domingo, 31 de julho de 2011 | | 0 comentários

Indo

Não há métrica em minha poesia
As palavras surgem desordenadas
Em busca de algum sentido possível.

Não há métrica em minha vida
Os dias passam amontoados
Em busca de uma história.

Cada texto, cada ato
Uma nova obra, uma nova lição.

Incompleta, imperfeita.
Insatisfeito, inquieto.

Vivo. Feliz.

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Fim de tarde na metrópole

As cores de um entardecer em São Paulo:





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Reencontro

Um presente, um tesouro, uma revelação
Apaixonada, sublime, divina
Amor fraternal, uma odisseia
De coração para coração.

Palavras ao vento, uma lição
Compreensão, resistência, entrega
Amor celestial, uma dádiva
De irmão para irmão.

E assim se deu a luz
E assim se fez a fé
E assim aconteceu.

Só alcança quem busca
Só chega quem caminha
Só vence quem crê.

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Mais fragmentos de SP

A ponte estaiada sobre o rio Pinheiros:



quinta-feira, 28 de julho de 2011 | | 0 comentários

Flores e frutos

Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora, cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê
Flor e fruto

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, planta e sentimento
Folhas, coração,
Juventude e fé.

(“Coração de Estudante”, de Wagner Tiso e Milton Nascimento)

quarta-feira, 27 de julho de 2011 | | 0 comentários

Fragmentos de SP

Na Rodovia dos Bandeirantes:



Na marginal:


terça-feira, 26 de julho de 2011 | | 0 comentários

Meu dicionário

Definições práticas para problemas do dia-a-dia (dicionário “rodriguiano” de tensões e angústias):

- você sabe que está ficando velho quando... chega num lugar na hora em que ele ainda está vazio e sai quando ele começa a “bombar”;

- você sabe que a ansiedade está o dominando quando... não para de apertar a tecla “F5” da caixa de entrada do e-mail e do Twitter;

- você sabe que está “encucado” quando... sente uma necessidade tremenda de conversar;

- você sabe que vai ter que se virar sozinho com seus pensamentos quando... olha ao redor e só vê quatro paredes;

- você sabe que está indeciso quando... tem mais de uma opção e definitivamente não consegue escolher;

- você sabe que precisa agir quando... só lhe resta uma alternativa;

- você sabe que está sem saída quando... não lhe resta mais nenhuma alternativa;

- você sabe que está com insônia quando... mesmo após ter acordado cedo, está a mil por hora apesar do relógio já ter dado início a um novo dia (0h07...);

- você sabe que está sem inspiração quando... olha no criado-mudo e falta um livro, olha para uma página em branco do Word e não tem nenhuma ideia;

- você sabe que é corajoso quando... aceita expor suas aflições num blog;

- você sabe que é meio louco quando... percebe que quase ninguém faz isso.

Em tempo: por que as pessoas preferem sofrer sozinhas quando se tem amigos?

PS: a pergunta não é uma autocrítica.

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Marcas na parede

Inocência de criança na parede de uma casa:


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Montanha-russa

Partida: vida disparada
Aventura e dúvida.
Sobe, desce
Vira, vira, vira.
Sobe mais, desce menos
Medo, adrenalina, tensão.
Vida acelerada.
Sobe, desce
Vira, vira, vira.
Parar, pensar, nada.
Sobe, desce
Vira, vira, vira.
Chegada: vida interrompida.
Fim.

segunda-feira, 25 de julho de 2011 | | 0 comentários

Frase

"O trabalho técnico, mecânico e acelerado abole o tempo do pensamento, que exige virtudes atribuídas ao preguiçoso: paciência, lentidão, devaneio, acaso - o imprevisto." 
Adauto Novaes, em ensaio publicado no caderno "Ilustríssima", da "Folha de S. Paulo", ontem (24/7/2011). Para ler a íntegra, clique aqui - é preciso ter senha do jornal ou do UOL.

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Mais de Sampa

Ainda resquícios das recentes idas a São Paulo. Agora, antenas da capital (no pico do Jaraguá e na região da MTV/ESPN Brasil, no bairro do Sumaré):




 

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Abaixo as redes sociais!

Vou contar o que fiz ontem: escrevi um e-mail a um amigo. Para atualizar as notícias (e sequer havia novidades a contar). Ainda assim, escrevi com entusiasmo. E recebi, logo na manhã seguinte, uma resposta também com entusiasmo – sim, percebi isto pelo texto.

Você pode pensar: e daí? Pois um gesto simples como este esconde uma mudança radical que afeta a vida de todos nós.

Com o passar do tempo e o avanço das tecnologias, as pessoas estão cada vez mais “conversando” pelo Twitter, MSN, Orkut, Facebook e cada vez menos cara a cara ou que seja por e-mail (mas um e-mail pessoal).

