo, buscar contribuir da forma que for possível.

O diagnóstico é mais ou menos claro, seja qual for o ramo de estudo (do clima e as alterações causadas pelo aquecimento global ao esoterismo e a teoria Gaia): estamos destruindo o planeta, um processo que ganha velocidade cada vez maior.


De acordo com o filósofo Luiz Felipe Pondé, o ser humano desenvolveu tecnologia e conhecimento que lhe permitem viver mais (a expectativa de vida aumentou de 30 a 40 anos ao longo dos últimos séculos) e estabeleceu uma sociedade baseada na riqueza – modelo que ele considera irreversível, já que sistemas alternativos fracassaram.

Está posto o problema: a insustentabilidade do desejo. Como associar nossos desejos de felicidade e consumo com os limites de recursos do planeta?

(Pondé alerta para o risco de uma espécie de fascismo verde ao se pensar em estabelecer limites por meio de uma governança global, mas isto é outra discussão.)

Na equação da vida, a soma de felicidade (consumo) e direitos resulta em degradação. Segundo o filósofo, o ser humano sonha ter o nível de consumo dos Estados Unidos e o de bem-estar social da Suécia, uma conta que definitivamente não fecha num mundo com mais de sete bilhões de pessoas.

O desejo humano, portanto, é perigoso. Corre-se o risco de se materializar o mundo pensado pelo filósofo inglês Thomas Hobbes da guerra de todos contra todos – vejamos a atual crise da água...

Ao refletir sobre estas questões, concluí que criamos uma armadilha. A não ser que ocorra uma catástrofe planetária, o mundo não vai aguentar.

O nível crescente de consumo (pense no seu celular e em quanto tempo você deseja trocá-lo por um novo) não é compatível com os recursos disponíveis. A população mundial segue crescendo em ritmo acelerado. Se o apocalipse não vier dos céus, virá da ação humana. Inevitável.

Contudo, por mais que este processo esteja acelerado, ainda levará algumas gerações para chegar ao ponto limite em que a vida humana se tornará insustentável. O que fazer, então?

Martirizar-se com uma preocupação coletiva – “o que estamos fazendo?” - ou mudar radicalmente de vida (abandonar quaisquer traços de consumo, passar a viver em meio a natureza, estabelecendo novos hábitos alimentares e abrindo mão de uma série de prazeres - viajar, por exemplo, que implica na queima de combustíveis fósseis, um dos principais elementos do aquecimento global)?

Daí surge a teoria do egoísmo responsável. Egoísmo porque pressupõe a preocupação individual – já que não viverei o fim, a extinção, o apocalipse, levarei minha vida normalmente sem maiores preocupações coletivas globais. Darei-me o direito dos pequenos prazeres cotidianos (um “fast food”, um carro, um celular, uma viagem...), etc.

Ao mesmo tempo, como parte desta escolha (de fazer parte da inevitável sociedade de consumo), terei ações responsáveis ao meu alcance: reciclarei o lixo, buscarei alimentos orgânicos, terei uma vida mais civilizada, não jogarei resíduos na rua, evitarei o desperdício de recursos, procurarei fontes sustentáveis de energia, etc. Será a minha contribuição – como na história do passarinho, de cada um, com pequenos gestos, fazer a sua parte.

Egoísmo responsável!

Em tempo 1: se alguém topar, será um prazer refletir se, de fato, criamos uma sociedade sem volta, um caminho inexorável. Criamos?

Em tempo 2: outro filósofo, Hélio Schwartsman, mostrou em recente coluna na “Folha de S. Paulo” como a melhoria de vida alcançada nas últimas décadas criou novos desafios para o ser humano no campo da saúde – “Estamos ficando mais saudáveis, mas isso apenas nos empurra para mortes mais sofridas”. E assim será, sempre.

quarta-feira, 28 de maio de 2014 | | 0 comentários

Espaço público, segregação e sociedade

Trecho da entrevista do filósofo Michael Sandel:

Folha - O sr. critica a "camarotização" da vida pública nos EUA, onde se paga para ser VIP. Onde não há mistura de classes e convívio, o bem público e o espírito democrático estariam em risco. Como desenvolver esse espírito?
Nos EUA, as elites parecem desesperadas em não se misturar com os demais. Vida comum é saudável, e uma democracia vibrante precisa de lugares públicos que misturem diferentes classes. A camarotização é uma ameaça à democracia, ao espírito do bem comum. Os esportes costumavam ser essa arena. Mas a camarotização dos estádios tem repetido a segregação.

No Brasil, a insegurança produziu uma sociedade ainda mais segregada.
O maior erro é pensar que serviços públicos são apenas para quem não pode pagar por coisa melhor. Esse é o início da destruição da ideia do bem comum. Parques, praças e transporte público precisam ser tão bons a ponto de que todos queiram usá-los, até os mais ricos. Se a escola pública é boa, quem pode pagar uma particular vai preferir que seu filho fique na pública, e assim teremos uma base política para defender a qualidade da escola pública. Seria uma tragédia se nossos espaços públicos fossem shoppings centers, algo que acontece em vários países, não só no Brasil. Nossa identidade ali é de consumidor, não de cidadão.

