domingo, 22 de setembro de 2013 | | 0 comentários

Eu sou...

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

(...)

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contramão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

(...)

Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor

Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo

(...)

Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio

(“Gita”, de Raul Seixas e Paulo Coelho)

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"How you remind me"

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Dez minutos no Facebook - uma experiência

Dia desses, um amigo chegou e me disse: “Olha as fotos do meu sobrinho no Rio”. 

As fotos estavam no Facebook. Eu não tenho Facebook e mal sei mexer (fuçar?) nele.

Pois bem: em cerca de dez minutos que “facebookei” me vi xereteando nos fatos e fotos de umas oito pessoas pelo menos (estas foram as que eu lembrei no momento em que escrevo esta postagem).

Dez minutos bisbilhotando a vida alheia – que, por sua vez, estava lá exposta publicamente.

É este tipo de situação que me incomoda no Facebook (como já me incomodava no Orkut e, em certo grau, no Twitter): a mania (vício?) de xeretear a vida dos outros e permitir que os outros bisbilhotem a nossa vida.

Aí alguém poderá dizer: basta se controlar.

E é aí que eu respondo: o “sistema”, o Facebook no caso, faz com que você navegue pela vida dos outros. É quase inevitável. Até porque qual o sentido de estar numa rede social se não para “compartilhar” (é este o termo, não?) as experiências?

A questão é que este “compartilhamento” passou dos limites.

Qual o sentido de alguém dizer que está no shopping com fulano e beltrano? Ou que está no zoológico com o(a) namorado(a)? Ou no cinema? Ou em Paris?

Qual o sentido de postar tantas fotos, transformando a vida diária praticamente num “book”, num diário visual? Que narcisismo é este? Qual a finalidade de tanto exibicionismo?

Eu, por exemplo, descobri certa vez por meio de uma foto no Facebook que um ex-colega de trabalho tinha sido “traído” (esta não é bem a palavra, mas não vem ao caso). Como? Porque um outro colega tinha postado uma foto de um beijo dele com a “pegadete” do outro.

Esta minha experiência recente, fuçando nos perfis dos outros, trouxe-me à mente uma entrevista do jornalista e escritor Bernardo Carvalho sobre o seu mais recente livro, “Reprodução”. Detalhe: na obra, ele trata da Internet em geral, ou seja, o Facebook é apenas uma parte do problema.

Veja a seguir alguns trechos:

Folha - Não é de hoje que você questiona uma "banalização" promovida pela internet. Como essa ideia virou livro?
Bernardo Carvalho - Tive um processo longo de percepção de uma fascistização do mundo, de um jeito ambíguo, porque as pessoas criam o fascismo achando que estão encontrando a liberdade. A internet é libertária, democrática, mas também faz você entregar sua privacidade e se relacionar com corporações como se fossem Deus ou a natureza. Elas dizem: "Você não precisa pagar nada". E você se entrega acriticamente, porque a ideia de não fazer esforço é sedutora. E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.
Na sua opinião, a internet apenas reflete um comportamento humano ou o reforça?
Talvez tenha acirrado algo que sempre existiu em potencial. Você não tem privacidade, mas pode ter anonimato, o que permite uma manifestação de imbecilidade sob a proteção do anonimato. Estava incomodado com isso e pensei nesse narrador que representa o ódio absoluto, o anonimato da internet. No livro há uma frase do [filósofo espanhol] Ortega y Gasset: "Todo povo cala uma coisa para poder dizer outra. Porque tudo seria indizível". O personagem tem a informação absoluta, mas nada do que ele diz quer dizer muito. Não adianta você saber um monte de coisas, ser informado na superficialidade midiática sem uma compreensão do mundo. Você só reproduz, não consegue mais produzir.
Fonte: Raquel Cozer, “Você acha que usa a Internet, mas estásendo usado por ela”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 21/9/13.

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Como se faz um avião

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Frase

“Você pode não querer ir até a Bolívia. Mas a Bolívia vai até você."
Eduardo Saboia, diplomata, ex-encarregado de negócios da embaixada do Brasil na Bolívia, em entrevista à “Folha de S. Paulo”

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Direto do toca-CD (42)

It's rainin' but there ain't a cloud in the sky
Must've been a tear from your eye
Everything'll be okay
Funny thought I felt a sweet summer breeze
Must've been you sighin' so deep
Don't worry we're gonna find a way

I'm waitin', waitin' on a sunny day
Gonna chase the clouds away
Waitin' on a sunny day

(...)