Que me perdoem os modernos, mas não é possível manter um diálogo minimamente consistente com alguém por meio de 140 caracteres.

Por isso decidi escrever para um amigo. E na noite anterior, liguei para outro a fim de cumprimentá-lo pela passagem de mais um aniversário (algo que poderia ter feito pelo Twitter...).

Vou fazer uma confissão: durante mais ou menos dois anos, decidi isolar-me do mundo. Por motivos diversos, incluindo o afastamento de alguns amigos, optei por recolher-me à solidão. Para quem passa por esta experiência ou pensa em fazer isto, dou uma dica: não perca tempo. O mais frutífero é cultivar as amizades.

O verbo “cultivar” não foi usado ao acaso. A amizade é como uma planta, que precisa ser regada, cuidada, para estar sempre bonita e viçosa.

E como fazer esse cultivo? Simples: mantenha contatos – por e-mails, telefonemas, etc. Por isso, liguei para um amigo, escrevi para outro e ainda marquei uma visita a uma amiga que mora em outra cidade. E vou continuar fazendo isso.

As pessoas cada vez menos se lembram de perguntar “como vai?”, “o que tem feito?”, “precisa de algo?”, “quais seus planos?”, etc. Tudo isso deu lugar a “Blz? E aí?”, “O q vai fazer hj?”, “Veja isso – www........”. Assim, em 140 caracteres.

O ser humano está perdendo a essência do convívio. Tem-se “um milhão de amigos” virtuais, mas basta precisar de alguém que você terá sorte se encontrar uma mão amiga.

Teste você mesmo: quando foi a última vez que escreveu para um amigo ou parente? Quando ligou para perguntar como estão as coisas?

Não se engane: a tela de um computador é mais fria do que você pode imaginar. E ela pode esfriar seus relacionamentos (sejam amorosos, familiares ou com seus amigos).

Fale com as pessoas, escreva para elas, ligue, mantenha contatos reais. Tenha certeza de que isto será muito mais valioso do que qualquer coisa que você possa escrever em 140 caracteres.

Em tempo: no e-mail que recebi como resposta, o amigo propôs lançar uma campanha contra as redes sociais (ou algo mais ou menos assim). Claro que não é bem isso, o exagero apenas serve para reforçar o conceito proposto: retomar o contato mais pessoal, menos virtual.

De minha parte, vou endossar a campanha “Abaixo as redes sociais!”. Assim mesmo, com o radicalismo que a questão exige.

PS: estou esperando o seu e-mail ou o seu telefonema (risos)!

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Para passar vontade...

domingo, 24 de julho de 2011 | | 0 comentários

Frase

"A vida não é um caderno de rascunhos."
Marcos Ramalho, padre da Paróquia São Benedito, em Limeira (SP)

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Flagrante italiano 8

Estes flagrantes vão para o colega Luiz Biajoni. O primeiro deles foi feito em Florença:



Os próximos foram feitos em Lucca:



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"Memória"

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 21 de julho de 2011 | | 0 comentários

Ainda a farra da Copa (e o #foraricardoteixeira)

Outro dia, escrevi neste blog um texto intitulado “Mais sobre a farra da Copa”

O assunto parece óbvio. Nesta quinta-feira, porém, um novo capítulo foi acrescentado à história: o governo de São Paulo anunciou que vai destinar pelo menos R$ 50 milhões (fala-se em R$ 70 milhões) para o futuro estádio do Corinthians. Tudo para garantir a abertura da Copa do Mundo na capital.

Não custa lembrar que, desde a escolha do Brasil para sede da Copa, todas as autoridades envolvidas (incluindo o sr. presidente da CBF e do Comitê Organizador Local, Ricardo Teixeira) garantiram que não haveria dinheiro público nas obras dos estádios (não vou sequer considerar a questão dos empréstimos do BNDES, um banco estatal, financiado com dinheiro do contribuinte...).

O que se vê agora, anos depois, é a destinação direta – como anunciado hoje - de dinheiro público, no caso do contribuinte paulista, para um estádio privado, um evento privado, que dará lucro para poucos. Pior: um secretário de Estado teve a ousadia de dizer que a decisão não passou sequer pelo governador Geraldo Alckmin (leia aqui).

Então ficamos assim: eu, você e todos os demais contribuintes paulistas vamos ajudar, com nossos parcos e suados recursos, a construir um estádio privado (ainda que o dinheiro seja destinado às estruturas provisórias) só para garantir a realização da Copa no Estado e sem que o governador eleito tenha dado seu aval.

Eu não quero participar desta farra. Tenho, pois, a opção de suspender temporariamente o pagamento de tributos ao Estado?