Fonte:
Raul Juste Lores, “Camarotes de VIPs são uma ameaça ao espírito democrático”, Folha de S. Paulo, Poder, 28/4/14.

segunda-feira, 7 de abril de 2014 | | 0 comentários

"Deveres da amizade"

(...) é possível ser justo e leal para com os amigos ao mesmo tempo?

É claro que tudo depende de como definimos os termos, mas não é de hoje que filósofos apontam uma incompatibilidade entre o relacionamento especial que caracteriza a amizade e os princípios morais exigidos por alguns dos principais sistemas éticos. É impossível, por exemplo, ser totalmente imparcial, como cobra o consequencialismo, e dar preferência às necessidades dos amigos.

(...) Ghiraldelli, sem deixar de reconhecer a dificuldade, fica com os amigos, atribuindo grande parte da confusão a uma banalização dos vários significados de "amor" e "philia" (amizade). Pode ser, mas tenho uma visão um pouco mais trágica. Acho que nosso senso moral é o resultado não projetado de diferentes pressões seletivas, o que praticamente nos condena a ficar pulando de um sistema ético para outro sem jamais satisfazer nossas intuições.

Fonte: Hélio Schwartsman, “Folha de S. Paulo”, Opinião, 6/4/14, p. 2 (íntegra aqui).

segunda-feira, 18 de março de 2013 | | 0 comentários

O bom selvagem (sobre a natureza humana)

(...) Engana-se quem pensa que a tradição marxista comece com Marx, ela começa com Rousseau e seu bom selvagem. O princípio é que o homem é bom e a sociedade é que o perverte. A perversão do bom selvagem pelo "Das Kapital" é apenas uma decorrência do princípio do Rousseau, só que para Marx não partimos do bom selvagem, mas sim chegaremos a ele quando superarmos esta sociedade má.

Uma ideia assim (que somos bons e a sociedade nos corrompe, e aqui você pode colocar no lugar de "sociedade" a família, o patriarcado, a igreja, o capital, os EUA, o patrão, seu pai autoritário) faz almas fracas gozarem de prazer. Porque o que ela diz é que, ao final, não sou responsável por nada que faço. Não fosse pela "sociedade", eu seria um homem bom.

(...) Nossa origem é o bom selvagem? É por isso que australianos que não têm o que fazer se pintam de aborígenes e gritam por aí? Quanta bobagem! Quanto lixo escrito com tinta cara! (...)

Fonte: Luiz Felipe Pondé, “Helena não tem culpa”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 18/3/13.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013 | | 0 comentários

Reflexões sobre o ato de viver

(...) Sou um homem de obsessões. Uma delas é que não controlamos a vida. Mas, mesmo assim, devemos tentar ter algum controle sobre ela. Ao final, sempre somos derrotados. Se pensarmos nisso, nada vale a pena. Mas, antes da morte, tudo vale a pena justamente porque nunca venceremos a batalha. Não há qualquer outra dignidade na vida além da do herói épico que combate 1 milhão de inimigos.

(...) Sou um vocacionado à tristeza, mas resisto bem. As pessoas a minha volta sempre me salvam, mesmo que sem querer. Livros e filmes como esses me deixam felizes porque vejo neles o que vejo em mim: o sentido da vida que brota do fracasso, do impasse. (...)

Fonte: Luiz Felipe Pondé, "Intimidade", Folha de S. Paulo, Ilustrada, 7/1/13, p. 12.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012 | | 0 comentários

A ética nossa de cada dia

Estamos vivendo tempos de uma ética utilitarista. Ou, melhor dizendo, da deturpação dos princípios utilitaristas. Do eudemonismo natural para uma moral egoísta. Isto se revela em dois tipos de atitudes: 1) a avaliação do que é bom ou mau (ou, dito de outra forma, do que vale a pena ou não) com base nas consequências que algum ato possa trazer para o indivíduo; e 2) a consideração do que vale a pena ou não com base numa suposta superioridade ideológica em relação a outras correntes de pensamento.

O resultado desse tipo de comportamento é que agimos ou nos omitimos pensando unicamente no(s) efeito(s) que tal ação ou omissão pode nos causar como indivíduos ou à nossa causa (neste período eleitoral este tipo de situação fica evidente). Traduzindo em exemplo: não importa se determinada pessoa possa ter cometido uma irregularidade; se denunciar irá trazer benefícios, faça-se; se não trouxer benefícios, omite-se. E a suposta irregularidade? Ora, ora...