("
Waiting On A Sunny Day", de Bruce Springsteen)

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Até lá

Você reclama de pagar a Área Azul, o estacionamento rotativo nas cidades? O duro é você parar no meio de uma estrada nos alpes austríacos, num lugar onde nem cidade tem, à beira de um lago, com um monte de espaços vazios para os carros, e se deparar com a maquininha do parquímetro...


PS: não costumo burlar regras, mas não paguei o parquímetro. Afinal, foi só uma parada para uma foto.

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O julgamento do "mensalão": uma reflexão

(...) Com 56 anos de advocacia e dezenas de livros publicados, inclusive em parceria com alguns ministros do STF, (Ives) Gandra (Martins), professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, diz que o julgamento do escândalo do mensalão tem dois lados. (...)

Folha - O senhor já falou que o julgamento teve um lado bom e um lado ruim. Vamos começar pelo primeiro.
Ives Gandra Martins - O povo tem um desconforto enorme. Acha que todos os políticos são corruptos e que a impunidade reina em todas as esferas de governo. O mensalão como que abriu uma janela em um ambiente fechado para entrar o ar novo, em um novo país em que haveria a punição dos que praticam crimes. Esse é o lado indiscutivelmente positivo. Do ponto de vista jurídico, eu não aceito a teoria do domínio do fato.

Por quê?
Com ela, eu passo a trabalhar com indícios e presunções. Eu não busco a verdade material. Você tem pessoas que trabalham com você. Uma delas comete um crime e o atribui a você. E você não sabe de nada. Não há nenhuma prova senão o depoimento dela --e basta um só depoimento. Como você é a chefe dela, pela teoria do domínio do fato, está condenada, você deveria saber. Todos os executivos brasileiros correm agora esse risco. É uma insegurança jurídica monumental. Como um velho advogado, com 56 anos de advocacia, isso me preocupa. A teoria que sempre prevaleceu no Supremo foi a do "in dubio pro reo" [a dúvida favorece o réu].

Houve uma mudança nesse julgamento?
O domínio do fato é novidade absoluta no Supremo. Nunca houve essa teoria. Foi inventada, tiraram de um autor alemão, mas também na Alemanha ela não é aplicada. E foi com base nela que condenaram José Dirceu como chefe de quadrilha [do mensalão]. Aliás, pela teoria do domínio do fato, o maior beneficiário era o presidente Lula, o que vale dizer que se trouxe a teoria pela metade. (...)

Fonte: Mônica Bergamo, "Dirceu foi condenado sem provas, diz Ives Gandra", Folha de S. Paulo, Poder, 22/9/13.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013 | | 0 comentários

O lustre



Um lustre
Ilustre.
Um lustre
Garboso,
Brilhoso.
Ilustre
o tempo...
O lustre.
Ilustre.



Em tempo: o lustre das fotos fica no salão principal do Palacete Levy, imóvel do século 19 construído no Largo Boa Morte, no Centro de Limeira.

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"É preciso diminuir o espaço dos carros"

O maior empecilho à ampliação da rede de ciclovias em cidades como São Paulo é a prioridade que os automóveis têm no trânsito urbano, afirma o arquiteto e urbanista Fabiano Borba Vianna, mestre pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da PUC/PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).

"O espaço público não foi delegado ao automóvel, mas os carros o foram ocupando quase por completo. Hoje, vemos que pedestres e ciclistas brigam para retomar um espaço que já foi deles. O automóvel tem de ceder um pouco de espaço a todos os demais modelos de transporte", disse.

Para ele, a resistência de administradores públicos em decidir tomar espaço dos automóveis em favor de outras modalidades de transporte é uma barreira maior para a criação de ciclovias do que fatores como topografia ou custo.

"Falta decidir que o espaço das ruas tem de ser compartilhado entre carros, pedestres e ciclistas. Em outras palavras, é preciso diminuir o espaço do automóvel. E esse é um fator que barra a expansão [do uso da bicicleta como meio de transporte], pois não é decisão simples, principalmente no centro das grandes cidades", afirmou. (...)

Fonte: Rafael Moro Martins, “’É preciso diminuir o espaço ocupado pelo automóvel’, diz urbanista”, UOL, postado em 20/9/13.

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O sonho

Ontem eu sonhei que via
Deus e que a Deus falava;
e sonhei que Deus me ouvia...
Depois sonhei que sonhava...

(...)

À noite sonhei que ouvia
Deus, que me gritava: Alerta!
Depois Deus adormecia
e eu gritava: Desperta!

(António Machado, poeta espanhol, em “Antologia Poética”, tradução de José Bento)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013 | | 1 comentários

Exemplos de um país sustentável

Escrevi recentemente no blog Piscitas – travel & fun sobre a importância de olhar pela janela numa viagem a fim de ver a paisagem ao redor. Ela nos conta muito do lugar pelo qual passamos.