Gostaria muito que o governador e sua equipe respondessem a esta simples pergunta.

Em tempo: quando postei o texto já mencionado, um leitor do blog enviou uma pergunta. “E como que a população pode reagir a isso Rodrigo?”

Respondo: de várias maneiras. Primeiro, não aderindo às manifestações ufanistas, típicas do tempo da “pátria de chuteiras”. Segundo, tomando conhecimento de todas as manobras que estão sendo realizadas para garantir a realização da Copa em benefício de poucos. Terceiro: protestando de todos os meios possíveis e legais.

Para isso, acaba de ser criado um site bem interessante, o “Fora Ricardo Teixeira”. Sugestivo, não? Acesse e veja como participar (só para antecipar, você pode dar uma singela colaboração para esse movimento citando a hashtag #foraricardoteixeira no Twitter). Eu já fiz isto! E você, por que não reage?


PS: além da resposta do governador à pergunta citada neste blog, gostaria também que a presidente Dilma Rousseff ou alguém de seu estafe respondesse à questão levantada pelo jornalista no vídeo acima: “Quando que o governo brasileiro vai dizer basta?”

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O centenário de um visionário

McLuhan está novamente na moda. Seu "O Meio é a Massagem" pode ser lido hoje como uma profecia realizada. Está ali um diagnóstico persuasivo do que ocorre com nossas vidas na medida em que submergem no vórtice da mídia (internet incluída).

Ainda nos anos 60, olhando para a televisão, conseguiu catalogar questões que estão na ordem do dia. 

Previu o fim da privacidade, chamando os meios eletrônicos de "imensa revista de fofoca que nada deixa passar" e onde "não há modo de apagar os erros da juventude". Soa familiar, não? 

Previu que a escola e a academia enfrentariam crises crescentes em razão do seu apego ao texto e o preconceito com outras formas de representação e colaboração, consideradas não sérias. McLuhan propõe como antídoto o humor, dizendo que "uma piada pode ter mais significado que as obviedades comprimidas entre duas capas". Mal sabia que o humor emergiria como a linguagem por excelência da internet. E que a crítica feita há mais de 40 anos ainda é válida.

Previu também a crise do direito autoral e a cultura do remix. Dizia que "qualquer um pode hoje tornar-se tanto autor quanto editor". A fórmula seria "copiar um capítulo deste livro, outro daquele, desapropriação instantânea". Elogiava o amador e dizia que "nossa cultura oficial luta para forçar os novos meios a fazer a tarefa dos antigos".

McLuhan era um homem que ouvia o chamado do século 21 enquanto lutava contra a rigidez herdada do 19. 

ALDEIA QUEBRADA
Mas, tão importante quanto seus prenúncios, está aquilo que não foi capaz de prever. Sua "aldeia global" desagrega-se hoje em infinitas minialdeias, reunindo pessoas com ideias e gostos similares, sem muito contato umas com as outras. 

Citando Poe, confiava na capacidade do homem de "reconhecer padrões". Essa seria nossa tábua de salvação para sobreviver ao redemoinho das mídias.
Não vislumbrou, no entanto, que o processamento de padrões acabaria automatizado e concentrado em algumas empresas, superando de vez qualquer romantismo humanista no embate entre homem e mídia.

MÍDIA TOTAL
Também não previu que empresas como Google, Apple ou Facebook teriam como ambição incorporar todas as mídias e conteúdos (livros, TV, celulares e a própria internet com sua justaposição de meios), o que aponta para o surgimento de uma mídia onisciente de todas as outras.

No centenário de McLuhan, sua obra pode ser lida não apenas como vaticínio bem-sucedido mas também como um conto moral, a nos inspirar cautela. 

Fonte: Ronaldo Lemos, “Intelectual faz diagnóstico do embate entre homem e mídia”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 21/7/11, p. F3.
McLuhan from mc luhan on Vimeo.

* Para ler mais, clique aqui (é preciso ter senha do jornal ou do UOL)

quarta-feira, 20 de julho de 2011 | | 0 comentários

Retratos de Sampa

Duas idas a São Paulo esta semana, à fantástica e empolgante São Paulo, renderam-me - além de muita inspiração - uma série de imagens sobre a tão cantada arquitetura da cidade. A selva de pedra tupiniquim, o mar de concreto, a mistura de estilos, a "força da grana que ergue e destrói coisas belas", a "feia fumaça que sobe, apagando as estrelas...".

São imagens feitas pelo celular, muitas sem qualidade (resolução baixa), mas que servem para mostrar um pouco desta "pauliceia desvairada" - e apaixonante!