Em suma, o indivíduo aceita as irregularidades desde que estas não o prejudiquem ou ainda desde que a omissão de não denunciá-las o beneficie. E o processo que pode estar sendo deturpado pelas tais irregularidades? E outros que podem estar sendo prejudicados? “Laissez faire, laissez passer” (atenção: considere a expressão meramente por sua tradução e não por seu significado na teoria econômica liberal).

Se questionada, a pessoa que aplica a ética utilitarista (deturpada) dirá que está seguindo a moral eudemonista. Falará isso com base na crença de que suas verdades são “a verdade”.

Eis, pois, uma das minhas mais recentes inquietações – levada a cabo por uma pergunta de um militante político: “Entre a orientação partidária em favor de um projeto em prol da coletividade e as suas convicções, você fica com qual?”

Mais uma vez, fico tentado a recorrer a Quincas Borba: “Ao vencedor, as batatas!”

domingo, 26 de agosto de 2012 | | 0 comentários

Qual o valor do dinheiro?

Ao que tudo indica, nem o normalmente conservador Conselho Federal de Medicina (CFM) resistiu à pressão e já vai, pelas beiradas, aceitando a barriga de aluguel. Oficialmente, o CFM está apenas permitindo que uma mulher não aparentada ceda a outra seu útero por razões altruísticas, mas admite que não tem como saber se há ou não pagamento envolvido.

Como bom utilitarista, penso que, se um acordo qualquer é desejado pelas duas partes e não prejudica terceiros, esse não é um assunto no qual o Estado e suas autarquias possam interferir. Não tenho, portanto, nada contra barriga de aluguel, comércio de órgãos, prostituição e jogos de azar. É claro, porém, que minha posição está longe de ser unânime.

Quem articula com maestria argumentos contrários aos meus é Michael Sandel, no recém-lançado "O Que o Dinheiro Não Compra". Para o professor de Harvard, a crescente monetização da sociedade, além de afastar ricos de pobres, pode muitas vezes destruir valores como altruísmo, solidariedade, patriotismo etc.

Ele apresenta tantos exemplos e articula tão bem suas ideias que é difícil discordar. O que me incomoda no discurso de Sandel é que ele põe tanta ênfase na ideia de que o dinheiro degrada tudo o que toca que acaba favorecendo um certo reacionarismo de esquerda, que rejeita o avanço do mercado mesmo quando isso pode ser benéfico para a maioria.

É claro que a "commoditização" da vida cria uma série de problemas e injustiças. Só que também tínhamos problemas e injustiças antes da invenção do dinheiro. Colocando as coisas em perspectiva histórica, o paulatino avanço dos mecanismos de mercado por diferentes aspectos da vida também é responsável pela era de pujança material e sanitária sem precedentes de que até as populações mais miseráveis do planeta se beneficiam. Será que devemos mesmo criar zonas sagradas que não podem ser tocadas pelo dinheiro?

Fonte: Hélio Schwartsman, "Zonas sagradas", Folha de S. Paulo, Opinião, 26/8/12, p. 2.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011 | | 0 comentários

O mundo e eu

“Mesmo quando não estamos em desertos, o comportamento dos outros e nossas próprias falhas costumam nos deixar com a sensação de pequenez. A humilhação é um risco perpétuo no mundo dos homens. Não é incomum que nossa vontade seja desafiada e nossos desejos, frustrados. Logo, não são as paisagens sublimes que nos apresentam nossas deficiências. (...) Locais sublimes repetem, em termos majestosos, uma lição que a vida diária costuma nos ensinar com crueldade: que o universo é mais poderoso que nós, que somos frágeis e efêmeros, que não temos alternativa a não ser a de aceitar as limitações impostas à nossa vontade, que precisamos ceder diante de exigências maiores que nós mesmos.”
(Alain de Botton em “A arte de viajar”, Editora Rocco, p. 180)


“Não se surpreenda se as coisas não correrem como você esperava: o universo é muito maior do que você. Não se surpreenda se não entender por que elas não correram como esperado, pois você não tem como penetrar a lógica do universo. Veja como você é pequeno em comparação com as montanhas. Aceite o que é maior, e que você não compreende. (...) Nossas vidas não são a medida de todas as coisas: contemple lugares sublimes como um lembrete da fragilidade e insignificância do ser humano.”
(Idem, p. 190)

* A foto que ilustra esta postagem, do Grand Canyon, nos EUA, foi tirada pelo meu pai

segunda-feira, 25 de julho de 2011 | | 0 comentários

Frase

"O trabalho técnico, mecânico e acelerado abole o tempo do pensamento, que exige virtudes atribuídas ao preguiçoso: paciência, lentidão, devaneio, acaso - o imprevisto." 
Adauto Novaes, em ensaio publicado no caderno "Ilustríssima", da "Folha de S. Paulo", ontem (24/7/2011). Para ler a íntegra, clique aqui - é preciso ter senha do jornal ou do UOL.