Entre as muitas imagens postadas, deixei de fora dois cenários para que fossem comentados aqui, à parte. A ocasião surgiu agora, após ler uma postagem feita pelo jornalista André Trigueiro em seu blog.

Ele esteve recentemente na Alemanha e clicou paisagens semelhantes às que eu vi: as “plantações” de ventiladores (aerogeradores ou torres de energia eólica) e vidro (painéis de energia solar).

A paisagem se repete pelos países vizinhos, do Leste Europeu: Áustria (aos montes), República Tcheca, Hungria e Eslováquia (estes em menor quantidade).







E não são apenas os painéis: nas vilas, o uso da energia solar é cada vez mais significativo nos imóveis, como vi na região de Munique:


Focado em meio ambiente e sustentabilidade, o blog de Trigueiro cita boas iniciativas que vêm da Alemanha, entre os quais as fontes alternativas de energia.

É um belo exemplo do que escrevi na postagem no blog Piscitas: olhar pela janela durante uma viagem permite conhecer mais profundamente o lugar, a cidade, o país, seus costumes, sua cultura, sua geografia.

Aliás, Trigueiro destacou também o uso das bicicletas na Alemanha (já citado neste blog) e o ecodesing alemão, muito bem representado pela cúpula de vidro do Parlamento (o Reichstag), em Berlim, e pela cobertura translúcida do estádio olímpico de Munique e das áreas de convívio do parque olímpico (feitos para as Olimpíadas de 1972!):







Eu acrescentaria ainda a cobertura do Sony Center, um moderno centro de compras na capital alemã, e as paredes de vidro das piscinas olímpicas de Munique, que também privilegiam a luz natural:





Claro que na Alemanha, como em muitos lugares, persistem práticas pouco recomendadas do ponto de vista ambiental. Na área de energia, vi do avião uma usina (térmica, creio eu) perto do aeroporto de Frankfurt expelindo toneladas de fumaça:



É inegável, contudo, que o país tem se esforçado para mudar esta realidade e se adaptar aos novos tempos (vide a proibição à energia nuclear após o acidente com a usina de Fukushima, no Japão).

Pois bem: quando viajar, repare nos detalhes. Eles fazem a diferença e ajudam a contar histórias. Apenas para encerrar e ficar no tema do meio ambiente, em Chicago (EUA) eu observei do alto da Willis Tower a cobertura verde, ecológica, de um prédio, algo que está se espalhando por várias construções:



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Greve, greve, greve, greve...

Já está ficando chato isto: entra ano e sai ano e, sempre no mesmo período, carteiros e bancários entram em greve. Parece até que é combinado - as cartas e boletos não chegam e os bancos não atendem.

Reconheço que a greve é um direito legal do trabalhador, mas você já reparou que são sempre as mesmas categorias que param as atividades?

A luta por melhores salários e condições mais dignas de trabalho é justa e necessária, mas aí a gente lê e ouve reivindicações como "abertura de concurso público"... Ora, sei que um quadro deficitário de funcionários costuma levar a pressões e excesso de trabalho, mas é preciso fazer greve para reivindicar este tipo de coisa?

Sei que minha opinião soa reacionária; estou apenas questionando o fato do recurso à greve ter virado rotina para estas duas categorias.

Em tempo: segundo o G1, os bancários pedem reajuste salarial de 11,93% (5% de aumento real), participação nos lucros de três salários mais R$ 5.553,15 e piso de R$ 2.860, além do fim das metas abusivas e do assédio moral.

Já os carteiros, também conforme o G1, reivindicam manutenção do plano de saúde atual e fim das entregas de correspondência à noite por motivo de segurança.

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Álbum de viagem

Vi dia desses no álbum de fotos da seção de Turismo do site da "Folha de S. Paulo" as imagens do fotógrafo Marco Ankosqui feitas em Canoa Quebrada, famoso ponto turístico do Ceará. O trabalho me remeteu às fotos que eu fiz na praia de Cumbuco, nos arredores de Fortaleza (CE):


 





Claro que as minhas fotos não se comparam com as de Ankosqui: ele usou máquina profissional; eu, amadora. Ele É profissional; eu, amador.

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Mensalão, embargos e etc: cadê o povo?

Haja paciência. Haja tolerância. Haja também --e sobretudo-- compreensão para o fato de que, num Estado de Direito, as decisões da Justiça precisam emergir da interpretação fundamentada do que prescrevem as leis.

(...) Isso não significa que sentenças serão necessariamente alteradas. Trata-se apenas de reconhecer que mais um recurso está à disposição de alguns réus --somente naqueles casos em que as condenações foram decididas com ao menos quatro votos favoráveis à absolvição.