 





 







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Frase

“O papel principal do jornalismo é fiscalizar o poder.”
Mônica Waldvogel, jornalista, na GloboNews

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Celebrando o dia do amigo

Hoje é Dia do Amigo. Confesso que não costumo me ligar nestas datas e só soube do fato no início da noite. Ainda assim, quero celebrar.

Sei que tenho uma definição um tanto criteriosa de amizade. Aliás, muito criteriosa. Procuro separar bem amigos de colegas. Estes estão por toda parte, no trabalho, nas festas, na rua, nas mesas de bar. Já os amigos são raros. São encontrados nas angústias e nos momentos de solidão. Sabem interpretar nossos sinais, conhecem nossos sentimentos, compartilham alegrias e aflições.

Ser tão criterioso assim reduz meu rol de amigos, sei disso. Não há problema. Não é preciso que sejam muitos, apenas que sejam amigos.

Os amigos, eu sei, às vezes até resmungam das minhas "exigências", mas sabem que há recíproca – ou seja, podem contar comigo!

Para marcar a data, decidi reproduzir a canção que mais define um amigo pelas minhas concepções. Simples assim:

Você meu amigo de fé meu irmão camarada,
amigo de tantos caminhos de tantas jornadas
Cabeça de homem, mas o coração de menino,
aquele que está do meu lado em qualquer caminhada

Me lembro de todas as lutas meu bom companheiro,
você tantas vezes provou que é um grande guerreiro
O seu coração é uma casa de portas abertas,
amigo você é o mais certo das horas incertas.

Às vezes em certos momentos difíceis da vida,
em que precisamos de alguém para ajudar na saída
A sua palavra de força, de fé e de carinho
me dá a certeza de que eu nunca estive sozinho

Você meu amigo de fé meu irmão camarada,
sorriso e abraço festivo da minha chegada
Você que me diz as verdades com frases abertas,
amigo você é o mais certo das horas incertas

Não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo,
mas é muito bom saber que você é meu amigo.

(“Amigo”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos)


PS: amigo, não preciso nem dizer, tudo isso que eu lhe digo, basta você saber que tem um grande amigo!

Em tempo: meus amigos saberão identificar-se. Recebam, neste dia, um grande abraço, o abraço que não pude dar pessoalmente – seja pela distância (no caso dos que estão mais longe), pela correria do dia-a-dia (no caso dos que estão ao meu lado) ou por ignorância (de não ter simplesmente dado um aperto de mão).

terça-feira, 19 de julho de 2011 | | 0 comentários

"Por que não reagimos?"

Por que os brasileiros não reagem à corrupção? Por que a indignação resulta apenas numa uma carta enviada à Redação ou numa coluna de jornal? Por que ela não se transforma em revolta, não mobiliza as pessoas, não toma as ruas? Por que tudo, no Brasil, termina em Carnaval ou em resmungo?

A pergunta inicial não foi feita por um brasileiro - o que é sintomático. Foi Juan Arias, correspondente do jornal "El País" no Brasil, quem a formulou num artigo recente. "Es que los brasileños no saben reaccionar frente a la hipocresía y falta de ética de muchos de los que les gobiernan?". Y entonces???

Não existe resposta simples aqui. Em primeiro lugar, a vida de milhões de brasileiros melhorou nos últimos anos, mesmo sob intensa corrupção, e apesar dela. Ninguém que leve o materialismo a sério pode desconsiderar esse dado básico.

Além disso, o PT, na prática, estatizou os movimentos sociais. Da UNE ao MST, passando pelas centrais sindicais, todos recebem dinheiro do governo. Foram aliciados. São entusiastas e sócios do poder, coniventes com os desmandos porque têm interesses a preservar, como o PR de Valdemar e Pagot.

Há ainda um terceiro aspecto, menos óbvio, que leva muita gente progressista a se encolher diante da corrupção. É a ideia introjetada de que qualquer movimento político ou mobilização contra a bandalha acaba sendo uma reedição do espírito udenista, coisa da direita ou que serve a seus propósitos. O lulismo soube explorar esse enredo, como se estivesse em jogo no mensalão uma disputa entre Vargas (o pai dos pobres nacionalista) e Lacerda (o moralista a serviço das elites).

Lula nunca moveu uma palha para mudar o sistema político podre que o beneficiou. Com a corrupção sob seu nariz, preferiu posar de vítima da imprensa golpista. Enquanto isso, seus aliados, no PT ou à direita, golpeavam os cofres da Viúva, exatamente como sempre neste país. Está aí a gangue dos Transportes, na estrada há 10 anos.

Fonte: Fernando de Barros e Silva, Folha de S. Paulo, Opinião, 19/7/11, p. 2.

domingo, 17 de julho de 2011 | | 5 comentários

Um "desafio" aos amigos


“Deus nos dá parentes, mas graças a Deus escolhemos nossos amigos.”
Ethel Watts Mumford

Despretensiosamente, assisti neste final de semana a um filme incrível. “Mary e Max” conta a história real de duas pessoas que sofriam de solidão. Tornaram-se amigas e trocaram correspondências durante 20 anos. Cresceram praticamente juntas, mas sem nunca se conhecer. Compartilharam alegrias (poucas) e angústias (muitas).

Inocente, depressivo e ao mesmo tempo empolgante, “Mary e Max” fala acima de tudo de amizade – talvez a mais nobre das relações humanas (considerando que amores, sejam entre pais e filhos ou entre casais, devem incluir necessariamente muita amizade).

O filme me tocou de um modo muito particular. Identifiquei-me com várias situações (não, não sofri “bullying” durante a infância). Tive vontade de chorar em alguns momentos, mas o riso despertado por muitas cenas desfez o nó na garganta.

“Mary e Max” fala, acima de tudo, de pessoas. Eu, você, cada um de nós, com nossas qualidades, defeitos, imperfeições, neuroses, alegrias. "Nós não escolhemos nossos defeitos. Eles são parte de nós e nós temos que viver com eles", como diz Max. E assim devemos nos aceitar, entendendo que ninguém é perfeito, vivendo e aprendendo. Simples assim.

Emocionado, fiquei com vontade de comprar várias cópias do filme e distribuir para alguns amigos. Estava quase decidido a fazer isso, mas mudei de ideia. Resolvi, então, escrever. E lançar uma espécie de desafio. Aí vai:

- gostaria que todos que lerem esta postagem assistam a “Mary e Max” (já está nas locadoras). Lembre-se de que se trata de uma história real. Inspire-se. E, em seguida, escreva para um amigo. Se eu fizer parte da sua lista, escreva para mim! Pode ser uma mensagem aqui ou por e-mail. Com o passar dos dias, verei quantas mensagens terei recebido.

Em tempos de modernidade, tecnologia, redes sociais, etc, será que ainda guardamos espaço para os amigos? Talvez um deles esteja esperando uma palavra sua, minha... E isto talvez possa mudar uma vida. Tal como em “Mary e Max”.

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Sentimentos

Eu devia estar contente por ter conseguido 
Tudo o que eu quis, mas confesso 
Abestalhado que eu estou decepcionado 
Porque foi tão fácil conseguir 
E agora eu me pergunto, e daí? 
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar 
E eu não posso ficar aí parado

("Ouro de Tolo", de Raul Seixas)

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Teixeira e os rojões

Confesso que me surpreendi com os rojões. Estava na igreja quando ouvi o espocar dos fogos. Na hora, pensei: o Brasil se classificou na Copa América. De imediato, meu celular emitiu um sinal. Havia pedido para um amigo me indicar o resultado da partida. Quando olhei, não acreditei: o Brasil perdera nos pênaltis.

Não fiquei surpreso com o resultado, mas com a reação dos torcedores. Não me recordo de ter vivido uma manifestação irônica e de revolta em Limeira contra a seleção como neste domingo. Pela primeira vez, ouvi muitos rojões comemorando uma desclassificação do Brasil.

Obviamente, isto revela um descontentamento do torcedor com o futebol apresentado em campo (se bem que, olhando os melhores momentos, não vi sequer um lance do Paraguai).

Eu, porém, tenho uma suspeita mais profunda e complexa a respeito: acredito que os torcedores estão se cansando dos desmandos e da corrupção no futebol brasileiro – e abrindo os olhos para isto. Se tal situação ainda é difícil de enxergar nas disputas clubísticas, com a seleção parece que não.

A falta de escrúpulos e de interesse público dos que comandam o futebol nacional está cada vez mais em voga. Naturalmente, isto está ligado ao fato do Brasil ter sido escolhido para sediar a próxima Copa do Mundo em 2014. O país está na “crista da onda” e na mira de todo o mundo.

A euforia inicial pela escolha do país rapidamente está dando lugar ao temor anunciado por gente muito séria. Pessoas que previram que a roubalheira correria solta, que a Copa serviria para o bolso de poucos, que as obras dos estádios teriam preços astronômicos, que o país não conseguiria fazer a infraestrutura de modo organizado e transparente.

Os descalabros têm se confirmado dia após dia. E o torcedor brasileiro está vendo tudo isso.

Se muita gente ainda prefere ignorar os desmandos e fazer parte da festa, há um número cada vez maior de pessoas que querem um basta!