Verdade que restou frustrada a expectativa de que, por fim, se pusesse termo a um processo longuíssimo, pronto a estagnar em cada curva no remanso da impunidade. (...)

Fonte: _____________, “Não é pizza”, Folha de S. Paulo, Opinião/Editorial, 19/9/13, p. 2.

***

Ao acolher os embargos infringentes, o Supremo Tribunal Federal praticamente define um novo julgamento do mensalão e tende a recuar num dos pontos fundamentais da primeira fase: a atualização do conceito de quadrilha.

Se antes as quadrilhas eram quase caricatas - bandos de criminosos comuns, armados, que assaltavam bancos e coisas assim -, o julgamento do mensalão estendeu o conceito para poderosos, de dentro e de fora de governos, que agem em conjunto contra o interesse público.

(...) Um dado salta aos olhos nessa arena. Acatados os embargos infringentes e, depois, o mérito desses embargos, o julgamento terminará com os núcleos publicitário e financeiro na cadeia, puxados por Marcos Valério e Kátia Rabello, e com o núcleo político em ostensiva comemoração, liderado ainda por José Dirceu.

Aos "técnicos", o peso da lei. Aos "políticos", a leveza do sei lá o quê. (...)

Fonte: Eliane Cantanhêde, “Quem ri por último...”, Folha de S. Paulo, Opinião, 19/9/13, p. 2.

***

Pode ser chato aceitar isso, mas o voto de Celso de Mello foi magistral. É má notícia, claro, ver o processo do mensalão se arrastar, como haverá de acontecer, por mais tempo em alguns casos. A sessão de ontem do STF foi, mesmo assim, uma lição de direito.

(...) Celso de Mello foi firme, quase esmagador, na alegria de manter a própria posição e de resguardar sua autonomia de juiz face ao clamor de "maiorias eventuais". Com a insistência vocal de sempre, colocou os pingos nos is. É de se temer que os "is", no caso, sejam os da palavra "impunidade".

Fonte: Marcelo Coelho, “Pingos nos is”, Folha de S. Paulo, Poder, 19/9/13.

***

Postas as questões principais acerca da decisão do STF a respeito dos tais embargos infringentes no julgamento do mensalão, restam-me quatro observações:

1 – do ponto de vista jurídico, a decisão do Supremo merece consideração. Há que se notar, porém, que não são os tais embargos que podem levar à prescrição de penas e sim a demora de quase cinco anos para que a ação penal 470 fosse julgada (ela foi protocolada em novembro de 2007). A morosidade da Justiça se deu antes e não agora. E a Justiça não pode, em razão da sua morosidade, reduzir eventuais direitos dos réus.

2 – o fato dos embargos terem sido aceitos NÃO modifica em nada um fato: houve um grande esquema de corrupção envolvendo partidos e agentes públicos visando a sustentação política do governo Lula. Provavelmente o maior escândalo da história da República. Restou provada a utilização de recursos públicos. Foram condenadas 25 pessoas – nenhuma delas poderá ser absolvida integralmente durante a próxima fase de recursos. Ou seja: o mensalão existiu.

3 – a impunidade se dará se, na análise dos futuros embargos, o STF recuar da condenação por formação de quadrilha. Aí se terá a lógica exposta no texto de Eliane Cantanhêde citado anteriormente: para os peixes miúdos, a prisão; para os graúdos, a liberdade.

4 – por mais que a decisão do STF pró-embargos possa encontrar respaldo jurídico, como expuseram vários especialistas, não é possível aceitar que parte da sociedade comemore uma eventual vitória dos réus. Eles são CONDENADOS em última instância por CORRUPÇÃO, um dos mais graves dos crimes porque lesa o erário (portanto, os sistemas de saúde, educação, segurança, etc).

Petistas conscientes (são poucos, mas existem) fazem autocrítica em relação a este triste episódio da história do partido. Grande parte dos filiados e simpatizantes, porém, insiste em relativizar o caso, atribuindo-o a “somente um crime de caixa dois eleitoral”.

Há até quem deboche do caso, como o ator José de Abreu. Tão logo a decisão do STF foi tomada a respeito dos embargos, ele postou no Twitter: “Já começou a convulsão social? O povo tá nas ruas? Ta tendo greve geral?” (sic).

Que Abreu seja petista e amigo de longa data do ex-ministro e condenado por corrupção no mensalão, José Dirceu, é um direito dele. Daí a debochar da situação é demais...

***

O pior é pensar que o ator tem parcial razão. Tivesse de fato o gigante acordado e hoje o país estaria parado e o povo nas ruas.

Povo brasileiro, cadê você?