Neste caso, o “basta!” tem nome: Ricardo Teixeira, o todo-poderoso presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Alvo de CPIs e denúncias de corrupção mundo afora, o mandatário não faz questão de esconder sua má educação, sua truculência e o uso do esporte mais popular do país em proveito próprio (ainda que seja só para detratar adversários). Isto ficou muito claro na reportagem de Daniela Pinheiro publicada pela revista “Piuaí” (edição 58).

Na reportagem, Teixeira ataca adversários, critica a imprensa local (notadamente os órgãos que não o bajulam e se mostram críticos e isentos) e diz que fará o que for preciso para prejudicar seus “inimigos” durante a Copa. Assim, sem meias palavras.

Não é à toa que o diário “Lance!” publicou na primeira página um editorial pedindo a intervenção do governo federal no Comitê Organizador Local (COL) – órgão máximo da Copa no país – no sentido de destituir Teixeira do comando. O tema também foi abordado na coluna deste domingo do jornalista Juca Kfouri na “Folha de S. Paulo” (leia aqui – é preciso ter senha do jornal ou do UOL).

Acreditar que o governo vá fazer algo é quase uma utopia. Infelizmente, nos últimos anos até o Executivo deste país tem se curvado perante o todo-poderoso do futebol.

No entanto, só o fato da imprensa cobrar e de muitos brasileiros começarem a abrir os olhos já é um bom sinal. Talvez a Copa no Brasil possa produzir este efeito colateral: escancarar os desmandos e as negociatas (vide a questão do estádio de São Paulo no Mundial) daqueles que fazem uso do esporte bretão.

Se assim for, a Copa ainda terá sido útil. Do contrário, nada restará – nem a taça (pelo jeito que nossos atletas estão jogando...).

Em tempo: não foram só os fogos que me surpreenderam neste domingo de jogo do Brasil. Raras vezes estive tão desinteressado em assistir à seleção como hoje. Aliás, praticamente não assisti. Troquei o futebol por um excelente bate-papo com amigos. 

É minha forma de protestar!

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Frase

"Deixando-se de lado o varejão da roubalheira, onde ficam contratos de serviços, de publicidade, ou despesas com cartões de crédito, mordomias e viagens, a crônica de nove anos incompletos de governo petista revelam que há nele uma engrenagem blindada, metódica e articulada de corrupção."
Elio Gaspari, jornalista, em sua coluna na “Folha de S. Paulo” de 17/7/11 (para ler a íntegra, clique aqui – é preciso ter senha do jornal ou do UOL)

sexta-feira, 15 de julho de 2011 | | 0 comentários

Os anos 80 (de novo)

Um registro dos anos 80 que apareceu dia desses na casa de uns amigos:


* Para ler minha ode aos anos 80, clique
aqui.

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Pensar grande

Estive pensando sobre o pensar. Pensar grande.
Pensar grande é um desafio e um peso.
Um desafio porque exige ousadia e coragem. Um peso porque exige reciprocidade do mundo. E pouca gente pensa grande e poucas instituições pensam grande.

Por isso, em geral, os que pensam grande sofrem.
Veja: não estou falando de grandes pensadores.
Em geral, os que pensam grande sonham demais. E correm, por isso, grande risco de se frustrarem.

Outro dia este tema veio à tona numa conversa com um amigo. Ele perguntou se não era melhor não sonhar para não sofrer. A resposta veio, creio eu, em dois artigos do psicanalista Contardo Calligaris na “Folha de S. Paulo” reproduzidos neste blog (aqui e aqui). Em um deles, ele fala justamente de como é fácil – e cômodo – abandonar nossos sonhos.

Os artigos servem como um certo estímulo, mas não mudam a realidade.
E qual é esta realidade: a angústia. Porque quem pensa grande sofre quando não encontra interlocução ao seu redor.

Não sei mais o que dizer. Não tenho dicas nem respostas. Nem procuro tê-las neste momento – aliás, nem sei se elas existem. Só sei que andei pensando sobre o pensar. Pensar grande.

E é preciso coragem!

quinta-feira, 14 de julho de 2011 | | 0 comentários

Ainda sobre os sonhos

Na coluna da semana passada, escrevi sobre a facilidade com a qual desistimos de nossos desejos e, com isso, às vezes, passamos décadas pensando em outras vidas, que poderiam ter sido as nossas se tivéssemos tido a ousadia de correr atrás do que queremos.

A coluna terminava com uma exortação à coragem de agir e com uma explicação possível: desistimos para evitar a dor de fracassar. Pensar que nem tentamos conseguir o que tanto desejávamos seria menos doloroso do que constatar que tentamos e não conseguimos. A desistência seria mais suportável do que o eventual malogro.

Numerosos leitores me escreveram, evocando (e lamentando) alguma desistência passada. O que não é surpreendente: somos quase todos assombrados pela sensação ou pela lembrança de ter desistido (na escolha de uma profissão, de um amor ou de um casal).

A razão é aparentemente simples. Faz dois séculos que nossa origem não determina nosso destino. Não seremos marceneiros só porque esse foi o ofício de nosso pai e avô. Não nos casaremos por tradição nem segundo a escolha das famílias. Escolheremos sempre por gosto ou por amor. Ou seja, temos a incrível pretensão de viver segundo nosso desejo.

E aqui a coisa se complica, porque, neste mundo sem castas fechadas e com poucas fronteiras, as possibilidades são muitas e, talvez por isso mesmo, os desejos que nos animam são variados e, frequentemente, estão em conflito entre si.

Ou seja, escolhemos entre caminhos diferentes, oferecidos pelas circunstâncias da vida, e também entre desejos que são todos nossos. Qualquer escolha implica perdas (dos caminhos que deixamos de percorrer) e desistências (de desejos nossos aos quais preferimos outros, também nossos).

Um leitor, Augusto Bezerril, pergunta se desistir de um sonho não é apenas o efeito de um conflito. Ele tem razão: em muitos casos, desistimos de um sonho para nos dedicar a outro, esperando resolver assim um conflito interno.

Outra leitora, Ana Chan, pergunta se "desistir dos desejos significa viver em frustração". Talvez haja algo disso na nossa insatisfação: a variedade de nossos desejos torna a satisfação difícil, se não impossível.

Mas o fato de ter que escolher entre desejos alimenta outra forma de insatisfação: não tanto uma frustração quanto uma espécie de nostalgia do que não foi - um afeto moderno, como é moderna a pluralidade de nossos sonhos.

Alguns dizem que é por isso que a ficção se torna tão importante na modernidade, para que possamos imaginar (e viver um pouco) as vidas das quais desistimos, os caminhos pelos quais não enveredamos.

Agora, a escolha entre desejos diferentes não é a desistência mais custosa: há indivíduos que não desistem de tal ou tal desejo, eles desistem de desejar. Aqui o afeto dominante não é mais a nostalgia, mas uma culpa da qual a gente parece nunca se curar: a culpa de ter traído a nós mesmos, de ter desprezado nosso sonho mais querido. Essa sensação é especialmente forte quando alguém considera que silenciou seu sonho de infância.

Mais uma leitora, Janaina Nascimento, pergunta: "Você nunca desprezou seu próprio desejo?" (e acrescenta: "Acho que você não vai responder").

Pois bem, desisti de vários desejos a cada encruzilhada, e, às vezes, com a impressão de estar traindo meu maior sonho. Por exemplo - pensava eu, voltando da Flip -, quando sou levado a falar de como me tornei romancista, acabo contando que escrever histórias era tudo o que queria desde os nove anos de idade, mas desisti aos 20, para me conformar à expectativa familiar de que eu fosse para a faculdade. Essa história é verídica e parece ser mesmo uma história de renúncia ou de desistência.

Mas será que é isso mesmo? Será que a gente desiste e renuncia? É possível. Mas a renúncia e a desistência são, antes de mais nada, jeitos melodramáticos de contar nossa história de modo a mantermos a ilusão confortável de que temos uma essência e somos definidos por desejos fundamentais - que (obviamente) não deveríamos trair.

De fato, a vida comporta poucas traições radicais de nós mesmos e de nossos desejos, e muitas soluções negociadas, espúrias, pelas quais a gente busca conciliar desejos diferentes com acasos, oportunidades e outros acidentes, reinventando-se a cada dia.

Fonte: Contardo Calligaris, “Volta da Flip”, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 14/7/11.

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"Galho Seco"

Eu andava acabrunhado e só
Perdido e sem lugar
Feito um galho seco
Arrastado pelo temporal

Pensei até em enrolar minha bandeira e dar no pé
Eu pensei até em jogar fora a minha história, os documentos e aquela fé

Fazia tempo que o sol não derramava luz na minha vidraça
Depois que tudo passa
O vento leva as nuvens negras noutra direção

Também pudera
Uma hora era o fogo que rasgava o chão
Outra hora era a água que descia e afogava toda a plantação

Ainda bem que me restou o seu sorriso
Que me alumia a alma
Que me acalma quando é preciso

E como eu preciso!

(”Galho Seco”, de Zé Geraldo)

quarta-feira, 13 de julho de 2011 | | 0 comentários

Frase

"Jesus continuou dizendo: ´Não fique perturbado o coração de vocês. Acreditem em Deus e acreditem também em mim´."
João, capítulo 14, versículo 1 (Bíblia)

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Imagens da cidade

O nascer do sol em três momentos, visto a partir da Praça Luciano Esteves, no Centro de Limeira. A torre é da Igreja Presbiteriana.



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"Jornalismo, humildade e qualidade"

O jornalista Rosental Calmon Alves é um fenômeno de renovação permanente. Começou a sua carreira de jornalista em 1968. Entre outros veículos, passou pelas Rádios Tupi e Nacional, no Rio de Janeiro, e pelas revistas IstoÉ e Veja. No Jornal do Brasil foi correspondente em Madri, Buenos Aires, Washington e Cidade do México. Em 1995 foi o responsável pelo lançamento da primeira versão para a internet de um jornal brasileiro: o JB Online. Um ano depois trocou as redações pela carreira acadêmica, tornando-se professor na Universidade do Texas, em Austin. Em 2002, criou o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas.

Rosental, um carioca simpático e acolhedor - tenho saudade do nosso encontro em Austin -, surpreende por sua capacidade de adaptação às novas tecnologias. Sua visão de futuro foi reconhecida e homenageada durante o 6.º Congresso de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo, no começo deste mês. Considerado um dos grandes teóricos do jornalismo online, ele chamou a atenção para os desafios a serem enfrentados pelos jornais neste momento de revolução digital.


Segundo Rosental, o surgimento das redes sociais, como o Twitter e o Facebook, não mudou somente o jornalismo, mas também o mundo. "Nunca antes os avanços tecnológicos nos afetaram tanto e, consequentemente, afetaram a forma de fazer jornalismo", observou. "Há mais de uma década que eu venho alertando para isto: não dá mais para continuar fazendo jornais do mesmo jeito."


Essa é uma nova realidade que as grandes empresas de mídia precisam aceitar, ponderou: "Hoje a comunicação não é mais vertical, unidirecional, com a internet ela passou a não ter limites. Outra diferença é que a audiência não é mais passiva, não se trata mais de um monólogo, é preciso haver uma constante troca de informações entre os leitores e o jornal".


Rosental Calmon Alves foi ao ponto. Precisamos, todos, fazer uma urgente autocrítica. E a primeira reflexão nos leva a depor as armas da arrogância e assumir a batalha da humildade. A comunicação, na família, nas relações sociais e no jornalismo, não é mais vertical. O diálogo é uma realidade cultural. Ainda bem. Os oráculos morreram. É preciso ouvir o leitor. Com respeito. Com interesse real, não como simples jogada do marketing. O leitor não pode ser tratado como um intruso.


Os jornalistas precisam escrever para os leitores, e não para os colegas. Alguns cadernos culturais parecem produzidos numa bolha. Falam para si mesmos e para um universo cada vez mais reduzido, pernóstico e rarefeito. O jornal precisa ter a sábia humildade de moldar o seu conceito de informação, ajustando-o às autênticas necessidades do público a que se dirige.


Falta humildade, sem dúvida. Mas falta, sobretudo, qualidade. O nosso problema, ao menos no Brasil, não é de falta de mercado, mas de incapacidade de conquistar uma multidão de novos leitores. Ninguém resiste à matéria inteligente e criativa. Em minhas experiências de consultoria, aqui e lá fora, tenho visto uma florada de novos leitores em terreno aparentemente árido e pedregoso. O problema não está na concorrência dos outros meios, embora ela exista e não possa ser subestimada, mas na nossa incapacidade de surpreender e emocionar o leitor. Os jornais, prisioneiros das regras ditadas pelo marketing, estão parecidos, previsíveis e, consequentemente, chatos.


A juventude foge dos jornais. Falso. Evitam, sim, os produtos que pouco falam ao seu mundo real. Milhões de jovens, em todo o mundo, vibram com as aventuras de O Senhor dos Anéis e com a saga de Harry Potter. São milhares de páginas impressas. Mas têm pegada. Escancaram janelas para a imaginação, para o sonho, para a fantasia. Transmitem, ademais, valores. Ao contrário do que se pensa, os jovens reais, não os de proveta, manifestam profunda carência de âncoras morais. Os jornais que souberem captar a demanda conseguirão, sem dúvida, renovar a sua clientela.


A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso seduzir o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasília e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.


Precisamos, enfim, combater a síndrome ideológica que ainda persiste em alguns guetos anacrônicos. Seu exemplo mais acabado é a patologia dos rótulos. Alguns jornalistas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A boa reportagem é sempre substantiva. O adjetivo é o adorno da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, sempre, uma fraude.


É importante que os repórteres e os responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a imparcialidade (que não é neutralidade) é o melhor investimento. O leitor quer informação clara, corajosa, bem apurada. Não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Não somos construtores de verdades. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a História.


Fonte:
Carlos Alberto di Franco, "O Estado de S. Paulo", 11/7/11.